Marcas da Maldade III

As imagens incrustadas nas pequenas estampas dos Desastres da guerra, de Francisco José de Goya y Lucientes [1746–1828], são como oráculos ou aparições. Antecipam o pavor e a indigência de nossa fatídica índole, farejando o sangue em comunhão com o ódio. Desde tempos ancestrais, a maldade nos cerca, pois somos a essência de seus fluidos e sua manifestação circula em nossas artérias e veias. Para a escritora americana Susan Sontag [1933–2004], os Desastres da guerra são a suprema concentração de horrores, em que a vilania chega ao paroxismo.

O HOMEM ARMADO

L’Homme armé
L’homme armé doibt on doubter.
On a fait partout crier
Que chascun se viengne armer
D’un haubregon de fer.
L’homme armé doibt on doubter.

O Homem armado
O homem armado deve ser temido.
Foi proclamado em todos os lugares
Que cada homem se arme
Com armadura de ferro.
O homem armado deve ser temido.
Anônimo, França, circa século XV.

As imagens incrustadas nas pequenas estampas dos Desastres da guerra, de Francisco José de Goya y Lucientes [1746–1828], são como oráculos ou aparições. Antecipam o pavor e a indigência de nossa fatídica índole, farejando o sangue em comunhão com o ódio. Desde tempos ancestrais, a maldade nos cerca, pois somos a essência de seus fluidos e sua manifestação circula em nossas artérias e veias. Para a escritora americana Susan Sontag [1933–2004], os Desastres da guerra são a suprema concentração de horrores, em que a vilania chega ao paroxismo.

Segundo as reflexões de Stefan Zweig [1881–1942], em sua autobiografia Le Monde d’hier, escrita em 1941 em Petrópolis, um ano antes de seu premeditado suicídio, a natureza se vinga dos homens de forma maléfica. As conquistas técnicas que o tornam mestre dos poderosos mistérios do universo servem também para corromper sua alma. Em vários diálogos com Sigmund Freud, este lhe confidenciou que o instinto se sobrepõe à cultura.

Conservadas em segredo em uma caixa, na escuridão betuminosa da Quinta del Sordo, em las orillas del rio Manzanares, onde Goya pintou as contundentes imagens negras de transcendência e delírio, essas diminutas placas de cobre só foram publicadas em 1863 pela Real Academia de Bellas Artes de San Fernando de Madrid. Em vida, Goya imprimiu uma única edição de gravuras que fazem parte dessa odisseia (fora as inúmeras provas de estado), e as ofertou ao conselheiro e amigo íntimo Juan Agustín Ceán Bermúdez, a quem retratou em várias ocasiões.

Encadernadas por Goya, as gravuras ostentavam na capa o seguinte manuscrito do artista: Fatales consecuencias de la sangrienta guerra en España con Buonaparte. Y otros caprichos enfáticos, en 85 estampas. Inventadas, dibuxadas y grabadas por el pintor original D. Francisco de Goya y Lucientes en Madrid.

São imagens radicalmente diferentes das elegantes e refinadas batalhas de Paolo Ucello, nas quais a geometria impera e as figuras aproximam-se mais a um balé alegórico, ou a uma parada, do que à carnificina disseminada na Espanha do século XIX. As estampas de Goya remetem-me a Touch of Evil, intoxicante película de Orson Welles de 1958. Há uma contrastada fotografia
em preto e branco similar à gravura do artista aragonês. E, em busca de imagens em minha turva memória, penso nas dramáticas cenas de Apocalypse Now de Francis Ford Coppola, uma livre adaptação do romance Heart of Darkness, de Joseph Conrad. O coronel Walter E. Kurtz, interpretado por Marlon Brando, assemelha-se ao corrupto e corpulento delegado Hank Quinlan, encarnado por Welles.

Percebemos que não há fronteira ou muro que impeça a migração do mal, seja na metafórica, exótica, distante e imaginária Ásia de Conrad, seja na vulgar barreira entre o México e a provinciana cidade texana da película de Orson Welles.

Com cunho ora filosófico, ora simplesmente irônico, os títulos que acompanham as gravuras dos Desastres da guerra jamais são narrativos ou aproximam-se de forma meramente literária a imagens ou evocações. Esses títulos, emblemas carregados da habitual ambiguidade alegórica que Goya imprime em toda sua obra, são como o libreto de árias de uma ópera interminável.

O primeiro desastre da guerra tem o título Tristes presentimientos de lo que ha de acontecer. Nela, um camponês de joelhos, braços abertos, semblante inquiridor, desamparado como o personagem dos fuzilamentos de 3 de maio, mira de soslaio um ponto indeterminado no espaço. Há, como notou José Manuel Matilla, uma forte proximidade formal e iconográfica entre essa imagem e as inúmeras representações alegóricas do Cristo na oração do monte das Oliveiras.

Con razón o sin ella, Lo mismo, Estragos de la guerra, Y no hay remedio são alguns dos outros títulos dados por Goya às suas estampas. Misteriosos e econômicos, como um silencioso e quase mudo poema de Matsuo Bashô.

Como cães em terreno baldio, vagamos nesta terra desolada, farejando corpos mutilados e carcaças apodrecidas. Acompanha-nos a luz intermitente de um farol e a secular canção de L’Homme armé. Marchamos sempre em direção à nossa eterna cegueira.

Vargem Grande, 10 de junho de 2021.
Gonçalo Ivo.

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