Saturno, Francisco de Goya y Lucientes,

UM OSSO?

Vagalumes cruzam a noite de Vargem Grande neste fim de primavera, e, em voos ilógicos, desenham abstrações no vazio, riscam de luz prata a púrpura escuridão. Vêm de sítios ocultos, partem bem antes da aurora, para nunca mais. Deixam suas luminescências nas trevas, como orações a nos sussurrarem segredos ocultos. Traçam efêmeras teias de luz, […]

Vagalumes cruzam a noite de Vargem Grande neste fim de primavera, e, em voos ilógicos, desenham abstrações no vazio, riscam de luz prata a púrpura escuridão. Vêm de sítios ocultos, partem bem antes da aurora, para nunca mais. Deixam suas luminescências nas trevas, como orações a nos sussurrarem segredos ocultos. Traçam efêmeras teias de luz, de vida e de morte, como parcas a
nos imporem um destino já traçado.

Diante da sala negra de Francisco José de Goya y Lucientes (1746 – 1828) em Madrid no Museu do Prado, contemplo as pinturas da Quinta del Sordo. Foram concebidas para não serem vistas; são obras de culto pessoal. Esse é um de seus inúmeros enigmas. São imagens nascidas em águas turvas, que em seu negrume dificilmente revelam significados. Submergimos como num sonho ruim, no tênue limite entre o delírio e a pretensa realidade. E, como em um mar de sargaço, filtram a luz do dia a esconder seixos, grãos de areia e conchas, que se fecham ocultando mistérios.

El aquelarre o El gran cabrón, Francisco de Goya y Lucientes.

Foram executadas com tinta a óleo diretamente sobre as paredes da Quinta del Sordo . São essência e testamento de uma alma plástica conturbada. Francisco de Goya foi um artista eclético, inovador, contraditório, capaz de representar os opulentos e sublimes seios da marquesa de Santa Cruz, o libidinoso sorriso das majas, ao mesmo tempo que retratou Dos viejos comiendo sopa , terrível e sarcástica caricatura do homem em seu fim e decrepitude. Para André Malraux, o que chamamos de arte moderna teve início com a poliédrica obra desse artista aragonês. Em seu ofício, percorreu do picaresco ao inexplicável, do sonho à bruxaria, do delírio à loucura. Sua arte guarda toda poesia, miséria e mistério da vida e do mundo.

Dos viejos comiendo, Francisco de Goya y Lucientes.

Goya foi uma estrela negra e fulgurante, e transitou nos mundos, dos vivos e dos mortos. Em sua pintura El tres de mayo de 1808 en Madrid o Los fusilamientos en la montaña del Príncipe Pio, datada de 1814, estampa a dramática cena de um homem prestes a ser executado, ajoelhado com os braços abertos para o alto, suplicando redenção. No chão encharcado de sangue, jaz uma figura morta, como se fosse sua sombra ou o rebatimento temporal, como numa épura.

El tres de mayo de 1808 en Madrid o Los fusilamientos en la montaña del Príncipe Pio, Francisco de Goya

John Berger, escritor inglês, em seu livro Berger on Drawing, de 2005, afirma que, « quando as palavras se aplicam às artes  visuais, tanto umas como as outras perdem precisão. Ponto morto «. No mesmo livro, reflete sobre Van Gogh e questiona se é possível escrever algo sobre esse artista: « Penso em todas as palavras que foram escritas, inclusive as minhas, e a resposta é não. »

Porém, sempre que visito a sala negra, uma pintura me intriga e causa espanto. É a imagem de um cão de perfil. Minha grande dúvida, quando me aproximo de El perro semihundido, é saber o porquê e para onde olha o acanhado cão. Estaria mirando algo transcendental, melancólico, uma estrela, um vagalume ou um simples osso?

Perro semihundido, Francisco de Goya y Lucientes.

 

Gonçalo Ivo,
Vargem Grande, 18 de dezembro de 2020.

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