SEMPRE EUROPA / FRANÇA e ITÁLIA

Biarritz, 20 de janeiro de 1991 Denise escolheu Biarritz para pernoitarmos. Lembrou das antigas fotografias de Jacques Henri Lartigue, nas quais aparecem vultos imprecisos na beira da praia. Nos hospedamos no hotel Val de Flores, uma casa branca de dois andares. É o final de um domingo morto – a cidade está vazia. O sono […]

Biarritz, 20 de janeiro de 1991

Denise escolheu Biarritz para pernoitarmos. Lembrou das antigas fotografias de Jacques Henri Lartigue, nas quais aparecem vultos imprecisos na beira da praia. Nos hospedamos no hotel Val de Flores, uma casa branca de dois andares. É o final de um domingo morto – a cidade está vazia. O sono veio junto ao murmúrio do mar, logo abaixo das avenidas e falésias.

Jacques-Henri Lartigue, at the Rocher de la Vierge, 1927

Paris, fevereiro de 1993

Chegamos em Amsterdam no início de fevereiro. Passamos alguns dias. Meu amigo, pintor e poeta George Iso havia organizado uma exposição na Galerie Debret, na rue de La Boétie. Um jovem banqueiro, M. Alain De La Porte, se interessou por nosso trabalho e acordou conosco uma troca como pagamento do aluguel de um vasto apartamento no 40, rue du Mont Thabor. O prédio dos anos 1930 será reformado durante alguns meses. É quase o fim de um inverno não muito rigoroso, mas que acabou nos surpreendendo com uma intensa nevasca tardia. Vivemos no terceiro andar e, como não temos geladeira, pois o apartamento está vazio, costumamos deixar as garrafas de vinho e de água do lado de fora das janelas. É frequente que, de vez em quando, uma delas deslize do parapeito e caia na cour, transformando-se em milhares de pequenos cristais que refletem a luz da noite e traduzem a intensidade das noites frias. Neste edifício, somos cinco: Ruth Aquino, jornalista e companheira de  George, Denise, eu e uma velhinha, que se recusa a vender seu apartamento ao jovem banqueiro. É a primeira vez que vivo em um lugar sem fogão, geladeira, móveis e armários.

Denise está grávida e M. De La Porte providenciou imediatamente uma cama de casal e fez funcionar o elevador, pois estamos no terceiro andar e a velhinha no quinto. Enquanto eu passo o dia no ateliê pintando, Denise dorme. Costumamos andar à noite pelo 1er arrondissement de Paris e, no lixo, encontramos móveis e utensílios – poltronas, estantes, pratos – que em alguns meses transformam nossa casa em um lugar. George trouxe um forno de micro-ondas, oferecido por seu primo, chofer de táxi.

Com frequência, recebemos amigos. Agora somos uma comunidade. Aqui pintei a totalidade da exposição dividida com George na Galerie Debret. Aos poucos, Paris me oferece seus segredos e mistérios.

Veneza, 18 de março de 1993 | Torcello

Só agora pudemos ver o interior da Basilica di Santa Maria Assunta e seus mosaicos em negro, dourado e vermelho.
Ao atracar em Torcello, o barco manobra com dificuldade, remexe o fundo do pântano, lançando espuma e destroços na pequena praia junto ao cais. Há um bosque que precisamos atravessar para chegar à vila em ruínas. O silêncio é interrompido pelo ruído do jato que decola do aeroporto Marco Polo e pela conversa dos poucos turistas. As páginas de John Ruskin me vêm à memória nesta manhã de mormaço que inunda o mundo de claridade.

Gonçalo Ivo
Madrid, 4 de outubro de 2021.

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