"Charles Wilp, 1978" - Joseph Beuys

Tempus Fugit – Arena

Hoje contemplei velhas fotografias. Algumas estavam em porta-retratos sobre as mesas. Outras se projetavam das brancas paredes de meu ateliê de Vargem Grande, Teresópolis, nesta ainda fria madrugada. Assemelhavam-se a estampas fantasmagóricas, aparições bruxuleantes que só se materializam em sonhos. A necessidade de representar as coisas do mundo real ou onírico sempre foi um dos […]

Hoje contemplei velhas fotografias. Algumas estavam em porta-retratos sobre as mesas. Outras se projetavam das brancas paredes de meu ateliê de Vargem Grande, Teresópolis, nesta ainda fria madrugada. Assemelhavam-se a estampas fantasmagóricas, aparições bruxuleantes que só se materializam em sonhos. A necessidade de representar as coisas do mundo real ou onírico sempre foi um dos nossos credos para superar o efêmero, o constante rompimento da velocidade do tempo e o entendimento de mudanças em nossas vidas. Mesmo em épocas imemoriais, imobilizar o instante através da imagem é a sutil evidência de que o registro tem como função primordial «guardar momentos », como se fossem fotogramas ou segredos a serem vistos num futuro desconhecido, no qual não estaremos mais. Imagens são sedimentos, extratos de sucessivas camadas superpostas no solo em sua verticalidade.

Lembro das fotografias de Jacques Henri Lartigue. Reportavam a um passado impreciso borrado por grãos de prata. Recordo-me também da enigmática e dionisíaca figura do artista alemão Joseph Beuys (1921-1986) sob o sol de Diani, praia da costa do Quênia, em 1974. Essas imagens foram feitas pelo fotógrafo Charles Wilp e graças a elas temos o registro das intervenções de Beuys sobre as areias do litoral africano, acontecimento que em mim suscitou um grande desejo de evasão. Beuys cria sobre a areia uma construção cósmica, de concepção primitiva, rudimentar e xamanista, em que a gramática da representação de alces, bisontes, nus femininos, esqueletos e até mesmo uma trama geométrica, que faz recordar currais de peixe, padrões de tecidos do Senegal ou edificações de adobe e bambu se engastam no mundo como fósseis contemporâneos.

“Charles Wilp, 1978” – Joseph Beuys

Todo este deslumbrante firmamento de imaginação arcaica e primitiva, coberto de sal e areia, é acariciado pelo vento que sopra do mar e alcança os recortes, as falésias e os coqueirais da costa africana, criando o fluxo de um sopro que me conduz à liberdade, ao irracional, à mitologia e às remotas cavernas de Altamira e Lascaux.

Beuys, nessas imagens fotográficas contrastadas e saturadas, assemelha-se ao ícone de um grande inseto, talvez um gafanhoto incrustado em pedra vulcânica ou outro bicho qualquer a extrair do solo um verme ou inserir nele algo que a providência divina apagará de Diani pelo ciclo lunar e os movimentos das marés.

Pintura em caverna de Altamira

A natureza transforma esses desenhos de Diani em frágeis e efêmeras efígies do inefável. Em Altamira, temos as imagens das palmas das mãos de nossos ancestrais e elas nos dizem : « Estivemos aqui ». Joseph Beuys esteve em Diani. Deixou-nos o legado de seus desenhos sobre a areia e sob o sol que a maré montante veio apagar na escura e silenciosa noite do mundo.

 

Vargem Grande, 8 de dezembro de 2020
Gonçalo Ivo

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