Paul Cézanne, Mont Sainte-Victoire, 1902–06

ESPELHOS E OSSOS

 “Quantos azuis produziu o Mediterrâneo?”   Rafael Alberti Peinture à l’eau. Adoro essa expressão. Desconstrói a ideia da perenidade da arte e da pintura. Penso em imagens líquidas e espelhos, como a água cambiante e fugidia do mar, ou o lago que tem por sina refletir eternamente a passagem de nuvens, astros e pássaros. Na madrugada, […]

 Quantos azuis produziu o Mediterrâneo? 

 Rafael Alberti

Peinture à l’eau. Adoro essa expressão. Desconstrói a ideia da perenidade da arte e da pintura. Penso em imagens líquidas e espelhos, como a água cambiante e fugidia do mar, ou o lago que tem por sina refletir eternamente a passagem de nuvens, astros e pássaros.

Na madrugada, quando a luz ainda é uma dúvida, percorro o estreito caminho de pedras que me conduz ao ateliê de Vargem Grande. Levo comigo a companhia de um pássaro invisível que percute com seu bico a janela da biblioteca de meu pai. Procura em seu diáfano reflexo e no ruído rítmico um alento à solidão de sua alma.

Alguns dias depois da morte de Lêda, minha mãe, em 25 de março de 2004, dei-me conta do aparecimento de um gavião. Nesta dobradura da Serra dos Órgãos, toda manhã, sobrevoava de maneira concêntrica a floresta e o ateliê, como se quisesse estabelecer algum tipo de conversação.

Não acredito em clairvoyance e tampouco em que Paul Cézanne era um profeta e antecipou o cubismo. Em arte não há oráculos ou darwinismos. Ela é um engenho que se manifesta em sua concretude, fecundada ora pelo clarão do dia e sua radiosa realidade, ora pelo sibilino mistério velado nos sonhos dos seres noturnos.

As aquarelas de Paul Cézanne nos conduzem por sendas radiosas. Iluminadas pela alvura do papel, elas nos fazem compreender melhor o clandestino sentido da vida e da natureza. Mergulhamos em paisagens e naturezas-mortas, e nossos sentidos são transportados a um universo de transparências e finas membranas, como véus, revelando o que se oculta na translúcida e incontável sucessão de vapores e planos de cor. A arte de Paul Cézanne nos oferece, em vez de confronto ou desarmonia, uma rara comunhão com a natureza.

Desde o final dos anos 1980, visitei Aix-en-Provence diversas ocasiões. Percorri seus caminhos como peregrino. Do Golfo de Marseille à l’Estaque. Da Route du Tholonet à acinzentada montanha de Sainte -Victoire ou ao Château Noir, com suas grotas e rochedos.

Poucos artistas modernos conseguiram captar a alma das coisas e transcendê-las. Finalmente, vejo-me de pé no centro do espartano ateliê de Paul Cézanne, situado na Colline des Lauves. À minha frente, uma grande janela com trinta cristais. Trazem a luz e a claridade de um dia límpido de inverno. Como se fossem olhos, compartimentam em formas geométricas o que se encontra no exterior. Sobre um pequeno tablado de madeira, há três crânios a nos mirar e indicar o momento de quando não seremos mais carne e osso.

 

Gonçalo Ivo

Vargem Grande, 14 de março de 2021.

 

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