Frontal do altar de los Arcángeles, têmpera e relevo sobre madeira, 106 x 127 cm, século XIII (Detalhe)

MARCAS DA MALDADE I

Recordo a minha primeira visita à Barcelona. Hospedei-me no vetusto Hotel Granvia. Era o inverno de 1981. Peregrinava com minha solidão entre Inglaterra, Portugal e Espanha. Levava na mala minhas folhas de papel Schoeller, Hahnemühle ou Fabriano, meu estojo de aquarela half pen box da Winsor & Newton, o Livro do desassossego e uma antologia de poemas de Fernando Pessoa. Desejava conhecer novas paisagens, o cais das colunas, gente, museus e arquitetura. Em um início de uma amena e limpa tarde de domingo em Barcelona, fui com amigos, poetas catalães, conhecer o esplendoroso Parc de Montjuïc, seus miradores e o seu majestoso museu.

Tudo é mal. Isto é, tudo o que existe é mal; a existência de cada coisa é um mal; o propósito de cada coisa que existe é o mal; a existência é o mal e conduz-se para o mal; o propósito do universo é o mal; a ordem e o estado, as leis, o andamento natural do universo nada são senão mal, nem estão voltados para outro fim que não seja o mal. Não há outro bem senão o não-ser; nada há superior ao que não existe, às coisas que não são coisas: todas as coisas são vis. Tudo o que existe, o complexo de tantos mundos que existem, o universo não são, em metafísica, nada além de uma mancha, de uma partícula. A existência em razão de sua natureza e de sua essência particular e geral, é uma imperfeição, uma irregularidade, uma monstruosidade. Mas essa imperfeição é algo pequeníssimo, uma verdadeira mancha, porque todos os mundos que existem, tantos e tão grandes que possam ser, não sendo porém certamente infinitos nem em número nem em grandeza, são, por consequência, pequenos em comparação com o que o universo poderia ser se infinito; e tudo o que existe é infinitamente pequeno em comparação à verdadeira infinidade, por assim dizer do não existente, do nada.*

Giacomo Leopardi, 2 de maio de 1826

Frontal do altar de los Arcángeles, têmpera e relevo sobre madeira, 106 x 127 cm, século XIII.

Recordo a minha primeira visita à Barcelona. Hospedei-me no vetusto Hotel Granvia. Era o inverno de 1981. Peregrinava com minha solidão entre Inglaterra, Portugal e Espanha. Levava na mala minhas folhas de papel Schoeller, Hahnemühle ou Fabriano, meu estojo de aquarela half pen box da Winsor & Newton, o Livro do desassossego e uma antologia de poemas de Fernando Pessoa. Desejava conhecer novas paisagens, o cais das colunas, gente, museus e arquitetura. Em um início de uma amena e limpa tarde de domingo em Barcelona, fui com amigos, poetas catalães, conhecer o esplendoroso Parc de Montjuïc, seus miradores e o seu majestoso museu.

Frontais, esculturas e retábulos do período românico, em que personagens encarnam o Cristo, santos e apóstolos em suas existências terrenas, sendo decapitados, crucificados, dilapidados por algozes torturadores, empunhando adagas, serrotes, pregos e pedras, iluminavam um caminho que me levava ao passado. Sempre sonho que retorno a esses vermelhos, negros e verdes profundos.

Persigo a enganadora e sinuosa elipse da linha do tempo. O delírio, a peste, a loucura e a maldade são como movimentos de maré que depositam os vestígios do passado na escuridão das madrugadas. Refletir sobre arte é como caminhar em uma estreita e silenciosa senda, entre charcos e abruptas escarpas. Poucos são os triunfos alcançados, pois a realidade física, impregnada pela permanência ou o ocaso e o esquecimento de obras, estórias e artistas, espalha a dúvida e a eterna incerteza polissêmica.

Frontal de altar “de Durro”, têmpera sobre madeira, 100 x 120 cm, século XIII

O mal está presente em todo o frontal de altar de la Ermita de Sant Quirze i Santa Julita, de Durro, Alta Ribagorça, século XII. As imagens dos santos, mãe e filho, sendo serrados, perfurados por espadas e pregos, e queimados dentro de uma grande bacia de ferro com azeite fervente revelam o preponderante instinto da brutalidade humana. De comovente beleza, essa imagem, pintada em têmpera sobre madeira, revela um refinado sentido cromático e pictórico. Dramatiza a narrativa do sofrimento, ao oscilar entre intensos contrastes de valor e os coloridos em encarnados, brancos, negros, azuis e verdes minerais.

A representação do sofrimento dos santos e mártires é, para mim, a metáfora de nossa condição, de como agimos e nos conduzimos em nosso estado de consciência. A existência é um jogo brutal. A arte tem a capacidade de revelar o quão vil somos como raça. O horror da maldade nos acompanhará sempre como um cão perdigueiro, pois somos carnívoros e bélicos por essência. Faz parte da nossa sina tal índole e propensão ao mal.

Que Deus nos permita viver em paz e em harmonia com os nossos demônios.

 

Gonçalo Ivo

Vargem Grande, 23 de maio de 2021.

 

* Traduzido por Vera Horn, in Giacomo Leopardi, Poesia e prosa (Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1996).

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