UMA CONCHA

Há artistas que revelam o mistério e a incerteza. Vagam em universos colisivos, como a noite dos sonhos, o sublime ou o infortúnio. São delicados e sutis, como os finos grãos de areia de litorais imaginários. Caminhamos com eles na fronteira entre o seco e o úmido, sem saber jamais onde estaremos. Nossos passos nos […]

Há artistas que revelam o mistério e a incerteza. Vagam em universos colisivos, como a noite dos sonhos, o sublime ou o infortúnio. São delicados e sutis, como os finos grãos de areia de litorais imaginários. Caminhamos com eles na fronteira entre o seco e o úmido, sem saber jamais onde estaremos. Nossos passos nos levam a lugares de arbitrários e entrópicos julgamentos, e nos
deparamos, no dia claro, com o acaso e a espuma e a concha, abandonadas na praia pela maré alta. Ainda menino, um dos meus divertimentos era olhar as estampas de um velho livro da biblioteca de meus pais sobre a obra do artista francês Odilon Redon [1840– 1916]. Cativava-me o falso colorido das reproduções e o mundo etéreo de seus jarros de flores, paisagens imprecisas e as figuras oriundas de sonhos bons. Saltava as páginas que atormentavam-me, repletas de imagens sombrias, pesadelos e um mundo que não compreendia e só era real, quando, à noite, sonhava.

Odilon Redon, Spirit of the forest

No início dos anos 1970, eu copiava, a óleo ou pastel, várias de suas naturezas-mortas. Em visitas sazonais aos ateliês de José Paulo Moreira da Fonseca, Iberê Camargo, Abelardo Zaluar e tantos outros amigos de meus pais, eu levava comigo uma pasta esverdeada com meus trabalhos, que mostrava a esses “quase-pais” de ofício. O mais doce de todos, José Paulo Moreira da Fonseca, que
também era poeta, como meu pai, amava música e se espantava com minhas precoces e juvenis descobertas: Mahler, Scarlatti, Bach, Brahms e muitos outros.

Odilon Redon, Flowers in blue vase

Música e pintura, artes que atormentaram a alma, o corpo e o espírito do menino que fui entre os anos de 1960 e 1970, ainda me fascinam.

A concha, obra de Odilon Redon, pequeno pastel sobre papel, hoje pertencente ao Musée d’Orsay, é uma clara evocação do mar e da carne feminina. Considero essa imagem ambígua, preciosidade de uma das várias possíveis histórias da pintura, da capacidade de ligar a natureza, nossos arquétipos e o medo que espreita em toda cavidade oculta deste mar e de mares, como os de Turner, Hopper, Castagneto, Monet e tantos outros. Esta concha, provavelmente trazida das ilhas Seychelles por um dos primos Leblond, ocupava um lugar de destaque sobre a lareira do apartamento de Odilon Redon na avenue de Wagram, no 8° arrondissement de Paris.

Odilon Redon, Shell

Seychelles, este nome com musicalidade poética e erótica, como uma peça de Debussy, Janáček ou, tardiamente, Federico Monpou, recanto distante, insular, ao longo da África oriental, é a  metáfora da pintura de Odilon Redon. Arquipélago de sonhos, poucos foram os que viveram e presenciaram suas águas turmalinas e suas verdes florestas.

Gonçalo Ivo.

Vargem Grande, 7 de maio de 2021.

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