LIZZI, À MODA FORA DA LINHA

Uma itinerância que é uma travessia: fomos aos Lençóis Maranhenses para conhecer o mundo de Lizzi, anfitriã de um revolucionário estilo que não tem medo de encarar a própria identidade — e a sua complexidade

POR MATTEO BERGAMINI

Estudou entre Salvador e a França; montou o seu ateliê em Bordeaux, mas voltou ao Brasil para não ser somente um adicional no mundo da moda do país mais fashion do globo — por falar em moda globalizada.

Bastaria essa escassa introdução para identificar o mundo de Lizzi (Lysiane Arize, 1984), encantada pelas curvas de areia das dunas dos Lençóis, pelas águas cristalinas ou avermelhadas de ferro, cativada pelas antigas histórias desse lado do mundo — a maré, o enredo musical e místico do Maranhão: ecos marcantes de um estilo bem particular, correspondido também pela inspiração em vozes de mulheres da literatura e até da política: Clarice Lispector e Pureza Lopes Loyola, entre outras.

A nossa travessia dos Lençóis com Lizzi, convidados para descobrir o universo inspirador que a acompanha, começa em São Luís, na casa do centro histórico onde a criativa tem a própria base operativa: “Apesar da cidade abrigar um grupo de operadores culturais muito bacana, envolvidos em atividades que vão bem além daqui, existem pouquíssimos lugares para o desenvolvimento e o conhecimento da arte”, conta-nos Lizzi, remarcando como tudo o que acontece na capital tem a ver com projetos de ocupação a curto prazo, sem incentivo, nascidos da resistência, na guerrilha diária de querer fazer.

Talvez seja por isso que tudo o que se encontra por esse lado pareça vir de uma originalidade incomum, afunilada, profunda.

Lizzi

A respeito disso, Lizzi defende também as atividades dos grupos de Bumba Meu Boi: mais de 500 registrados no estado inteiro, mas poucos beneficiados financeiramente, enquanto a cidade gasta milhões para montar shows de sertanejo durante as festas juninas: “Se pegassem esse dinheiro e investissem nos barracões, não precisaria chamar ninguém: o mundo está saturado de plataformas uniformes; quem vem ao Maranhão busca uma realidade diferente”.

Apaixonada por forró e kitesurfe, com uma primeira formação em matemática, Lizzi conseguiu montar um time de trabalho composto principalmente por jovens incentivados a cultivar as próprias inclinações: de cozinheiros a músicos, de fotógrafos a vendedoras — sales managers, dir-se-ia nos termos do fashion business — a companhia se une para fortalecer o projeto-conceito, completamente entrelaçado com os saberes e as tradições artesanais do Maranhão.

Mas é do Brasil inteiro que chegam os tecidos da alma de Lizzi: jacquard, linho, seda, algodão, por vezes enriquecidos por miçangas, bordados, linhas abertas e cortes ousados, como é a filosofia criativa da estilista.

“O artesanato é arte sem tormento. Requer habilidade, bom gosto, por vezes virtuosismo, mas não se mete a problematizar o mundo”, lê-se no manifesto que Lizzi entrega aos seus hóspedes na Casa Patacas, segunda etapa do nosso roteiro: uma vivenda imersa no meio do Parque Nacional dos Lençóis, longe de tudo, mas perto das estrelas e da vida silvestre.

Matteo Bergamini e Lizzi

De fato, o prazer de receber e compartilhar experiências é mais um capítulo na história da estilista: ainda na França, tornou-se amiga do ex-produtor teatral Thierry Teyssier — hoje uma das figuras mais inconvencionais da hotelaria de luxo — cuja filosofia rejeita os códigos tradicionais em favor de experiências emocionalmente imersivas e efêmeras, priorizando as comunidades locais em detrimento da conveniência dos viajantes. Com o próprio Teyssier — entre os projetos dele está a Dar Ahlam (“Casa dos Sonhos”, em árabe), no Marrocos, à beira do Deserto do Saara, criada em 2002 — Lizzi pensava em uma opção para os Lençóis, mas eis que, com a pandemia, os planos mudaram e ela ficou sozinha à frente da ideia, abrindo, em 2023, três quartos especiais que bem refletem a filosofia do projeto; aqui, tudo é necessário para os padrões do bem-estar mais complexo: o simples.

“Quando viemos em 2017, Santo Amaro não tinha nada. Era só areia. Atravessava-se o rio somente de barco. Com Thierry montamos uma escola de formação, uma horta comunitária dentro da cidade: um projeto de preservação que era justamente o incentivo para os artesãos. Pensávamos mesmo em como agregar a população ao projeto, como contribuir de uma forma limpa para a cidade e a rede ocupacional. Quando Thierry desistiu, falou-me: ‘De todo mundo com quem trabalhei, ninguém recebe melhor do que o Brasil’. Então eu prossegui, aproximando-me cada vez mais das comunidades. Assim veio a Casa Patacas, também em resposta a uma visão ainda muito curta sobre o turismo. É quase impossível achar algum político que pense no Maranhão como um destino diferenciado; para eles, o luxo é um hotel com paredes de vidro”, conta-me Lizzi, apaixonada.

E corajosa em desafiar os estigmas dos mundos criativos. A primeira coleção que ela desenhou, de volta da França, chamava-se Legionnaire d’Amour, em referência à Légion d’honneur, a mais alta condecoração militar do país, criada por Napoleão. Contudo, mesmo com a figura do Pequeno Príncipe a se inscrever como leitmotiv visual, o conjunto era mais uma crítica do que um apoio a um dos estados que mais fomentou guerras e colonizações inacabadas.

“A nossa moda se levanta como uma bandeira de paz, celebrando a diversidade e o desejo de mudança. Por menos Légionnaires (soldados do exército de guerra francês no estrangeiro), acreditamos nos Légionnaires d’amour (soldados de amor pelo mundo)”, clamava a campanha de comunicação.

Em seguida, entraram nos vestidos as dunas e as piscinas, a areia e os oásis, fotografados pela própria Lizzi e logo recortados, abstraídos, costurados em novas imagens a brilhar em uma produção que precisa de um motivo para existir: “Desde que voltei, não penso mais em trabalhar ao ritmo de duas coleções por ano: é desgastante. O trabalho criativo precisa de tempo, de silêncio e, mais do que tudo, deve ter alguma coisa para falar”, assegura Lizzi, também envolvida na prática do reuso de materiais para criar mobiliário: reciclagem de embarcações antigas, como as canoas de maçaranduba de Tutóia — vilarejo no litoral do estado, na divisa com o Ceará —, à maneira da sabedoria do resgate de madeira que Lizzi aprendeu em Manaus.

Atelier Lizzi

Voltando à moda, o estoque da marca continua pequeno: o respeito pelo trabalho artesanal, seja das costureiras de Bumba Meu Boi, seja dos ceramistas de Itamatatiua — comunidade quilombola de Alcântara — ou pelos trabalhadores da carnaúba, fibra de uma palmeira que Lizzi coloca em inúmeros “pontos” das suas vestimentas, passa pelo mesmo tempo requerido pelo trabalho.

“Relaciono-me com muitos arquitetos, especialmente em São Paulo, mas essa minha parceria com a mão de obra daqui não permite criar em série. Inclusive, quando nasce uma série é porque o produto já se industrializou. Lógico, esses objetos vão circulando, mas levam tempo. Mesmo porque eu sempre fiz questão de reconhecer um valor justo aos envolvidos com essas atividades que, pelo visto, muitas vezes existem exatamente como forma de sustento: os envolvidos nem sequer percebem a beleza e a importância desses saberes ancestrais”, comenta Lizzi à mesa do esplêndido quintal-parque da Casa Patacas.

A essa altura, já são muitos os quilômetros percorridos, centenas as fotos tiradas, dezenas os mergulhos nas lagoas, alguns os rios cortados para chegar a Atins, às margens leste do Parque dos Lençóis, onde Lizzi criou a segunda revenda-ateliê, lugar apto também para consertar roupas ou acessórios, em nome de uma moda que não seja de consumo, muito mais companheira de vida. Aqui, como na Casa Patacas, além de beleza para vestir, brotam espaços de conhecimento no sentido mais amplo do termo, onde entrarão também projetos de artistas.

E é em Atins que acaba o nosso passeio especial, que nos presenteou com sol e chuva, raios e um céu que nunca cabe no infinito: Lizzi, a cada minuto, aparece-nos como a sereia encantadora desse “teatro de improvisação” — como ela mesma define os Lençóis nesta temporada incerta, início da época seca, mesmo que as nuvens ainda possam despejar horrores ou presentear dias limpos; momentos de rotas ainda em definição, enfim, o inesperado acontecendo a cada passo.

Foto: Isac Ferreira

Talvez seja esse o resumo exato de tudo: “Além dessas buscas criativas, de relacionamento com as comunidades e tal, esse projeto é a minha busca. Chega uma hora na vida em que tudo parece estar reto, passado na régua, horizontal: aí começa a surgir o medo. Medo de ir ao centro da cidade, medo de atravessar uma lagoa, medo de bicho, medo de você mesmo. Eu quero postergar esse momento; eu preciso de desafios que impliquem entender que a vida não é uma linha reta. O espírito dessa experiência é também entender que existe uma programação que muitas vezes vem a ser desatendida pela natureza. Também acontece de você chegar ao ponto final prefixado por outros caminhos, sendo passageiro em vez de motorista. Enfim, eu não quero me acomodar no lugar do pseudo conforto, pois o conforto traz muito medo mesmo. Além disso, confrontar-se com a natureza é encarar o pavor de uma forma mais lúcida. Eu já estive em muitos lugares naturais, mas este é muito grandioso e todo dia é uma experiência nova: entender os caminhos, acertá-los, errá-los, vê-los cancelados. Mas nada, ainda, impediu-me de chegar”.

A lucidez em cruzar a vida, agora, é com vocês.

Matteo Bergamini é jornalista e crítico de arte.
Trabalha com as revistas italianas ArtsLife e Il Giornale dell’Arte,
e também 
colabora com a portuguesa Umbigo Magazine
As matérias assinadas são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião da Dasartes.

VEJA GALERIA DE IMAGENS

Compartilhar:

Confira outras matérias

Notícias da França

Da natureza para a obra

POR MARC POTTIER
Da natureza para a obra, o título da exposição também poderia ter sido Da obra para a natureza. …

ALTO FALANTE

O que eu tenho aprendido gerenciando coleções de arte pelo Brasil

POR THAÍS FRANCO
Há cinco anos, parti de Porto Alegre para São Paulo para dar continuidade a um trabalho que já …

Notícias da França

As danças tecnológicas de Alice Anderson

POR MARC POTTIER
O trabalho de Alice Anderson é essencialmente performático. Seus rituais instintivos e coreografados aspiram a uma reapropriação de …

Arte & Direito

DIREITO DE REPRODUÇÃO DE OBRA DE ARTES PLÁSTICAS

Por Gustavo Martins de Almeida
No último artigo falei sobre o direito de exposição da obra de artes plásticas, que no …

ALTO FALANTE

Da função pedagógica à ação performática

POR ARTUR DE VARGAS GIORGI
Para o Jair, performer
(em memória).
A lógica espetacular das grandes exposições contemporâneas parece condicionar um aspecto que …

ALTO FALANTE

Lilian Camelli e a instabilidade da permanência

Por Fabrício Reiner
A exposição Desorientação e Firmeza da artista Lilian Camelli na Galeria Contempo propõe ao visitante uma experiência silenciosa …

ALTO FALANTE

Imagens e imaginação

POR ARTUR DE VARGAS GIORGI
No campo das artes e da estética, a noção de imagem é provavelmente uma das mais …

ALTO FALANTE

Como duas mulheres trouxeram o Renascimento e o Barroco para o século 21

Por Flávio Rocha de Deus
A tradição pictórica europeia dos séculos 16 e 17, do Renascimento ao Barroco, construiu o que …

ITINERÂNCIA Dasartes

ARCO e Madri: o abraço espanhol à arte

POR MATTEO BERGAMINI
O mundo está em crise: todos o sabemos. De um lado ao outro, economias vacilantes, conflitos antigos e …

Arte & Direito

DIREITO DE EXIBIÇÃO DE OBRAS DE ARTE

Por Gustavo Martins de Almeida
Quem pode autorizar a exibição de uma obra de artes plásticas. O proprietário, ou o autor …

ALTO FALANTE

Entre Ilhas

POR CARMEN FERREIRA DE TERENZIO
Este texto foi escrito durante minha participação no Art Writing Incubator 2025, programa da Burnaway, revista …

ALTO FALANTE

Um Rubens no Brasil

POR MARÍLIA PASSOS
O enigma barroco entre Antuérpia, Salamanca e São Paulo
Por mais de dois séculos, um quadro pintado em cobre …

ALTO FALANTE

Yolanda Penteado: a dama que transformou as artes no Brasil

POR TIAGO PENTEADO
Yolanda Ataliba Nogueira Penteado (1903 – 1983) foi uma personagem central da história da nossa cultura no século …

Arte & Direito

DIREITO DA ARTE

Por Gustavo Martins de Almeida
Quem tem direitos de autor sobre obras artísticas ou literárias criadas por programas de Inteligência Artificial? …

Notícias da França

Paisagens oníricas de Ilca Barcellos

POR MARC POTTIER
“Sonhamos antes de contemplar. Antes de ser um espetáculo consciente, toda paisagem é uma experiência onírica. Só contemplamos …