Jannis Kounellis, Untitled, 2011

SAGRAÇÃO

PAI Nem a água que corre retorna ao seu manancial, nem a flor desprendida de sua haste jamais voltará à árvore que a deixou cair. Li Tai Po, China, séc. VIII Sevilla, 22 de dezembro de 2012. Em um derradeiro abraço me despedi de meu pai. Caminhou em direção a uma nova aurora ao pisar […]

PAI

Nem a água que corre retorna ao seu manancial,
nem a flor desprendida de sua haste jamais
voltará à árvore que a deixou cair.
Li Tai Po, China, séc. VIII

Sevilla, 22 de dezembro de 2012. Em um derradeiro abraço me despedi de meu pai. Caminhou em direção a uma nova aurora ao pisar o orvalho daquela madrugada. Iríamos visitar o Museo de Bellas Artes de Sevilla. Lêdo Ivo (1924 – 2012) tinha curiosidade por minha crescente admiração por artistas como Francisco de Zurbarán, José de Ribera, Velázquez e Alonso Cano. Talvez ao nos
aproximarmos do século de ouro espanhol, uma nova janela se abrisse a revelar o que há de sagrado e espiritual na vida e na arte.

Em nossas jornadas espanholas, pressentia a predileção do poeta por uma criação vernacular, como a de Goya a mostrar loucura, vulgaridade, violência e irracionalidade ancoradas a sonhos. Lêdo procurava o exato lugar alcançado pelo olhar do El perro semihundido, os sussurros obscenos trocados pelos velhos decrépitos comendo ou as macabras fabulações das parcas sobrevoando o imaginário e trazendo o mau agouro. A visita ao museu jamais aconteceu. Lêdo Ivo preferiu ficar na Marisquería Emilio, no popular bairro de Triana a beber o rico Albarinho. Durante a tarde quis contemplar o Guadalquivir, admirar suas águas, como uma recordação da infância, quando o mundo todo era somente o encontro entre a lagoa, a nuvem branca e o verde mar de Maceió.

Perro semihundido, Francisco de Goya y Lucientes,

VESTÍGIOS

A imagem de centenas de velhos sapatos dispostos no chão na penumbra de uma sala no VIII arrondissement de Paris me perturba até hoje. Não me recordo mais em que ano se sucedeu, porém ainda consigo pressentir o odor de gás que a cena evocava ao me transportar no tempo a Auschwitz e a Treblinka. Esta obra de Jannis Kounellis (1936 – 2017) rivaliza com outras, como aquelas em que o artista grego utiliza velhos instrumentos musicais lembrando fanfarras e uma espécie de alegre marcha fúnebre, como no dia dos mortos no México ou uma sagração primaveril.

Em 1990 pude ver no Gemeentemuseum, em Den Haag, uma suntuosa mostra de Kounellis. Eram esculturas feitas com chapas de aço, carvão, estopa, feltro e toscas e volumosas peças de madeira bruta evocando gigantescos pregos. O cenário sugeria misteriosos ritos, como o de uma iminente crucificação de Gulliver em uma de suas viagens enredando narrativas ilógicas. A poucos quilômetros dali, em um passeio de barco por tortuosos canais e rios no porto de Roterdã, deparei-me com uma enorme montanha de detritos. Nela, jaziam materiais utilizados por Kounellis. Não agregavam ao mundo mais utilidade ou significado, a não ser para os meus olhos. Aprendi a compreender este teatro de sobras e vestígios, crueza e estranhamento, pois a arte é a elegia do todo, tempo para o belo ou para os extratos da degradação.

A enfarruscada e fria tarde de inverno mimetizava a imagem da pirâmide de dejetos industriais com a sinuosidade dos rios e canais serpenteando em direção à liberdade do mar do Norte. O espelho d’água guardava nuvens, as luzes dos navios de carga e o baixo e cinza horizonte do céu holandês.

Jannis Kounellis, Untitled, 2012

 

Gonçalo Ivo
Vargem Grande, 27 de janeiro de 2021.

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