Robert Smithson, Spiral Jetty, 1970

O TEMPO E A MARÉ

“ Já não existem “imagens da realidade”; já não existem representações ideais; só existe o deserto.” Kasimir Malevitch. Manifesto do Suprematismo.   Penso a pintura como um corpo em eterna transmutação, que cresce como a árvore espalhando seus ramos no vazio do espaço e no segredo oculto da terra, seu sustento. Vive essa constante evolução […]

“ Já não existem “imagens da realidade”;

já não existem representações ideais;

só existe o deserto.”

Kasimir Malevitch. Manifesto do Suprematismo.

 

Penso a pintura como um corpo em eterna transmutação, que cresce como a árvore espalhando seus ramos no vazio do espaço e no segredo oculto da terra, seu sustento. Vive essa constante evolução sem perder sua essência. Não me refiro a retórica, estilo, discurso ou tendência. Quero reivindicar para a pintura o que a constitui de forma primeira, a matéria que a cobre como a carne e o sangue a envolver os corpos, trazendo amparo e sentido aos ossos e ao espírito.

A pintura, quando submetida à regra de ouro da passagem do tempo e do movimento das marés, revela nas noites silenciosas seu próprio apagar. O escurecimento secular de Ronda noturna, de Rembrandt van Rijn, e o outrora amarelo vivo de Vincent van Gogh, hoje um pálido ocre açafrão incrustado em um girassol em flor, exortam a melancolia de tudo o que se foi.

Michael Heizer – North, East, South, West, 1967/2002, Dia Art Foundation

Fixo então meu olhar em Quadrado negro sobre fundo branco, de Kazimir Malevitch, feita em 1915, há pouco mais de um século. Essa pintura, de dimensões modestas, me faz refletir sobre inúmeros assuntos, entre os quais obras e propostas de artistas como Robert Smithson, Michael Heizer, Nancy Holt, Walter De Maria, Eduardo Chillida, Joseph Beuys e muitos outros, em que a natureza e o espaço têm uma função seminal. Há um encantamento enigmático e perene quando contemplo os sulcos e o craquelê engastados no quadrado negro da pintura de Malevitch. Recordo a aridez do seco e o infinito solo do sertão do Nordeste brasileiro, castigado pela implacável ação do tempo, tendo como testemunha o encurvado e imantado céu azul, que a tudo submete em sua lenta caminhada e traz uma estranha e nova qualidade pictórica a essa obra.

Kazimir Malevich, Quadrado preto sobre um fundo branco, 1918

Spiral Jetty, escultura monumental de land art do artista Robert Smithson (1938 – 1973), agarrada como um brinco desenhado por Calder à paisagem árida do Great Salt Lake, em Utah, nos Estados Unidos, formada basicamente por pedras negras basálticas e instalada em 1970 sobre a serena superfície desse lago, submergiu após alguns anos. Reapareceu em 2002, praticamente trinta anos depois. Seu aspecto já não era o mesmo. Esbranquiçada pelos cristais de sal em entropia sobre a superfície rosada do espelho d’água, ela evidencia a fabulosa transformação das coisas. Percebemos mais uma vez a mão do tempo sobre a matéria.

Transportamo-nos ao século XII, norte da Etiópia. Por determinação do rei Lalibela, que desejava erigir uma réplica de Jerusalém em seus domínios, foram construídos vários templos coptas escavados de forma perpendicular – do céu à terra – em rocha vulcânica, como o templo de São George, um monólito que ostenta a forma de uma gigantesca cruz grega. Não é privilégio dos artistas da land art ou de artistas contemporâneos proporem intervenções na natureza. Refletir sobre o sublime, o que há de religioso e secreto ou sacro na paisagem ou na vida, faz parte da longa história da arte.

Igreja de São George, em Lalibela, Etiópia

Vargem Grande, 2 de dezembro de 2020.
Gonçalo Ivo.

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