ARCO e Madri: o abraço espanhol à arte

Uma feira repleta de propostas do continente Latino e que alcançou um total de 95 mil visitantes, dos quais 40 mil profissionais do mundo todo

POR MATTEO BERGAMINI

O mundo está em crise: todos o sabemos. De um lado ao outro, economias vacilantes, conflitos antigos e novos, até que, na própria semana da ARCO Madri (de 4 a 9 de março), a feira de arte contemporânea da capital espanhola, chegada este ano à sua quadragésima quinta edição, o presidente da Espanha, Pedro Sánchez, respondeu a Donald Trump após a declaração do presidente dos Estados Unidos afirmando a péssima conduta do país europeu em referência ao seu papel na OTAN.

Contudo — para os que estiveram em Madri — esta semana da arte lhes pareceu mesmo um sonho acordado: uma feira repleta de propostas do continente latino e que alcançou um total de 95 mil visitantes, dos quais 40 mil profissionais do mundo todo.

Inclusive, mais uma vez a ARCO contou com o apoio da Casa Real e com a presença dos reis da Espanha na cerimônia de abertura, no passado 5 de março, conhecendo um pouco das 211 galerias de 30 países, chegadas a Madri trazendo o trabalho de cerca de 1.300 artistas, gerando um impacto econômico estimado em 195 milhões de euros para a cidade, contribuindo também para a manutenção de quase mil e quinhentos postos de trabalho. Enfim, um evento que reafirma a sua importância no panorama global da arte, acompanhado em uníssono por uma cidade em festa.

“A ARCOmadrid começou em fevereiro de 1982, no auge da Movida madrilenha, uma explosão contracultural que surgiu após o fim do franquismo e foi caracterizada pela experimentação na música, no cinema, nas artes visuais e na vida noturna: a feira está profundamente enraizada no vibrante ecossistema artístico da cidade e queremos manter essa dinâmica viva e em crescimento”, relatou a diretora, Maribel López, em concordância com aquela que é a esplêndida remontagem da coleção permanente do Museo Reina Sofía, investigada por obras que vão de 1975 até hoje, ou seja, assinalando o cinquentenário do fim da ditadura e a nova vida da Espanha democrática e liberal.

Colección. Arte Contemporáneo: 1975-Presente, mais do que reinterpretar o passado em busca de um espelho para a sociedade atual, procura que as inquietações do presente encontrem múltiplas respostas no passado. A partir dos movimentos contraculturais que ampliaram as fronteiras da sensibilidade, incluindo o feminismo, a consciência ambiental e a descolonização, a nova montagem oferece múltiplas abordagens à arte contemporânea espanhola, seguindo três percursos que regressam ciclicamente aos anos 1970, cruzando e circulando entre o hoje e o ontem. Imperdível, apesar de uma expografia ciclópica que, para alguns, resultou até excessiva e excêntrica.

As movimentações das galerias

A poucos passos do Museo Reina Sofía e do centro cultural La Casa Encendida, antes de entrar na Calle de Argumosa — que leva direto ao bairro multiétnico de Lavapiés — cruza-se a primeira surpresa: na Calle Dr. Fourquet, que já foi a base da histórica galeria Helga de Alvear e que há alguns anos também abriga a sede madrilenha da galeria mexicana Hilario Galguera, voltaram espontaneamente um grupo de galerias que tudo têm a ver com uma dimensão mais “doméstica” (em termos de metros quadrados) do que “de galpão”. De fato, todas estão com vitrine à rua, instaladas no que eram espaços comerciais e em seus porões.

A mudança começou, conforme nos fala o proprietário da galeria Artizar — que sempre teve a sua sede em Tenerife e que abriu há poucos meses exatamente na Calle Fourquet — por volta de setembro passado, chamando aqui The Goma, F2 Galeria, Galeria Silvestre, MPA Room, T20, Xavier Fiol, as mais estabelecidas 1Mira Madrid, Mainsterra Valbuena, Juan Sílio e Espacio Mínimo, galeria que hospeda nesta temporada a curiosa pesquisa de Martí Cormand (1970) na individual “Fuera de Lugar”: pequenas telas a relatar deslocamentos, “sombras” de objetos, esmagamentos, impressões, “migrações” sutis do espaço habitado para o abandonado, do uso para o consumado…

Enquanto o distrito da Calle Dr. Fourquet “renasce”, as galerias madrilenhas na área ao redor do Museo del Romanticismo, na zona do metrô Alonso Martínez, continuam uma certeza. No número 11 da Calle San Lorenzo, três “imperdíveis”: Elba Benítez, La Cometa e Ehrhardt Flórez.

Exatamente na Flórez, a artista catalã Laia Estruch (1981), em destaque no ano passado no Reina Sofía, convida o espectador a ativar o trabalho: é preciso atravessar estruturas infláveis para acessar o espaço vazio da galeria — uma reflexão sobre a percepção e o conceito de “limiar” que se torna visível e material.

Arañas del Paraíso e Sobre los orígenes del arte I-II dão continuidade às pesquisas de María Fernanda Cardoso sobre o comportamento e as estruturas das aranhas tecelãs, na sede espanhola da galeria colombiana La Cometa. Através da macrofotografia, Cardoso revela a complexidade geométrica destes organismos que a artista define como “os mais coloridos, extravagantes, sexy e fascinantes do planeta”.

Ecoando essa ideia de limiar, o projeto Los olvidos, de Miroslaw Balka, investiga lugares de trânsito que convidam e exigem passagem. Nesta instalação, apresentada na Elba Benítez, o artista utiliza capachos comuns para transformar a memória numa soleira entre o que ganhamos e perdemos.

Nas proximidades, na Travesía Cuatro, a pintora Ana Prata relê o gênero da natureza-morta a partir da história da arte, com ecos de Giorgio Morandi e Eleonore Koch. Na Albarrán Bourdais, uma retrospectiva de Annette Messager, Désir/Désordres, percorre a carreira da artista francesa de 1989 a 2024, combinando cabelo, desenho, tecido e fotografia para retratar corpos presentes, ausentes e desejantes.

Por fim, na Pedro Cera, Berlinde De Bruyckere apresenta Plunder, a sua primeira individual na sede espanhola da galeria portuguesa. O termo “plunder” (saque) define a sua poética: uma investigação sobre a espoliação interior, física e ecológica, traduzida em esculturas que utilizam peles, cera e materiais de recuperação.

Mais um projeto especial que estreou em Madri é a comissão anual da Fundación Sandretto, apêndice espanhol da Fundação italiana Sandretto Re Rebaudengo, de Turim, que traz desde 2020 projetos específicos na metrópole espanhola, em lugares pouco conhecidos.

Imagen de la exposición Zodiac Machine en la Fundación Sandretto. Parroquia de Santa Ana y la Esperanza. Foto: Juan Rayos

Projetos, artistas e lugares especiais

Este ano é a vez de Zodiac Machine, projeto do artista Justin Caguiat (Tóquio, 1989), com curadoria de Hans-Ulrich Obrist. O local é mesmo surpreendente: a Igreja de Santa Ana y la Esperanza, no bairro de Moratalaz, a 20 minutos do centro de Madri.

Projetada por Miguel Fisac entre 1965 e 1971, é uma obra-prima da arquitetura religiosa, de caráter brutalista, onde a luz e o espaço foram pensados de forma horizontal no estilo de plateia, para a “participação plena” dos fiéis.

Caguiat, representado pelas galerias Green Naftali (Nova York) e Modern Art (Londres e Paris) e conhecido principalmente pelas suas pinturas de grande escala sobre tela não esticada, apresenta obras de cromatismo intenso que flutuam no espaço austero de Fisac, criando uma experiência mística que convida o visitante a elevar o olhar.

O projeto inclui ainda vídeos, fotografias e instalações sonoras no mercado local e em espaços públicos do bairro. Até 1º de abril, uma oportunidade para descobrir uma Madri fora dos circuitos turísticos convencionais.

Voltando ao centro, bem próximo à icônica estação de Atocha, encontra-se a Serrería Belga, um edifício industrial do início do século XX reformado como centro cultural no coração do chamado “Paseo del Arte” — avenida que toca o Reina Sofía, a Casa Encendida, o Museu do Prado e a Coleção Thyssen.

Durante a ARCO foi a vez da coleção da sociedade imobiliária Idealista: por ocasião do seu vigésimo quinto aniversário, a empresa mostrou pela primeira vez ao público uma seleção significativa do seu acervo, nascido há cerca de quinze anos e que reúne hoje obras de artistas da Europa, América, África e Ásia.

Metamorfosis: espacio y sociedad en la colección Idealista, curada por Elisa Hernando, apresentou mais de 120 trabalhos realizados por 58 artistas internacionais, entre os quais Teresa Margolles, Liu Bolin, Regina José Galindo, Georges Rousse e Massimo Vitali.

Continuando no Paseo del Arte, eis-nos a prestigiar a primeira exposição do artista dinamarquês Vilhelm Hammershøi (1864–1916) no Museo Nacional Thyssen-Bornemisza.

O olho que escuta é o subtítulo perfeito para encarar mais de cem trabalhos onde a ambiguidade dos ambientes, dos olhares e das situações retratadas em tons de cinza abre múltiplas interpretações.

Para finalizar o roteiro, mais um lugar especial que se dedicou recentemente ao contemporâneo: o Palacio de Liria, casa do Duque de Alba.

Após as cenográficas instalações de Joana Vasconcelos do ano passado, agora é a vez do artista madrileno José María Sicilia (1954), representado pela galeria francesa Chantal Crousel.

José María Sicilia, Reina de la noche alba”de la serie El fondo oscuro (2026)

Noites e Dias reúne cerca de vinte obras, incluindo criações recentes e peças de etapas anteriores, traçando uma visão ampla do percurso de Sicilia nas últimas décadas.

Espelhos, impressões digitais, gravuras, pintura, fotografia e formas escultóricas de extrema delicadeza se sobrepõem a uma nova iluminação, criando ambientes únicos em diálogo com a coleção existente no palácio que conta, entre outras, com obras de El Greco, Goya e Ribera.

Um conjunto de reflexos, a revelar uma gramática visual baseada no reconhecimento da história da arte, nos laços familiares e num imaginário cultural partilhado.

Aquele abraço que percebe quem chega na Madri “de la movida” na mágica semana da ARCO.

Matteo Bergamini é jornalista e crítico de arte.
Trabalha com as revistas italianas ArtsLife e Il Giornale dell’Arte,
e também 
colabora com a portuguesa Umbigo Magazine.
As matérias assinadas são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião da Dasartes.
Compartilhar:

Confira outras matérias

ALTO FALANTE

Como duas mulheres trouxeram o Renascimento e o Barroco para o século 21

Por Flávio Rocha de Deus
A tradição pictórica europeia dos séculos 16 e 17, do Renascimento ao Barroco, construiu o que …

Arte & Direito

DIREITO DE EXIBIÇÃO DE OBRAS DE ARTE

Por Gustavo Martins de Almeida
Quem pode autorizar a exibição de uma obra de artes plásticas. O proprietário, ou o autor …

ALTO FALANTE

Entre Ilhas

POR CARMEN FERREIRA DE TERENZIO
Este texto foi escrito durante minha participação no Art Writing Incubator 2025, programa da Burnaway, revista …

ALTO FALANTE

Um Rubens no Brasil

POR MARÍLIA PASSOS
O enigma barroco entre Antuérpia, Salamanca e São Paulo
Por mais de dois séculos, um quadro pintado em cobre …

ALTO FALANTE

Yolanda Penteado: a dama que transformou as artes no Brasil

POR TIAGO PENTEADO
Yolanda Ataliba Nogueira Penteado (1903 – 1983) foi uma personagem central da história da nossa cultura no século …

Arte & Direito

DIREITO DA ARTE

Por Gustavo Martins de Almeida
Quem tem direitos de autor sobre obras artísticas ou literárias criadas por programas de Inteligência Artificial? …

Notícias da França

Paisagens oníricas de Ilca Barcellos

POR MARC POTTIER
“Sonhamos antes de contemplar. Antes de ser um espetáculo consciente, toda paisagem é uma experiência onírica. Só contemplamos …

Notícias da França

TERRAL de Clara Fernandes e Rubens Oestroem

POR MARC POTTIER
Após as exposições das irmãs Milhazes, Luiz Zerbini e Daniela Busarello, para esta quarta exposição, é importante para …

ITINERÂNCIA Dasartes

Em um piscar de olhos, a arte de amanhã

POR MATTEO BERGAMINI
“Noor Riyadh” (Riad, em português) é simplesmente o maior e o mais impressionante festival de Light Art do …

ALTO FALANTE

Maria Eugênia e o roubo de Matisse: memória e subtração

Por Fabrício Reiner
Sabe-se que a história é tecida por escolhas e silêncios que se entrelaçam segundo arranjos de poder e …

ITINERÂNCIA Dasartes

Quando as pedras falam: Edgar Calel no Inhotim

POR MATTEO BERGAMINI
Um pensamento circular, envolvente, movido por entroncamentos sem fim: Edgar Calel (Guatemala, 1987) é um dos jovens mestres …

ALTO FALANTE

A Bienal – arte e responsabilidade

Por Fabrício Reiner
A 36ª Bienal de São Paulo – nem todo viandante anda estradas – aposta por uma experiência que …

ITINERÂNCIA Dasartes

Perambular d'arte pernambucano

POR MATTEO BERGAMINI
Dizem os recifenses que do encontro dos rios Capibaribe e Beberibe criou-se o oceano Atlântico: uma lenda divertida …

ALTO FALANTE

Leiko Ikemura e Philipp von Matt: Presenças Convergentes nas Bienais de São Paulo

POR TEREZA DE ARRUDA
Neste segundo semestre de 2025, São Paulo torna-se palco de significativos encontros entre arte e arquitetura com …

ALTO FALANTE

Pintura e poesia

POR ARTUR DE VARGAS GIORGI
João Cabral de Melo Neto, um dos maiores poetas brasileiros, foi um grande admirador das artes …