Leda e Ledo Ivo em São Paulo, 1947 | FOTO: Arquivo pessoal

OS VERDES ANOS

“De todo meu passado, só possuo o que carrego diante de mim. Nesse momento, todo o resto me é inacessível. Porém nossa geração aprendeu a fundo a excelente arte de fazer seu luto do que perdeu, e talvez esta falta de documentos e de detalhes se convertirá em benefícios à minha obra. Pois eu considero […]

“De todo meu passado, só possuo o que carrego
diante de mim. Nesse momento, todo o resto me é
inacessível. Porém nossa geração aprendeu a fundo a
excelente arte de fazer seu luto do que perdeu, e talvez
esta falta de documentos e de detalhes se convertirá em
benefícios à minha obra. Pois eu considero que, se
nossa memória retém um certo elemento e deixa um
outro escapar, não é ao acaso: eu vejo isto como um
poder que organiza sua matéria em conhecimento de
causa e a seleciona com sabedoria. Tudo o que se
esquece de sua própria vida, um instinto secreto já
havia de fato condenado há muito tempo ao abandono.
Somente o que quero eu mesmo conservar possui
algum direito de ser guardado para o outro.
Então falem e escolham, ó minhas lembranças, vocês e
não eu, e cedam ao menos um reflexo da minha vida,
antes que ela mergulhe nas trevas.”
Stefan Zweig, Le Monde D’hier, 1941.

 

Lembro-me da mala vermelha que deixei em Paris, no fim de outubro de 1999, em seguida ao encerramento de minha primeira exposição individual na Galerie Flak, 8 rue des Beaux-Arts, no sixième arrondissement, iniciada na enigmática data de 09/09/1999. Confiei a meus marchands, Edith e Roland Flak, seu conteúdo e o que era para mim uma valiosa fortuna. Guardava em segredo tintas a óleo e pigmentos holandeses, estojos de aquarela, papéis, espátulas, pincéis e alquimias, que só têm a ver com o mundo experimental e mágico da cozinha da pintura. A Europa, àquela época, era o contraponto à minha percepção da encarnação da realidade.

A partir de 1970, passei a experimentar novas realidades. Passei a frequentar Vargem Grande, 3° distrito da cidade serrana de Teresópolis. Neste vale, entre a floresta de eucaliptos e a mata atlântica, o cheiro do fumo das lareiras e fogões a lenha no inverno, serpentes, pássaros, enormes besouros e muitos outros bichos da floresta iluminaram como faróis a minha vida de menino.

A propriedade rural adquirida por meus pais foi o sítio de meu primeiro ateliê, depois de um gentil acordo. Na parte posterior de um galinheiro, havia uma pequena construção, com uma porta e uma janela. Abrigava em segredo ferramentas enferrujadas (enxadas, martelos, foices, pregos, serrotes…), obsoletas máquinas agrícolas e algumas peças de madeira, envelhecidas, abandonadas havia décadas. Não supunha o propósito ou o uso futuro para tais madeiras carcomidas por cupins e castigadas pelo tempo.

Nesse pequeno depósito, fiz algumas de minhas primeiras pinturas a óleo. Se bem me recordo, devia ter 12 ou 13 anos. Voltar à cidade do Rio de Janeiro e ao colégio São Vicente de Paulo era sempre um enorme sofrimento. Questionava-me sobre a necessidade e a utilidade da matemática, da química ou da física em minha vida, pois, na leitura de escritores como Kurt Vonnegut, José Lins do Rêgo, Campos de Carvalho, Ray Bradbury e Jorge Amado, na música de Brahms, Scarlatti, Mozart e Bach, ou na pintura, invenção tão sensual, me sentia livre e feliz.

Lêdo Ivo com obra de Volpi ao fundo, anos 1950 | FOTO: Arquivo Pessoal

 

Mas foi em Botafogo, na antiga Rua Farani, n° 61, apartamento 710, nos anos de 1960, que se deu o meu primeiro contato com uma verdadeira coleção de arte, um pequeno museu. Os “Ledos”, como eram chamados pelos amigos, adquiriram este piso nos anos 1950, projeto do escritório de arquitetura MM Roberto. Trata-se de uma interpretação tropical dos cânones corbusianos. A planta em dois pisos privilegia a intimidade familiar no segundo andar, onde há três quartos e uma sala de banho. Na planta inferior, um amplo salão, um lavabo, a cozinha, um quarto de serviço – para dar sentido à atávica relação escravocrata que ainda perdura em nossa cultura – e uma deliciosa varanda, que nos oferece uma visão panorâmica da Baía de Guanabara, com o Pão de Açúcar e a distante Niterói. No prédio, moraram Murilo Mendes, João e Estela Cabral de Melo Neto, grandes amigos da nossa família, e Cildo Meireles.

Meu olhar era casto, e procuro preservar essa qualidade até hoje. As aquisições do casal, ecléticas. Alfredo Volpi, Eliseu Visconti, Iberê Camargo, Castagneto, Lygia Clark, Batista da Costa, Rubem Valentim, Ismael Nery, Belmiro de Almeida, Carlos Scliar, Júlio Martins da Silva, Emeric Marcier, Balliester, Décio Villares e tantos outros. Havia também algo de arte estrangeira, como um belo guache de Corneille, que conheci em Paris e também trabalhava com a Galerie Flak, pinturas do artista grego Yannis Gaïtis, Michel Macréau, um dos representantes da art brut française, um retrato de Lêdo Ivo do artista húngaro Árpád Szenes.

Vivia em uma redoma, em que alguns dos grandes mestres da pintura eram os olhos que me miravam. Em uma fotografia antiga, provavelmente do início do ano 1959, encontro-me no colo de minha babá portuguesa, diante de uma pintura de Milton Dacosta de 1950, adquirida por Leda, minha mãe. Essa imagem revela meu olhar buscando algo em um ponto qualquer no espaço. Penso que, desde meus verdes anos, ainda persigo a plenitude na distante verdade da pintura.

Gonçalo Ivo e sua babá portuguesa. Ao fundo, obra de Milton Dacosta da década de 1950 | FOTO: Arquivo Pessoal

 

Gonçalo Ivo
Vargem Grande, 27 de junho de 2021.

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