Giovanni Bellini, Alegoria sacra

O SÉTIMO SELO

A imobilidade é a gênese de tudo, e a partir dessa ideia, percorro uma vereda de pensamentos tortuosos que me levam a Giovanni Bellini, (1430 – 1516). Como num espelho, experimento, em Alegoria sacra, o físico e o imaterial, o estático e o que de forma lenta se move, como a bruma úmida da manhã. Essa pintura, provavelmente executada entre 1490 e 1500, é, para mim, uma das mais intrigantes, potentes e relevantes obras do Cinquecento.

                                                          “Logo percebi o grito melancólico de uma

                                                            ave de rapina, instaurou-se o silêncio do

                                                            eterno começo, o mundo como ele sempre

                                                            foi, no estado de não ser »

                                                                                                   Carl Gustav Jung.

 

A imobilidade é a gênese de tudo, e a partir dessa ideia, percorro uma vereda de pensamentos tortuosos que me levam a Giovanni Bellini, (1430 – 1516). Como num espelho, experimento, em Alegoria sacra, o físico e o imaterial, o estático e o que de forma lenta se move, como a bruma úmida da manhã. Essa pintura, provavelmente executada entre 1490 e 1500, é, para mim, uma das mais intrigantes, potentes e relevantes obras do Cinquecento. Nela, o espaço, erguido com absoluto rigor de pureza e secreta geometria euclidiana, como numa villa de Andrea Palladio, no Broadway Boogie Woogie de Piet Mondrian ou na extensa série Homenagem ao quadrado de Josef Albers, evidencia um delicado tonalismo, em que sombras e enigmáticas luzes brandas carregam um doce colorido e fazem nossas retinas estarem vigilantes, como janelas abertas a transpassar umbrais capazes de conduzir-nos ao sonho.

Bellini nos oferece um lugar onde jamais estaremos. Vivemos o mundo imaginário, um teatro de formas e cores desse solitário artesão a forjar o eterno. Vagamos entre os inúmeros planos da diáfana paisagem, onde o todo jamais será corrompido.

Giovanni Bellini, Alegoria sacra

As figuras idealizadas por esse artista veneziano ora flutuam, ora estão em repouso, petrificadas. Em distintos momentos, percebo lapsos, como se eles professassem o mistério da sacra conversação. Espalham o indivisível e ocupam lugares no campo pictórico, como se fossem peças de xadrez, no metafórico, geométrico e marmóreo piso dessa varanda mágica. Estarão a arguir  o terrestre, o mito, o sacro, a gravidade e o ilusório mistério da levitação?

Há uma atmosfera imaterial entre a varanda, o espelho d’água subjacente, os pedregosos montes e os personagens. Intuímos o etéreo na paisagem, como se no passado pudéssemos prenunciar o requinte das últimas pinturas de Paul Cézanne em Aix-en-Provence. O colorido é próximo ao do mestre francês;  nele, sentimos a umidade, a luz que se irradia na refratária atmosfera, e chegamos a ser tocados pela leve corrente de ar vinda do golfo de Marseille. É notório que o artista de Aix não admirava os primitivos italianos, como Masaccio, Giotto e Duccio. Preferia uma pintura mais espacial, como as de Veronese, Ticiano e Tiepolo.

Cézanne estava mais próximo de uma arte que pudesse representar a atmosfera em sutis, refinadas e sucessivas membranas. Afirmava que entre o espectador  e a paisagem havia um percurso de planos e transparências a serem percorridos pelo olhar.

Uma pequena árvore frutífera deslocada do centro da varanda, rodeada por quatro crianças, anima esta enigmática metáfora da árvore da vida.  São Sebastião, com duas flechas ortogonais a penetrar seu corpo, jaz imóvel. Toda a composição é um mosaico que reflete sobre o agora e o eterno.

O intrincado jogo de xadrez que emana da Alegoria sacra é mais do que o sonho perfeito. Interpreto nele os mundos existentes em ambos os lados de uma fina pele que divide o divino, o sublime e a felicidade do lugar da sombra onde o esquecimento sempre triunfa.

 

 

Vargem Grande, 9 de janeiro de 2021.

 

 

Compartilhar:

Confira outras matérias

Notícias da França

Dinastia: a família Yunes, três gerações de Stakhanovistas do mundo de arte

Esta é a história de uma dinastia cultural. Após a morte de Jorge Yunes, a coleção da família tornou-se agora …

Iluminuras

UMA CONCHA

Há artistas que revelam o mistério e a incerteza. Vagam em universos colisivos, como a noite dos sonhos, o sublime …

Notícias da França

Os jardins memoriais ​​de Rachid Koraïchi conectam a humanidade à sua história

Nutrido pela mística sufi, Rachid Koraïchi desenvolve uma obra universal inspirada nos números e na caligrafia. Enquanto corre o mundo …

Iluminuras

PER UN AMICO

One of these days
I’m gonna sit down and write a long letter
To all the good friends I’ve known
Neil Young
Conheci o …

Notícias da França

O desenho de Ernest Pignon-Ernest infunde uma ética humanista na arte urbana

Um pioneiro da arte urbana comprometida, Ernest Pignon-Ernest afirma “causar algo” na rua com seus desenhos. Por mais de 50 …

Iluminuras

NA ESCURIDÃO

O hálito do imóvel. Um vulto rígido
de animal no azul, sua santidade.
Poderoso é o silêncio da pedra…
Georg Trakl
 

Alfred Leopold Isidor …

Notícias da França

Françoise Pétrovitch nos leva para o outro lado do espelho

Com um bestiário animado e ambivalente, próximo à imaginação peculiar de Alice no País das Maravilhas, de Lewis Carroll, Françoise …

Iluminuras

2 de abril de 2021

Datas. Desde que regressei de Bethany, nos últimos dias de maio do ano passado, são hoje 311 dias de um …

Notícias da França

Os desenhos-instalações de Odonchimeg Davaadorj carregam utopias para mudar o mundo

“É nas utopias de hoje que residem as soluções de amanhã”, afirma Odonchimeg Davaardorj. A autodidata que fugiu da Mongólia …

Iluminuras

NO CLARÃO DA MANHÃ

“Nada que existe na natureza anuncia o
infinito, a existência de alguma coisa
infinita. O infinito é um parto de nossa
imaginação, da …

Notícias da França

O xamã Marc Couturier navega além do espiritual e do sublime

O “milagre” da sua Cruz Gloriosa, que permaneceu intacta após o incêndio de Notre Dame, nos lembra que a obra …

ALTO FALANTE

Andy Catholic Warhol

Tente lembrar de outro personagem na história que seja um artista visual, produtor de filmes pornô chic, gay, empresário de …

Iluminuras

ESPELHOS E OSSOS

 “Quantos azuis produziu o Mediterrâneo?” 
 Rafael Alberti
Peinture à l’eau. Adoro essa expressão. Desconstrói a ideia da perenidade da arte e da …

Notícias da França

A arte antropológica de Icaro Lira incorpora uma poética do traço

Se as composições poéticas delicadas ou lúdicas de Icaro Lira seduzem, também carregam uma dimensão política ao escavar os interstícios …

Iluminuras

SAGRAÇÃO

PAI
Nem a água que corre retorna ao seu manancial,
nem a flor desprendida de sua haste jamais
voltará à árvore que a …