Landscape with Water, William Turner

NO CLARÃO DA MANHÃ

“Nada que existe na natureza anuncia o infinito, a existência de alguma coisa infinita. O infinito é um parto de nossa imaginação, da nossa pequenez e, a um tempo, de nossa soberba” Giacomo Leopardi The evening star (A estrela da tarde), 1830. Sob um acinzentado céu que, ao antecipar o crepúsculo, evoca melancolia e a […]

“Nada que existe na natureza anuncia o
infinito, a existência de alguma coisa
infinita. O infinito é um parto de nossa
imaginação, da nossa pequenez e, a um
tempo, de nossa soberba”
Giacomo Leopardi

The Evening Star, William Turner

The evening star (A estrela da tarde), 1830. Sob um acinzentado céu que, ao antecipar o crepúsculo, evoca melancolia e a solidão da vasta, plana e monótona paisagem marítima, percebemos uma construção sumária, talvez vestígios de um naufrágio ou de uma arcaica armadilha para peixes. Tudo é etéreo e imaterial, como se pudéssemos experimentar a tempestade que passou e o rumor do mar deixando como testemunho vapores e entropia.

A obra de Joseph Mallord William Turner (1775 -1851) é um dos derradeiros cantos do Romantismo. Porém vejo algo mais intenso do que o elogio ao classicismo, à mitologia e às inumeráveis passagens bíblicas. Mergulhamos em seus mares revoltos, tempestades de neve, auroras e ocasos, assim como nos espaços sonoros de Brahms, Beethoven e fundamentalmente nas alegorias  cromáticas, rítmicas e musicais de Anton Bruckner e Gustav Mahler, repletas de referências a um mundo dominado pela permanência da natureza como um ser autônomo e supremo.

Penso em Turner e Cézanne como almas distintas. O primeiro encanta, ao imprimir um mundo de luz e sombras, capazes de nos levar a espaços distantes, tênues, atmosféricos, onde a bruma nos faz pressentir a forma, sem a revelar. Pinturas como Coast Scene near Naples (circa 1828) ou Landscape with Water (circa 1835/1840) atestam a inexistência de definições formais e contornos precisos.

Coast Scene near Naples,William Turner

Paul Cézanne lavra de forma distinta. O aspecto das coisas reais e seus significados são restituídos a partir de fragmentos, de uma infinidade de pequenas pinceladas que lado a lado, como num puzzle, constroem arquitetura e identidade – pedra, árvore, nuvem e água têm alma, mas também peso e presença física.

A minha desmedida admiração por esses dois artistas vem dos tempos de juventude, ao me debruçar sobre velhas estampas coloridas vistas em livros na casa de meus pais. Em minha primeira longa permanência em Madrid no inverno de 1980, tive a oportunidade de visitar uma extensa mostra de aquarelas e cadernos de viagens de William Turner. Recordo-me do céu cor de chumbo, do frio e do acontecimento de uma inesperada tempestade de neve no fim daquela tarde.

Mais uma vez, percebo a arte como uma metáfora da natureza. São 18 horas e uma tempestade se aproxima do meu ateliê em Teresópolis. Ouço o trovejar e vejo o clarão do relâmpago. William Turner está aqui ao meu lado. Enquanto aguardo o aguaceiro, esqueço Gustav Mahler e Anton Bruckner. Encontro a paz na doce melodia do Manuscrito de Londres, de Sylvius Leopold Weiss.

Snow Storm – Steam-Boat off a Harbour’s Mouth, William Turner

Gonçalo Ivo
Vargem Grande, 30 de março de 2021.

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