The Extraction of the Stone of Madness [A extração da Pedra da Loucura] ,Hieronymus Bosch, 1501-1505

MARCAS DA MALDADE II – BABEL

Recordo-me de muitos lugares deslocados no tempo. Atenas: hospedei-me com Denise no hotel Grande Bretagne, na praça Syntagma, depredada meses antes, após as violentas e convulsivas manifestações populares de outubro de 2011. Morava na entrada do hotel um simpático e corpulento cão, que a todos encantava. Tenho certeza de que era a reencarnação de algum bom deus
grego, se é que se pode encontrar a clemência no Olimpo. Naquele luxo decadente, o cão era tratado por porteiros, camareiros e concierges como uma eminência parda. Ostentava uma coleira vermelha de couro no pescoço, e dela pendia, através de uma argola, uma pequena placa com letras e números, como um códice secreto. Estava sempre ali à nossa espera, abanando o rabo e dormitando sob o sol de inverno. Eu o argui diversas vezes se a existência é tão somente um jogo ou um fardo. Jamais me contestou. Como El perro de Goya, apenas me sussurrava o infinito e suas inumeráveis encruzilhadas e labirintos.

Kyrie Eleison (Gregorian)

Kyrie eleison.
Christe eleison.
Kyrie eleison.

 

Desde o princípio queria ter sido pedra, inseto ou pássaro. Talvez um alto e longilíneo eucalipto, como os da minha floresta em Vargem Grande, daqueles que atraem os raios em noites de tempestade e só se constatam calcinados e mortos na manhã seguinte.

Recordo-me de muitos lugares deslocados no tempo. Atenas: hospedei-me com Denise no hotel Grande Bretagne, na praça Syntagma, depredada meses antes, após as violentas e convulsivas manifestações populares de outubro de 2011. Morava na entrada do hotel um simpático e corpulento cão, que a todos encantava. Tenho certeza de que era a reencarnação de algum bom deus
grego, se é que se pode encontrar a clemência no Olimpo. Naquele luxo decadente, o cão era tratado por porteiros, camareiros e concierges como uma eminência parda. Ostentava uma coleira vermelha de couro no pescoço, e dela pendia, através de uma argola, uma pequena placa com letras e números, como um códice secreto. Estava sempre ali à nossa espera, abanando o rabo e dormitando sob o sol de inverno. Eu o argui diversas vezes se a existência é tão somente um jogo ou um fardo. Jamais me contestou. Como El perro de Goya, apenas me sussurrava o infinito e suas inumeráveis encruzilhadas e labirintos.

The (Little) Tower of Babel, Pieter Bruegel, c. 1563

 

Obras de artistas são para mim como estradas sob uma intensa neblina. Não percebo de imediato seu princípio ou fim. Se olho para trás, a imagem do ponto de partida está borrada; se avanço, toda cautela em cada curva é necessária. Mestres antigos como Pieter Bruegel, o Velho (1525–1569) e Hieronymus Bosch (1450–1516) imprimem em suas pinturas, nas palavras do historiador
de arte Roger-Henri Marijnissen, convicções e credos que veiculam o medo e a esperança, ou seja, uma visão do mundo e seu conteúdo.

Não sei se são imagens premonitórias, a construção de uma poética ou a simples representação da qualidade e especificidade da natureza humana, pois o horror, a tortura e a maldade também foram imensamente documentados antes que encenássemos os teatros de nossas guerras contemporâneas.

Todos os atos dessa peça de pesadelos interpretada por macabros atores, como Stalin, Hitler, Mao, Bush, Fidel, Pinochet, Videla, Mussolini, Getúlio, Médici, Jean-Claude Duvalier, Mobutu e tantos outros, me fazem lembrar Cortez, Pol Pot, mas principalmente Napoleão Bonaparte.

Estou convencido de que nunca aprenderemos a lição da vida, quer estejamos próximos, quer distantes de credos, ideologias ou seitas. Historiadores e teóricos enfatizam que O jardim das delícias, de Hieronymus Bosch, é a antecipação ou a aurora do surrealismo, que, no movimento de copos em uma mesa mediúnica, traria visão e clarividência ao non sense de obras como as de Salvador Dalí, René Magritte ou Jean Cocteau. Tanto a arte moderna quanto a contemporânea ainda alimentam-se da desmedida loucura, do erotismo, da violência e da equivocada relação de causa e efeito.

Olho e penso de forma lateral e desviada. As essenciais obras de Bosch e Bruegel são para mim abreugrafias ou retratos 3×4 para nossas eternas e inúteis carteiras de identidade.

O Jardim das Delícias Terrenas, Hieronymus Bosch, 1515

Gonçalo Ivo
Vargem Grande, 28 de maio de 2021.

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