Summer Days, 1936. © 2019 Georgia O’Keeffe Museum / Artists Rights Society (ARS), New York. Imagem cedida pelo Seatle Art Museum em função da exposição Abstract Variations (Dasartes Edição 95)

Painted plates

Alguns artistas encontram o êxtase. Outros enxergam o inferno, o céu e suas múltiplas faces. Penso, porém, que não intuem que arte não é, nem jamais será um simples jogo.

POR GONÇALO IVO

 

Ninguém canta com tanta pureza como os que vivem no inferno.
Seu canto é o que pensamos ser o canto dos anjos.
Franz Kafka, diários.

Alguns artistas encontram o êxtase. Outros enxergam o inferno, o céu e suas múltiplas faces. Penso, porém, que não intuem que arte não é, nem jamais será um simples jogo.

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Pratico a técnica da aquarela há várias décadas. O imprevisível quase sempre faz parte do resultado final. Sua plasticidade, entropia entre a água e a secura plana do papel, é sibilina e movediça, semelhante ao movimento de uma serpente.

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Como aluviões e pequenos córregos da montanha, a aquarela evoca a cor e abriga preciosos pigmentos. Ela me leva a lugares de reinvenção, a sítios inusitados, ao acaso.

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Artistas contemporâneos utilizam artifícios intelectuais, ora para justificar seus empreendimentos, ora para dar fluidez às suas obras e intenções. Esses discursos são geralmente ideológicos e se submetem a uma profunda pobreza plástica, imagética e, sobretudo, poética.

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Não se furtam de uma criança sonhos e recordações. Lembro-me de estar embarcando em 1966, no Aeroporto Santos Dumont, num Vickers Viscount ou talvez num Electra, em direção a Curitiba. Ao meu lado, Leda, Lêdo, Marques Rebelo e Adonias Filho, que não parava de vaticinar em razão da enorme turbulência: “Este avião vai cair”.

Avião Vickers Viscount

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Há artistas que guardam mistérios. Vagam em mundos colisivos. Transitam entre o êxtase, a felicidade, o infortúnio e o pesadelo. Às vezes, de tão delicados, vivem nas portas dessas imensas fronteiras. Colocam-nos de maneira desconfortável em zonas entrópicas, entre o charco e a secura. São meus artistas favoritos.

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Possuo uma caixa de música azul da Prússia, e dela desabam estrelas douradas. Guarda em seu arpejar alguns de meus mais valiosos segredos: Lassus, Couperin, Buxtehude, Albert de Rippe, Bach, Händel, Scarlatti, Schütz, Vivaldi e uma centena de outros. Finalmente, atravesso os séculos. Passo por Mozart, Beethoven, Brahms, Schubert e tantos artistas que me provocam. Chego então a uma sala fechada, onde me encanto com o ruído de alguns ratos dançando no interior do piano preparado de John Cage.

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Quando olho um osso, contemplo sua beleza e a forma perfeita. O osso é como uma pedra, alicerce do efêmero. A carne pode significar vida, mas sua existência e aparência não tangem o perene. Admiro a pintura de Georgia O’Keeffe.

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Há um jardim em meus domínios e nele centenas de árvores. Os pássaros apreciam seus frutos e sementes na manhã fria de Vargem Grande. As serpentes esperam o calor do sol, pois no curso do tempo e da natureza não há fim de tarde com um final feliz.

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Um dos meus pensamentos recorrentes é o exato momento de minha morte. Acompanha-me desde a infância. O primeiro velório e enterro que presenciei foi o do nosso vizinho em Vargem Grande, seu Antoninho. Quando vivo, barganhava com minha mãe pratos de torresmo em troca de algumas varas dos grossos eucaliptos que tínhamos em nossa floresta. O caixão ainda aberto mostrava o defunto em paz, com dois chumaços de algodão nas narinas. Ananias, meu amigo e filho do caseiro-chefe da fazenda, Valdemar, estava muito excitado com o evento. Ainda não sabemos exatamente o que é o fim ou o que este cul-de-sac significa.

Gonçalo Ivo
Vargem Grande, 23 de agosto de 2022.

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