POR MATTEO BERGAMINI
Um pensamento circular, envolvente, movido por entroncamentos sem fim: Edgar Calel (Guatemala, 1987) é um dos jovens mestres latino-americanos cuja prática seria demasiado simples definir apenas como “artística”.
A mistura de ações, pensamentos, relações e processos – especialmente processos! – que Calel entretém com a própria família e com as comunidades chamadas a construir e a vivenciar o mesmo resultado estético-poético que o artista põe à luz, configura um firmamento onde terra e céu, sonhos e ancestrais, natureza e fatos do dia a dia vêm continuamente reaproveitados para iluminar inúmeras formas de união, material e espiritual.
Ru Jub’ulik Achik – Aromas de um sonho – na língua maia kaqchikel – é o título dessa individual de Calel no Instituto Inhotim, sob a curadoria de Beatriz Lemos e Lucas Menezes. Porém, “individual” é mais uma categorização que nada combina com o percurso do artista: afinal de contas, a exposição é somente o último degrau de um movimento que não apenas tem levado Calel e a sua “unidade especial” a Brumadinho, mas também identifica um percurso que conecta os moradores e o Inhotim, e o seu próprio ateliê, com San Juan Comalapa, o “pueblo” guatemalteco onde a família reside, berço da atividade de Calel para o mundo.

Edgar Calel, Ru Jub’ulik Achik – Aromas de um sonho. Foto de Ícaro Moreno. Cortesia do Instituto Inhotim.
Sendo a primeira individual do artista no Brasil, a Galeria Lago do Instituto abrigará, até 2027, um conjunto de 15 obras, das quais uma dúzia produzidas mesmo em Brumadinho, misturando escultura e instalação, objetos e elementos naturais. «Trato de ler as coisas de várias maneiras», relata Calel, indicando a obra que abre este panorama de terra, fogo, perfumes e alegria de viver: O dono do tempo, uma grande pedra cuja forma remete à de uma tartaruga, à qual o desenho de um pequeno olho oferece uma vida além da própria materialidade, «dando espírito às coisas, para que se comuniquem».
Eis a primeira de uma das possíveis e infinitas chaves de interpretação entregues pelo artista, cuja sabedoria passa também pela forma poética, no sentido mais literário do termo: «Utilizo as palavras para tentar as possibilidades de criar um desenho efêmero, quase a sombra de uma ideia, um conhecimento que permanece no ar, mais espontâneo».
«A interação com Calel foi algo único: os 40 e tantos dias que ele e a sua família passaram em Brumadinho, trabalhando em Ru Jub’ulik Achik, nos permitiram compreender um pensamento que alcança os próprios propósitos sem forçar a natureza dos eventos», ressalta Júlia Rebouças, diretora artística do Instituto, continuando: «Esse lugar que Calel criou foi muito rico e especial para nós como instituição, pois o ateliê não estava executando simplesmente uma planta, um projeto; não tinha uma informação prática a ser solucionada, mas estávamos criando, de fato, um lugar onde o estado da arte, um estado espiritual, um estado de poesia até transitório, pudesse existir e não fosse somente uma grande encenação, mas um núcleo de “coisas” que devemos descobrir, acolher».
De fato, além do estado da arte, há o da vida dos sonhos: é o mesmo Calel afirmando – questionado sobre a atividade familiar compartilhada em todos os afazeres: «Todas as nossas atividades vivem a partir dos sonhos. Os utilizamos como guias, pedimos licença para desenvolver as tarefas da vida e, além disso, pensamos conjuntamente em todas as atividades do dia a dia, sejam elas preparar comida ou a atividade física, já que os meus irmãos são mestres nessa disciplina».

Edgar Calel, Xi ni Chajij chwa Jay — Me cobriram de cinzas, me protegeram, me cuidaram no pátio da minha casa, performance. Cortesia do artista e Instituto Inhotim.
Mais uma atividade circular entre a existência e a arte – apesar de essa divisão não ter o menor sentido na cultura do artista – é a produção de velas para queimar em pedidos de proteção, isto é, as típicas velas coloridas utilizadas nas intercessões com San Simón (São Simão), figura milagrosa resultado da fusão de tradições cristãs e maias, cujo poder oferece prosperidade, saúde e sorte, sem discriminar ninguém. A propósito da ancestralidade e da vida sagrada do fogo, no final de semana da abertura de Aromas de um sonho, Calel foi também protagonista de uma performance realizada conjuntamente com a mãe, o pai e dois dos irmãos do artista: Xi ni Chajij chwa Jay — Me cobriram de cinzas, me protegeram, me cuidaram no pátio da minha casa. As cinzas, espalhadas pelo corpo do artista partindo da cabeça, são utilizadas para representar a mesma proteção invocada aos antepassados, em um ritual comum na Guatemala, que acaba deitando o próprio corpo no chão, “dormindo” e utilizando, simbolicamente, uma pedra como travesseiro: mais uma modalidade de prestidigitar a vida onírica.
«Transito constantemente em diferentes lugares para chegar ao ponto de partida», afirma o artista, remarcando também a vivência que a equipe do Inhotim teve nos dias de visita à casa dos Calel, na Guatemala: uma ida e vinda constante entre Brumadinho e San Juan – como já relatamos –, identificando um deslocamento necessário para entender também a relação simbiótica que o artista instaurou entre os dois lados do continente. A geografia, investigada no sentido mais profundo e conectivo do termo, é mais uma porta para entrar na cosmogonia de Edgar Calel: o artista compartilha e “une” a história da Guatemala com a do Brasil, encontro de similitudes de territórios e de acontecimentos, ambos os países rachados por ditaduras, militarizações e explorações do patrimônio e da natureza. Aquela própria natureza da qual os artistas da Guatemala, como frequentemente acontece com xarás brasileiros, nutrem-se.
«Antes de iniciar qualquer obra, talvez devêssemos nos perguntar se o outro se sente bem. Porque, por vezes, antes da arte, é preciso resolver outras questões. E é justamente na própria arte, nas articulações que ela nos oferece, que podemos encontrar as soluções de que precisamos. Essa claridade também me ajuda na conversa, no entendimento com as pessoas: por isso, ao acabar os preparos dessa exposição, percebo que agora, em Brumadinho, tenho mais uma família», conclui Calel, como todo mundo o chama.
Enfim, mas não por último, este momento tão especial reafirma também o compromisso do Inhotim – em sua nova fase – de transformar o discurso decolonial em uma prática verdadeira, composta por «mais gestos do que diálogo», conforme as palavras de Rebouças, enquanto, talvez, a arte de Calel seja movida por mais diálogo do que gestos.
No entanto, o resultado de um outro pensamento possível está bem claro, também a quem não acredite.
IMAGENS
Para todas as fotos:
Edgar Calel, Ru Jub’ulik Achik – Aromas de um sonho. Foto de Ícaro Moreno. Cortesia do Instituto Inhotim.
Para as da performance (artista coberto de cinzas):
Edgar Calel, Xi ni Chajij chwa Jay — Me cobriram de cinzas, me protegeram, me cuidaram no pátio da minha casa, performance. Cortesia do artista e Instituto Inhotim.
CONFIRA ABAIXO GALERIA DE IMAGENS
Matteo Bergamini é jornalista e crítico de arte.
Trabalha com as revistas italianas ArtsLife e Il Giornale dell’Arte,
e também colabora com a portuguesa Umbigo Magazine.






















































