POR MATTEO BERGAMINI
“Há mais que gado no cerrado”: tornar-se-ia um ditado eficaz para satisfazer a curiosidade de quem perguntasse a respeito da atratividade do Centro-Oeste brasileiro.
No mundo do contemporâneo, especialmente o que envolve as artes visuais e o design, a gentrificação cultural não é fenômeno novo no mapa global; na Europa, por exemplo, houve com as cidades de Lisboa, Atenas, Marselha ou Bruxelas – que ainda continua fervendo e atraindo galerias estrangeiras.
A vontade de inúmeros mercantes de pôr as mãos em geografias não saturadas pelos mercados globais coincidiu com a possibilidade de fugir de aluguéis e custos insanos em Londres ou Paris, mesmo mantendo a própria base lá, onde tudo gira. Inclusive, aconteceu com a galeria Almeida & Dale, de São Paulo para o Brasil todo ao longo dos últimos anos, que antes do recém anúncio da abertura de uma futura base na própria capital francesa, “Lá onde vive o mercado mundial da arte” – conforme as palavras dos galeristas, escolheram Goiânia como destino, em 2022.
A capital de Goiás, de fato, transformou-se no berço daquela revitalização cultural que foge do eixo Rio-São Paulo, impulsionada tanto pela feira FARGO, este ano concluindo a sua sétima edição, quanto pela mesma Cerrado, aqui investindo na promoção de artistas locais, jovens ou mais estruturados: Gervane de Paula e Paulo Pires, Siron Franco e Umberto Espíndola, Moacir e Fernando Lindote — último protagonista na galeria com a sua individual “O encontro do imperador e da imperatriz com as araras, os papagaios e os macacos perto do ovo da serpente”, sob a curadoria de Divino Sobral, referência crítica nas artes visuais do Centro-Oeste e também diretor artístico da programação das Cerrado de Goiânia e Brasília.
O mesmo é o curador da primeira individual do artista Rafael de Almeida, “Sob nossos cascos”, no Centro Cultural Octo Marques, reunindo mais de 130 peças (entre dípticos, trípticos, polípticos e séries). Misturando a antiga técnica da cianotipia com a Inteligência Artificial (IA), Rafael — também professor de cinema pela Universidade Estadual de Goiás (UEG) — investiga o seu próprio território com o auxílio de arquivos reais e inventados, seguindo as sugestões do uso da promptografia, mais que uma corrente, dir-se-ia uma tendência idealizada pelo pesquisador espanhol Juan Martín Prada, que deu forma teórica ao pensar no ato de criar fotografias com o uso de inteligência artificial a partir de prompts. A fabulação crítica da escritora e pesquisadora Saidiya Hartman é também matéria de inspiração ao artista: “Aproprio-me dessas possibilidades para poder me ajudar a pensar a respeito dessa paisagem do Cerrado, para escrever a história dos caipiras do Brasil, dos sub-representados que estão colados na modernidade e contemporaneamente superatrasados”, relata Rafael.
O resultado é um conjunto brilhante que não tem um enquadramento certo nas tendencias atuais, velejando entre as ondas do pós-internet e da pós-verdade, mas com um apego extremamente poético conectado ao imaginário do próprio Cerrado, cuja paisagem social, popular, até estereotipada vem remexida a criar histórias nunca contadas porém bem presentes no DNA dessa porção do país tanto importante quanto deixada para trás nas crônicas de um Brasil grande e potente.
Rafael de Almeida, “um dos artistas mais em destaque dos últimos anos no cenário do Centro-Oeste”, conforme apresentação de Sobral, resgata esse tudo; transforma gado, vaquejadas, itinerâncias que se aparentam — de uma certa forma – aos caminhos dos retirantes, festas no campo e, principalmente, a relação de mão dupla entre os bois e os homens, também acariciando um certo sentido político, em uma elegia “imperfeita” do território goiano, já que qualquer registro vive numa eterna parcialidade, aliás, permitindo um trabalho antropológico no sentido mais amplo do termo. Da fato, o artista, “minera” itens que não pertencem a uma ideia exploratória, muito pelo contrario, abrem caminhos de energias limpas: aos (re)encontros com a própria identidade e, talvez, com um apaziguamento em relação a própria história, sem romantizá-la:“Como se desejasse analisar a alma da cultura sertaneja fazendo um mergulho em sua memória” (Divino Sobral).
Mas não acaba aqui, mesmo porque no dia da abertura de “Sob nossos cascos”, foram mais duas mostras individuais, levando para as salas do Octo mais de 500 pessoas: um número fora dos padrões de Goiânia.
De São Paulo vem o artista visual Cadjoo, nome artístico de Carlos Pileggi, cuja mostra – “Sorrindo é Melhor”, remete a uma dimensão de escuta dos ruídos da cidade e também de todas as infinitas solicitações visuais e auditivas que badalam o nosso dia a dia. Por meio de mais 500 desenhos juntos a pinturas, cadernos e animações, Cadjoo transforma as percepções que acontecem nos tempos mortos – “O que acontece quando nada acontece?”, seguindo o questionamento do filósofo francês Paul Virilio, em arte viva, capturando fragmentos de conversas, bordões e marcas visuais do cotidiano.
O terceiro artista em cena é o jovem Marcelo Ramalho, com o apoio do Sertão Negro Ateliê Escola de Artes, criado pelo artista Dalton Paula — cuja sede nos arredores de Goiânia está atualmente fechado as visitas. Ramalho, por meio de impressões sobre papelão, investiga o conceito de banzo, explorando as vivências do corpo negro no espaço urbano e as relações entre memória, pertencimento e resistência.
Mais uma exposição a não perder é a do Centro Cultural da Universidade Federal de Goiás: “Não vou negar”. Curada pelo pesquisador Paulo Duarte-Feitosa, a temática envolve a possibilidade de representar – pelas próprias artes visuais – uma das características mais marcantes do cerrado: a sua música, a sertaneja, obviamente.

Cássia Nunes, Minimalismo Goiano (da série Visita-guiada ao Complexo das Artes Goianas), 2025, Fotoperfomance impressa em backlight
Registro fotográfico: Caju Bento. Figurino: Naya Violeta e Washington Gomes. Colaboração: Anderson Gonçalves (IP Pneus e Recapagem) e Thiago Lemos
Entre mais de 30 artistas convidados, incluindo o mesmo Almeida, sinaliza-se a presença de grandes nomes da história da arte goiana, de Frei Confaloni aos mesmos Marques e Franco, junto aos nomes da nova geração, entre os quais se destaca Cássia Nunes, com três imagens vindas de performances que a artista realizou em lugares icônicos do mundo goiano e do interior brasileiro, inequivocamente representando mais uma busca em torno de uma paisagem tão brilhante em cores e sugestões quanto complexa nas transformações.
Aqui há também um exemplo da trajetória do fotografo goiano Samuel Costa, cujo olhar dialoga com os colegas Alair Gomes e Robert Mapplethorpe, compartilhando a dedicação na descoberta do corpo masculino, de uma forma sensível e, pela época, bem ousada. Costa, de 1975 foi morar em Paris, profissionalizando-s e produzindo intensamente, até 1987, ano de seu falecimento.
Voltando ao presente, no centro do primeiro salão, estende-se até o teto uma coluna grega, branca e brilhante: intitula-se Greco-Goiano, trabalho conjunto do Ateliê Barranco (Talles Lopes, Valdson Ramos e Joardo Filho). A partir de Anápolis, cidade que nas últimas décadas hospedou um dos mais célebres salões de arte brasileiros (o Salão Anapolino de Artes Visuais), os artistas juntaram suas próprias poéticas e seus próprios saberes técnicos para desconstruir o imaginário daquela que eles mesmos definem Neo-arquitetura greco-goiana. Um absurdo histórico? Um estilo pós-pós-moderno? Não exatamente, já que – remarca o grupo – o estilo segue emergindo no Cerrado em diversas formas, inclusive na arquitetura da mansão do maior cantor sertanejo da região, Gusttavo Lima, figura emblemática do conservadorismo no Brasil e cujo apreço pela arquitetura clássica se insere no eixo do fascínio pela ordem, a hierarquia e a grandeza “em oposição às linguagens contemporâneas, que são vistas por esses grupos como ameaça à tradição e à moral”, destacam Lopes, Ramos e Filho.
A descendência da “nova” arquitetura falsamente clássica, idolatrada pela burguesia de cada canto do mundo, em Goiânia paga o próprio valor também em referência ao estilo neoclássico e da própria Art Déco, corresponde ao planejamento da cidade, desenvolvido a partir de 1930. Tornar-se capital do estado de Goiás após a demissão de Goiás Velho, e hoje em dia o centro histórico da cidade tem o maior legado de Art Déco no Brasil, envolvendo também o antigo Teatro Goiânia, exatamente ao lado da Vila Cultural Cora Coralina – mais um espaço a conhecer na topografia da arte da cidade.
Aqui, durante o fim de semana da FARGO, houve a Feira de editoria independente E-cêntrica: com toda certeza, Cora teria gostado do fervo e do burburinho em volta de desenhos, gráficas, estêncil, pequenas obras e livros dedicados inclusive a ela mesma, mulher poderosa da literatura brasileira. Sugestão fora da caixa: quem tiver tempo, conheça a vila de Goiás Velho, antiga capital do estado – conforme já escrito, onde nasceu há alguns anos a associação de mulheres coralinas, artesãs de saberes de todos os tempos, de gastronomia até cerâmica, bordados e papéis: entenderão melhor a potência desse território que, por demasiado tempo, encontrou-se numa posição de desvantagem a respeito dos maiores eixos populacionais do Brasil, explorado outrora como novo paraíso do garimpo – atividade que não deu certo, e hoje em dia vivendo de uma economia completamente focada no agro e na pecuária.
Na Galeria da FAV da UFG, “O Corpo é o Lugar”, organizada pelo artista e professor Glayson Arcanjo. Glayson, cujas investigações relatam a relação do corpo (do artista, da arquitetura e do pensamento) em relação à paisagem sertaneja, expõe aqui uma linda série de trabalhos realizados com terra, cinzas e fita crepe, fissurando a nossa percepção em relação à tragédia das queimas e da desordem organizada por mãos criminosas que afetam o agronegócio, atividade que já em si compromete o meio ambiente. Diego Oliveira, após a sua individual no MAPA de Anápolis, no ano passado, está presente com as próprias “investigações” sobre as imagens do Cerrado, observadas pela estrada: um grande teatro de acontecimentos, misturando as perspectivas de um Brasil rural – de uma certa forma arcaico, com as de um novo país colonizado pela tecnologia e pelas redes sociais.
Desde 2017, a FARGO continua impulsionando essa migração e transformação em direção ao Centro-Oeste, acontecendo no Centro Cultural Oscar Niemeyer, mais um marco icônico da arquitetura goiana. Criada por Wanessa Cruz, Sandro Tôrres e Anna Carolina Cruz, da empresa de produção cultural Arte Plena, nessa sua sétima edição, a FARGO reuniu mais de trinta galerias, espaços de arte e atividades empreendedoras conectadas, dentro das quais destacam-se Ricardo Braudes, com os belos trabalhos dos artistas pernambucanos Ana Neves e Ramonn Vieitez e do jovem paulistano Douglas Reis, pintor de “miniaturas” de paisagens de centros históricos e de arquiteturas de interior, marcados por lojas baratas e igrejas pentecostais.
Uma paisagem que também investiga Carlos Monaretta, exposto na Casa Arte Plena, enquanto a jovem galeria Ocupá, do Rio de Janeiro, levou para Goiânia o trabalho da artista Thais Iroko, conectado com o imaginário das comunidades da zona norte carioca e já exposto também na mostra “Funk”, no Museu de Arte do Rio (MAR). Destaca-se, também, a bela homenagem ao pintor Antônio Porteiro, no centenário do seu nascimento, promovida pela Arte Plena, enquanto a Oca Goyaz apresentou algumas obras do coletivo MAKHU, ainda nos holofotes após ter pintado a fachada do pavilhão central na Bienal de Veneza de 2024, curada por Adriano Pedrosa, e Estevão Parreiras, mais um artista em alta no cenário do Centro-Oeste, atualmente representado pela Cerrado. Inclusive, não deixem de visitar a belíssima casa tombada pelo IPHAN que mantém todos os rastros da arquitetura modernista projetada por David Libeskind, onde tem sede a própria galeria.
Poderíamos completar este roteiro falando sobre comida, arroz de pequi ou “chica doida”, mas é melhor deixar algo para ser descoberto, sem spoilers. Uma terra propícia a encontros e com uma cultura rica, Goiânia se revela em toda sua capacidade de seduzir, depois de décadas afastada das conversas públicas, nem sequer no campo artístico.
Matteo Bergamini é jornalista e crítico de arte.
Trabalha com as revistas italianas ArtsLife e Il Giornale dell’Arte,
e também colabora com a portuguesa Umbigo Magazine.



