POR MATTEO BERGAMINI
Essa itinerância DASartes é alheia. Alheia e talvez inacabada, como o são todas as grandes viagens, permanecendo nos rastros da nossa percepção e, talvez, no do corpo, bem após a “volta à normalidade”.
Os desertos pertencem aos mundos que continuam propagando-se na alma de quem os alcança e, mais que todos, o deserto do Atacama — na área do “Norte Grande” do Chile — leva consigo algo absolutamente mágico, além da sua própria paisagem.
Terra ferida por uma mineração perpétua, hoje em dia escavando cobre e lítio, outrora prata e um pouco de ouro, o Atacama é também região de migrações constantes, em busca de vidas mais cintilantes ou, simplesmente, dignas. O Atacama é também a área mais seca do mundo, onde não existe água doce, mas o que o Pacífico traz é a melhor matéria pesqueira de todos os mares.
Por causa dessa aridez, o céu do “Norte Grande” é também o que oferece as melhores condições para observar as estrelas; não é por acaso que Estados Unidos, Japão e outros países instalaram nesta área do Chile seus observatórios astronômicos: mais um recurso a desfrutar na terra mais estreita do mundo, 4.300 quilômetros puxados entre os Andes e o mar infinito.
Os atacameños, povo originário valente e lutador, resistiu mais de vinte anos à dominação espanhola de 1500, e o que há hoje por lá não é apenas uma mistura social, mas também de sangue: até 1884, a região pertencia ao estado da Bolívia, perdendo o acesso ás águas durante a Guerra do Pacífico.
A essa altura, torna-se claríssimo que também a sobrevivência da arte é coisa quase impossível, heróica. Porém, apesar de todas as dificuldades, Dagmara Wyskiel — curadora e artista polaca naturalizada chilena — há doze edições leva a cabo a Bienal SACO, a única intervenção de arte contemporânea no alcance de 2.500 quilômetros, de Valparaíso até Arequipa, no sul do Peru.
Nascido em 2004 como Festival de Arte Contemporânea, tornou-se Bienal a partir de 2021.
Sob o perfeito título “Ecossistemas Obscuros”, SACO 2025 retrata a própria metáfora do acontecimento da arte em relação ao território nada fácil, porém imensuravelmente fascinante, no qual se desenvolve.
Escreve a diretora, Dagmara, na introdução à exposição: “A história da ciência nos mostrou que buscamos apenas onde esperamos encontrar algo. Parece razoável, mas é muito limitante, porque os ecossistemas obscuros habitam zonas inacessíveis e inóspitas, tanto em nossa mente quanto no planeta. Afinal, a forma da nossa cabeça se assemelha à da Terra”.
Eis que também – como os organismos extremófilos que conseguem viver no solo do Atacama, a vida da arte floresce à beira do impossível.
Com um programa próprio de residências (ISLA), e com o apoio de embaixadas e institutos de cultura, além do patrocínio da mineradora Escondida BHP e do Ministério da Cultura do Chile, o time da Bienal SACO, este ano até o dia 14 de setembro, conseguiu trazer ao Atacama mais de 50 artistas de vários países, do Brasil à Turquia, da Itália ao Chile, da Argentina à Coreia.
Os lugares onde a Bienal acontece, também, têm historias diferenciadas: a maioria das obras estão reunidas nos grandes salões industrias de La Molinera del Norte, antigo moinho aberto em 1966 para produzir pão e outros produtos alimentares à Antofagasta. Acusada de poluir o ambiente, a Molinera fechou-se em 2016 e só esse ano conseguiu ser reaberta graças à intervenção do Servicio Nacional del Patrimonio Cultural, no projeto de transformá-la em um futuro centro cultural. Mais obras encontram-se na Fundación Minera Escondida e um vários outdoors espalhados aos quatro cantos da cidade.
“Esta Bienal é muito diferente de qualquer outra; de qualquer forma, essa é a minha escolha: eu trabalho pensando no público local, um público maravilhoso que nos últimos anos demonstrou-se incrivelmente apaixonado pela arte contemporânea. É por isso, também, que não quero baixar o nível das intervenções, aliás, continuo a treinar a cena local para estar ao lado de artistas internacionais”, relata Dagmara. O resultado é uma mistura explosiva que, exatamente a partir do território antofagastino, percorre os desafios da imaginação, resistindo em um lugar inóspito e não preparado para questões culturais – próprio como a capacidade da micronatureza em sobreviver em um dos ambientes mais hostis da Terra: hiperárido, com radiação solar extrema, solo hipersalino e uma umidade zerada.
Aos que empinam o nariz em ouvir falar de patrocínio por uma mineradora em um território minerado, lembrem-se de como estas estruturas sejam parte fundamental do próprio entorno: a vida não cabe em categorias simples e o que sustenta pode contaminar; o que cria engajamento, gera trabalho, garantindo condições de desenvolvimento, pode afetar vidas, sentimentos, saúde. E criar, obviamente, divisões. De qualquer forma, um ecossistema não é reduzível em assuntos fechados, em dualismos. Ciente de esses preâmbulos, a Bienal SACO se revela como um organismo poroso, absorvente, mestiço: a natureza, mesmo sendo o assunto principal, transforma-se em outras formas, em imagens surreais, em performances a suspender o respiro.
A exemplo, a da artista argentina Alejandra Montiel, Expandir el límite: soprando um inteiro circulo de pó, durante a noite da abertura, Alejandra conseguiu dar uma imagem clara, poética e simultaneamente fortíssima da poluição mineral — cujo reflexo entra, silencioso, na vida de quem habita os lugares explorados do planeta. O fôlego se afoba, a pele se mancha, até que a expectativa de vida de um trabalhador das minas de Antofagasta pode cair para 60 a 65 anos, 15 anos a menos que a média do Chile.
Sob o firmamento, o italiano Carlo de Meo monta uma instalação de dimensões ambientais, composta por silhuetas em madeira recuperada — todos os materiais da Bienal SACO são reutilizados, coletados e montados no ateliê do Consórcio responsável pela manifestação — e por uma cascata de guarda-chuvas. Carlo brinca com a proximidade das palavras ombre (sombras, em italiano) e hombre (homem, em espanhol). O potente sol de Antofagasta torna-se coautor da obra, definindo a relação entre nossa sombra e a dimensão do corpo: metamorfoseamo-nos quando a perdemos, esse elemento imaterial que, sem sombra de dúvida, define nossa existência — já que, como diz a tradição, os vampiros não a possuem. Porém, quando engolidos pelas próprias sombras, os homens transfiguram-se em monstros. Mais uma ocasião para refletir sobre os “Ecossistemas Obscuros” também em sentido político: “O velho mundo morre, o novo não nasce, e nesse lusco-fusco os monstros aparecem”, escreveu o filósofo italiano Antonio Gramsci em Cadernos do Cárcere.
Joaquín Fargas, artista-engenheiro, no espaço da Fundación Minera Escondida, põe em cena Futuros Especulativos, uma instalação-reflexão sobre as dependências de uma futurística religião, cujos adeptos são formas antropomorfas movidas por elementos de mecatrônica que – apesar de serem representações, relembram claramente os antigos devotos ao culto do sol ou às divindades da natureza, assim como o contemporâneo à tecnologia, ao mundo do espetáculo, parecendo-se àquele Big Brother que convocava à adoração e aos minutos de ódio os moradores da Oceania, o grande Estado narrado no romance distópico 1984, de George Orwell.
Composta por pinturas cujo traço é da Op Art, a artista equatoriana Xiomara Errázuriz nos oferece o distúrbio perceptivo que a vista encontra quando imersa de vez no imensíssimo deserto do Atacama: o vulcão Licancabur, o espelho d’água salgada da Laguna Cejar, o Cerro Toco e outros marcos característicos da paisagem em volta da vila de San Pedro vivem nas telas de Xiomara como presenças estranhas, hologramas de outros mundos.
Entre os artistas incluídos na seção de videoarte chilena – dedicada idealmente ao diretor Patricio Guzmán, conforme as palavras da Dagmara: “O artista cujo documentário, Nostalgia de la luz (2010), levou criativos de todo o mundo a desejar conhecer e trabalhar sobre o Deserto do Atacama” – está o chileno Diego Véliz, de Arica, cidade no extremo norte do país, onde ele também criou a casa de produção Candelabro Films, responsável pelo documentário Desierto Sonoro, gravado na mesma região: uma homenagem quase surreal aos territórios extremos do Chile, marcados por identidades absolutamente próprias.
Na linha de investigação do céu e da lua, poético é o trabalho da artista Giovana Zuccarino, Ambrotos: a materialização sobre vidro de una satélites da Terra, realizado com a técnica da colotipia, parte de uma pesquisa mais ampla sobre a história da astronomia no Chile e dos fascínios pela sua instrumentação.
No salão “Guzmán”, encontramos também o vídeo do jovem Felipe Ulloa, Carne y hierro, investigando como o mundo material se liga à sobrevivência, dando voz a narrativas e experiências oníricas que, mesmo não sendo literalmente verdadeiras, expressam o que sentimos, mas não conseguimos nomear: guerras, esperanças, derrotas, bandeiras penduradas e soldados nus, estremecidos no chão são os protagonistas da cena.
Darwin Guerrero, artista equatoriano, coloca no inóspito quintal da Molinera – seco e cuja terra batida ainda revela as marcas de óleos dos caminhões, de pneus antigos e atos de carga e descarga – uns brinquedos para crianças de cor amarela, inspirados nos do Parque Brasil de Antofagasta, uma das áreas mais ricas e bonitas da cidade. O contraste é surreal, até porque não existe possibilidade de jogo: as pequenas estruturas em forma de cisnes são encaixadas no chão ou nas paredes do muro que delimita a área industrial, acentuando o desaparecimento do lazer na escuridão, triturando a infância onde só se fortalece a ideia de trabalho, duro e pós-capitalista, conforme a estrutura política do Chile, o país mais neoliberal da América do Sul.
Falando disso, Salomé Restrepo, colombiana, instala dentro da Molinera a obra Ecosistemas Migrantes: um retrato composto por fotografias penduradas em moldes das montanhas que contornam a cidade, cujas paredes verticais se tornaram, ao longo do tempo, espaços de ocupação – núcleos habitativos espontâneos criados para suprir a carência de moradia para os novos residentes, vindos ao norte do Chile em busca de uma vida melhor, empregando-se na mineração. Por trás desses morros e dentro das barracas, o que resta é a miséria e uma condição de vida que permanece abaixo dos padrões mínimos de qualidade, reforçando também a atenção à questão dos guetos urbanos.
Osceola Refetoff, canadense que vive e trabalha em Los Angeles, exibe imagens tiradas nos incríveis parques ao redor de San Pedro de Atacama em outdoors abandonados pela cidade. Essas fotografias de paz e beleza chocam quem atravessa o ecossistema poluído e em constante movimento da periferia.
Francisco Medel, urbanista e professor chileno, coloca o esqueleto negro de um barco cercado de inúmeros barquinhos de papel cor-de-laranja dentro da Molinera: é uma ferramenta para alcançar sonhos, derivada do próprio ecossistema familiar de sustento, já que a estrutura do grande barco foi aquela do avô do artista – uma vida dedicada ao mar para nutrir o mundo.
Mais conectado com a tutela do ambiente e a visão da paisagem em si, Mantén la calma, da artista uruguaia Valentina Cardellino, desperta curiosidade sobre as mudanças climáticas em uma hipotética viagem em companhia de duas aeromoças que se transformam em performers do desastre.
Fascinante é a videoinstalação – aberta à interação do público – da dupla turca Ahmet Rüstem Ekici e Hakan Sorar: em três telas, imagina-se o passado e o futuro do Atacama, criados por Inteligência Artificial. Acompanhados por microrganismos extremófilos, podemos construir nossa própria “visita” ao deserto, descobrindo flamingos, roupas abandonadas, rochas e fósseis, em uma visão tão absurda quanto próxima da realidade.
Turco é também Mustafa Avcı, que cria uma intervenção sonora utilizando velhos lustres recuperados no teto da Molinera, pendurando-os ao ar livre com outros elementos: o vento se faz músico, e aqui, mais uma vez, a lição é que tudo se recicla e nada desaparece. Terminada a Bienal, as obras se tornarão objetos – itens prontos para serem reinvestidos de outras formas e usos. É a circularidade que, como afirma Dagmara, sempre foi um pilar fundamental de SACO, e nunca uma característica pretensiosa conectada as modas de atitudes ecológicas.
Enfim, é impossível relatar cada trabalho em um só artigo: cada um carrega consigo um encantamento, a capacidade de olhar agudamente por um interstício, de abrir uma fresta de luz no ecossistema obscuro do mistério da vida e, mais do que isso, da complexidade do contemporâneo.
Para concluir, e para olharmos para o futuro: nunca sabemos quanto tempo ainda durará a história mineradora de Antofagasta e do Atacama, nem qual será o destino da velha Molinera, já que a mais imprevisível das disciplinas é, justamente, a política. Porém, recorrendo às palavras do governador da província de Antofagasta, Ricardo Díaz, proferidas durante a abertura: “Vocês, artistas, são capazes de olhar e ir além. É disso que esta região precisa: transcender, deixar de ficar presa na mentalidade de exploração de recursos e abrir-se a um olhar mais humano – que permita encontrarmo-nos, relacionarmo-nos, fazer com que o tempo se transforme em história, e que as histórias tenham sentido. Trazer cultura a esta região que tanto precisa obriga-nos a humanizarmo-nos, a conectarmos”.
Que seja no “Norte Grande” chileno ou além, o valor da arte está aqui: hábil em atravessar a presença humana, exatamente como o próprio deserto faz.
BIENAL SACO – ECOSISTEMAS OSCUROS (Ecossistemas Obscuros)
Até 14 de setembro 2025
Antofagasta (Chile)
www.bienalsaco.com
Matteo Bergamini é jornalista e crítico de arte.
Trabalha com as revistas italianas ArtsLife e Il Giornale dell’Arte,
e também colabora com a portuguesa Umbigo Magazine.









