Shinji-Ohmaki, Liminal Space Air-Time. Foto: Noor Riyadh

Em um piscar de olhos, a arte de amanhã

A itinerância DASartes chega em Riad, capital da Arábia Saudita, onde acontece a quinta edição do Festival “Noor” (de 20 novembro a 6 de dezembro), o maior do mundo – e o mais incrível, dedicado às intervenções de Light Art no espaço público de uma das metrópoles mais vertiginosas do mundo

POR MATTEO BERGAMINI

“Noor Riyadh” (Riad, em português) é simplesmente o maior e o mais impressionante festival de Light Art do mundo. Criado em 2021 sob a gerência de Riyadh Art – um dos quatro projetos originais da capital saudita no âmbito do programa “Visão 2030”, liderado pela Royal Commission for Riyadh City, nasceu para “incentivar a expressão criativa e o diálogo intercultural por meio da arte”, com o apoio de “parceiros estratégicos” e uma inimaginável captação de recursos. Falando em números, de 2021 a 2025, foram mais de 550 as instalações realizadas (comissionadas ou trazidas e adaptadas pelos espaços públicos da cidade) envolvendo mais de 365 entre artistas e coletivos, por mais de 9 milhões de visitas.

Nebras AlJoaib, Between Light and Stone. Foto: Noor Riyadh

De fato, a Arábia Saudita continua a sua jornada para confirmar-se como o destino global da arte contemporânea, tentando alcançar os seus objetivos também em vista da Exposição Universal de 2030, cujos planos de hospedagem visam ter algo como 42 milhões de visitantes: uma cifra absurdamente enorme, mas que demonstra quanto o Reinado de Salman bin Abdulaziz Al Saud – que assumiu o trono em janeiro de 2015, queira esse primado.

Então, após dois anos da nossa última vez no Oriente Médio – quando fomos para Al’Ula, coração do deserto árabe e um dos destinos mais desejados do mundo, onde uma seleção de obras de Andy Warhol vindas da fundação do artista em Pittsburgh foram expostas no Maraya (o famoso centro de arte e teatro espelhado), voltamos a este lado do mundo para descobrir mais um encanto que as noites de Oriente conseguem proporcionar, juntamente à própria inconfessável quantidade de investimentos.

Encor Studio, Sliced. Foto: Noor Riyadh

Noor, “luz” em língua árabe, significa tanto luminosidade como fenômeno, quanto imagem espiritual, de beleza interior e divina; inclusive, An-Noor é um dos 99 nomes de Allah, no Corão.
Mas a luz, sem grandes metáforas, é também sinônimo de velocidade, de modernidade, de progresso: eis a cidade que se desenvolve na velocidade da luz.
Voltando aos números: este ano são 60 os artistas convidados, vindos de 4 continentes, para 35 novas comissões de obras espalhadas no espaço público da metrópole, sob o título de “In the blink of an eye – Em um piscar de olhos”.
Talvez nunca nome foi tão acertado: em um piscar de olhos Riad se abriu ao mundo contemporâneo, tornando-se capital do universo financeiro do Oriente Médio, virou a terceira cidade por habitantes da área e, não por último, em um piscar de olhos inaugurou seis linhas de metrô, com 176 quilômetros de extensão e 85 estações: leram bem, a abertura conjunta do enredo todo aconteceu no passado mês de janeiro e as próprias estações do metrô estão sendo o palco para admirar as cintilantes, incríveis, poéticas e extravagantes instalações de “Noor 2025”, sob o título de “In the blink of an eye – Em um piscar de olhos”.

Dirigido por Nouf AlMoneef, Diretora Sênior de Artes Criativas da Riyadh Art, este ano o Festival é curado por Mami Kataoka (Diretora do Mori Art Museum, Tóquio), Sara Almutlaq (anteriormente curadora assistente na Bienal de Veneza) e Li Zhenhua (especializado em Novas Mídias e Cinema, com colaborações com a Art Basel Hong Kong e o Zentrum Paul Klee, entre outras instituições). “In the blink of an eye”, conforme as palavras de Mami Kataoka, «representa um momento importante para Riad, não apenas no presente, mas também ao se posicionar como um olhar sobre o futuro próximo, sobre o que acontecerá nos próximos dez anos. Nesse sentido, existe um verdadeiro “espírito da luz”, porque falando de luz falamos de ação, de velocidade, de interação e, simultaneamente, da história do ser humano de todos os tempos, já que a luz faz parte da experiência comunitária, de ontem e de hoje».

O elenco das intervenções que nos cativaram a atenção, quer pela potência quer pela poética, poderia ser bem demorado, mas talvez as imagens possam render melhor a percepção da maravilha pela qual as obras nos falam, mexem nos sentidos, deixando-nos repentinamente boquiabertos.

Engenharia do som e informática, mecatrônica, hidráulica, videográfica, animação em 3D, realidade virtual: tudo combina com “Noor” e com a maioria das instalações, mas nada dos imensos processos que tornam “fácil” a maravilha, percebe-se. Realmente, estamos perante  uma mágica acontecendo, e isso também é a estratégia que pode – cada vez mais, aproximar os cidadãos de Riad ao “caminho público” da arte, quase tropeçando nela, esbarrando em videoprojeções e em luas mais terrestres do que nunca.

A propósito, Luna Somnium, inspirada no primeiro conto considerado de ficção científica, escrito pelo astrônomo Kepler a sustentar a teoria heliocêntrica de Nicolau Copérnico, é talvez uma das mais impressionantes instalações reeditadas por “Noor 2025”, criada pelo coletivo italiano Fuse. Ao lado, em um palmeiral escuro, o genial Muhannad Shono – artista saudita representado pela ATHR Gallery e já participante do pavilhão nacional na Bienal de Veneza em 2022, consegue criar uma incrível paisagem cujos reverberos de brilho são criados usando apenas o vento e as luzes da cidade: Amidst the Thirsty Wilderness.

Christophe Berthonneau e Laszlo Zsolt, Synthesis. Foto: Noor Riyadh

O Groupe F – fundado na França em 1990 e liderado por Christophe Berthonnau, realizou performances, shows ao vivo e espetáculos pirotécnicos de um lado ao outro do mundo: em Riad, em um piscar de olhos, a pólvora deixou o seu lugar para um espetáculo de drones (luminosos, lógico) que encantou as centenas de convidados da cerimônia de abertura de “Noor”, no parque da estação do metrô stc – Saudi Telecom Company, um dos patrocinadores estratégicos do Festival.

Em mais uma estação do metrô, a de Al-Hokm – deslumbrante projeto do estúdio de arquitetura Snøhetta, há a projeção do fantástico jardim Unrelenting de Francesco Simeti e no jardim (sim, um jardim aberto aos cidadãos nas escadas do metrô, iluminado pela luz que filtra de cima por uma varanda panorâmica e vertiginosa), a artista Monira Al Qadiri readapta para a ocasião a sua Benzene Float I, obra de 2022. Sobre os vestígios do antigo forte, ainda em Qasr Al-Hokm, vive Place of History’s Inscription, de Abdulrahman AlSoliman. Chegamos aqui com a brisa movendo a gigantesca bandeira da Arábia Saudita no largo da fortaleza, uma melodia árabe ressoando poderosa no ar e crianças brincando “dentro” da luz de tons quentes que cria, quebra, envolve, escreve e dilata o espaço: o retrato perfeito desse festival, «movido pela experiência de atravessar espaços diferentes que, por sua vez, são temporariamente atravessados por outras presenças, as da arte: das raízes de Riad até o futuro da cidade», como lembra a curadora Sara Almutlaq.

De um poste de transmissão ativado pela intervenção humana, gera-se e propaga-se a iluminação de uma série de “sóis” instalados nas copas das árvores dos jardins do King Abdulaziz Historical Center: é The Light to Home, do artista chinês Zhang Zengzeng, uma verdadeira poesia visual. Rejane Cantoni, artista brasileira que há mais de 30 anos se dedica à arte imersiva, apresenta Flying Carpet: um verdadeiro tapete vibrante de espelhos movidos por um sistema mecânico, como na melhor tradição cinética, instalado numa das mais belas áreas da antiga Medina (reconstruída) de Al-Hokm.

Rejane Cantoni, Flying Carpet. Foto: Noor Riyadh

Mais uma interseção entre a arte da luz e música noise move a espetacular intervenção de Edwin Van der Heide, Intersections in Light and Sound: um sintetizador bate forte enquanto nas frondas das palmeiras quebram-se os reflexos de dois feixes de matéria luminosa que não nos deixa sair de uma sensação labiríntica, muitas vezes em contraste com as arquiteturas e os momentos cotidianos da vida em Riad, como o canto do Muezzin. Divertida e curiosa – uma homenagem ao Levitated Mass de Michael Heizer, uma das obras mais incríveis do LACMA de Los Angeles – é Between Light and Stone, da artista Nebras Aljoaib, até chegar aos raios encadeados de James Clar, na impressionante Diagram of Lightning (When the Sky Touches the Ground), também instalada no ingresso da estação do metrô Qasr Al-Hokm, com Riad mais uma vez fazendo de palco.

Embora a qualidade do ar seja frequentemente ruim e o tráfego apavorante, a cidade do futuro revela-se com todas as suas contradições, fascínios e fraquezas. Afinal de contas, o que ilumina “Noor Riyadh 2025” é uma constelação de luz espalhada pelo coração da metrópole: uma edição que celebra o abraço de Riad à ciência, à tecnologia e à  inovação, refletindo o ritmo da vida do amanhã e da arte que virá.

Veja abaixo galeria de fotos

Matteo Bergamini é jornalista e crítico de arte.
Trabalha com as revistas italianas ArtsLife e Il Giornale dell’Arte,
e também 
colabora com a portuguesa Umbigo Magazine.

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