FOTO: Jaime Acioli

PER UN AMICO

Conheci o pintor José Maria Dias da Cruz em 1980 no apartamento de Estela e João Cabral de Melo Neto, na Praia do Flamengo… Em sua coluna, Gonçalo Ivo revela sua admiração e amizade pelo talentoso pintor.

One of these days
I’m gonna sit down and write a long letter
To all the good friends I’ve known

Neil Young

Conheci o pintor José Maria Dias da Cruz em 1980 no apartamento de Estela e João Cabral de Melo Neto, na Praia do Flamengo. Leda e Lêdo eram grandes amigos do escritor Marques Rebelo, seu pai, e de Elza Proença, sua madrasta. Acompanhava seu trabalho havia quase uma década. Vi inúmeras exposições suas nos anos 1970. Chamou-me atenção a fineza, o delicado trato com a tinta a óleo e o toque preciso do pincel. As imagens eram construídas como um mantra, em que repetidas e sucessivas pequenas pinceladas iam dominando o espaço por meio de um colorido em tons pastéis. Tudo me recordava nobres peças de marfim, porcelanas, mármores, uma sabedoria antiga e esquecida. Quando olho para suas obras dos anos 1970 e do início dos anos 1980, um manto diáfano parece velar e filtrar o colorido, imprimindo uma musicalidade doce, como um quarteto de cordas de Haydn.

Giorgio Morandi (1890 – 1964) sempre foi uma referência para José Maria, seja pela constante escolha de naturezas-mortas como tema, seja pelo colorido em ocres, sépias, esverdeados oxidados e todos os infinitos semi-tons de cinza.

FOTO: Gabi Carrera

Tenho a convicção de que foi em Paris, onde viveu de 1956 a 1958, ano em que nasci, e estudou com o grande mestre argentino Emilio Pettoruti (1892 – 1971) e com o artista alemão Johnny Friedlaender (1912 – 1992), que José Maria moldou sua franciscana maneira de ser e encarar a vida, fundada na pintura, no café e no tabaco.

Como num dos maiores poemas da língua portuguesa, As cismas do destino, de Augusto dos Anjos, José Maria sempre procurou sua sombra magra na pintura, na literatura e na música. Seu filho, batizado como Francisco, não poderia ter outro nome. Músico, tocava Garoto e Cartola, no violão, e Bach no cravo. Ainda me lembro da construção de um complexo cravo, realizada por esse jovem músico e luthier no ateliê de Dias da Cruz.

José Maria sempre se colocou como um artista racional, e costumava dizer-me que preferia projetar suas pinturas, em vez de executá-las. Considerava-se um pintor conceitual. É um dos nossos grandes pensadores sobre o cromatismo na pintura. Foi pouco estudado pela crítica dos anos 1970 e 1980 por ser « apenas um pintor ». E que pintor…

FOTO: Gabi Carrera

Não há quase referências à paisagem ou ao natural em sua obra. O que se manifesta é um mundo interior, jogos mentais de um artista que persegue e obtém o xeque-mate no tabuleiro do quadrado mágico em branco e preto da mente e da alma. Projeta suas telas de maneira meticulosa. Ora utiliza blocos milimetrados, ora quadricula ele mesmo pequenas folhas de papel-manteiga, onde dispõe relógios, bules, jarros, cachimbos, frutas, escaravelhos, números, letras e palavras enigmáticas, formulários, naturezas-mortas… Códigos e registros de que só o artista sabe a razão e o significado.

Como um pintor de naturezas-mortas, só fez uma série sobre uma flor, uma maria-sem-vegonha, quando morou por alguns meses em meu sítio em Vargem Grande. Foi padrinho de meu casamento com Denise.

FOTO: Jaime Acioli

Nossa já longeva amizade nos permitiu extensas conversas sobre Cézanne, Rubens, Braque, Delacroix, Zurbarán e tantos outros, além da necessidade imperativa de continuarmos pintando.

Em ensaio publicado no livro Interiores de reflexões (2001), o escritor, colecionador e advogado Antônio Bulhões de Carvalho, um amigo em comum, dizia que, no inverno de sua vida, tinha José Maria quase como um filho. Como num espelho, esta frase me serve como senda a pensar em Aluísio Carvão, José Paulo Moreira da Fonseca, Abelardo Zaluar, Sérgio de Campos Melo e José Maria Dias da Cruz como quase pais.

FOTO: Gabi Carrera

Gonçalo Ivo

Vargem Grande, 25 de abril

Compartilhar:

Confira outras matérias

Notícias da França

Híbrido e desinibido, Pascale Marthine Tayou aspira a uma nova humanidade

Concebidos como uma experiência a ser vivida, os assemblages de Pascale Marthine Tayou combinam símbolos africanos e europeus. Sem complexo, …

ALTO FALANTE

Maria Bonomi, gravura impura

Recentemente, em meio aos abundantes motivos de tristeza e apreensão, tive a alegria de receber de Maria Bonomi dois importantes …

Iluminuras

MARCAS DA MALDADE I

Tudo é mal. Isto é, tudo o que existe é mal; a existência de cada coisa é um mal; o …

Notícias da França

Dinastia: a família Yunes, três gerações de Stakhanovistas do mundo de arte

Esta é a história de uma dinastia cultural. Após a morte de Jorge Yunes, a coleção da família tornou-se agora …

Iluminuras

UMA CONCHA

Há artistas que revelam o mistério e a incerteza. Vagam em universos colisivos, como a noite dos sonhos, o sublime …

Notícias da França

Os jardins memoriais ​​de Rachid Koraïchi conectam a humanidade à sua história

Nutrido pela mística sufi, Rachid Koraïchi desenvolve uma obra universal inspirada nos números e na caligrafia. Enquanto corre o mundo …

Notícias da França

O desenho de Ernest Pignon-Ernest infunde uma ética humanista na arte urbana

Um pioneiro da arte urbana comprometida, Ernest Pignon-Ernest afirma “causar algo” na rua com seus desenhos. Por mais de 50 …

Iluminuras

NA ESCURIDÃO

O hálito do imóvel. Um vulto rígido
de animal no azul, sua santidade.
Poderoso é o silêncio da pedra…
Georg Trakl
 

Alfred Leopold Isidor …

Notícias da França

Françoise Pétrovitch nos leva para o outro lado do espelho

Com um bestiário animado e ambivalente, próximo à imaginação peculiar de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, Françoise …

Iluminuras

2 de abril de 2021

Datas. Desde que regressei de Bethany, nos últimos dias de maio do ano passado, são hoje 311 dias de um …

Notícias da França

Os desenhos-instalações de Odonchimeg Davaadorj carregam utopias para mudar o mundo

“É nas utopias de hoje que residem as soluções de amanhã”, afirma Odonchimeg Davaardorj. A autodidata que fugiu da Mongólia …

Iluminuras

NO CLARÃO DA MANHÃ

“Nada que existe na natureza anuncia o
infinito, a existência de alguma coisa
infinita. O infinito é um parto de nossa
imaginação, da …

Notícias da França

O xamã Marc Couturier navega além do espiritual e do sublime

O “milagre” da sua Cruz Gloriosa, que permaneceu intacta após o incêndio de Notre Dame, nos lembra que a obra …

ALTO FALANTE

Andy Catholic Warhol

Tente lembrar de outro personagem na história que seja um artista visual, produtor de filmes pornô chic, gay, empresário de …

Iluminuras

ESPELHOS E OSSOS

 “Quantos azuis produziu o Mediterrâneo?” 
 Rafael Alberti
Peinture à l’eau. Adoro essa expressão. Desconstrói a ideia da perenidade da arte e da …