Aluísio Carvão, Claroverde, 1959 | FOTO: Reprodução

Encontro com homens notáveis I

Em nossa curta existência, cruzamos com pessoas notáveis. Minha história justifica o que afirmo. Foram inúmeras convergências, desde minha juventude. A isso, agregava extensas horas de leitura, sempre acompanhado pela música. Em minha tenra idade, ainda não percebia que a fluidez dessa convivência não era obra do acaso. Nada é fortuito. Todos os segredos, significados […]

Em nossa curta existência, cruzamos com pessoas notáveis. Minha história justifica o que afirmo. Foram inúmeras convergências, desde minha juventude. A isso,
agregava extensas horas de leitura, sempre acompanhado pela música. Em minha tenra idade, ainda não percebia que a fluidez dessa convivência não era obra do acaso. Nada é fortuito. Todos os segredos, significados e mecanismos invisíveis desses encontros, afinidades e pertencimentos pareciam estar escritos em pedra.

Passavam pelo apartamento de Botafogo poetas, pintores, filólogos, arquitetos, gente de teatro e cinema, cientistas, críticos de arte e de literatura. Ainda no
colégio São Vicente de Paulo, no início dos anos 1970, sentia-me à margem. Os jovens colegas eram adeptos do esporte, dos carros e das primeiras conquistas sexuais. Minhas inclinações se dirigiam à solidão da música, da pintura e da literatura. Dormia na biblioteca de meu pai. Minha cama era um estrado projetado por Sergio Rodrigues. Da baixa altura dessa cama improvisada, mirava as lombadas de livros de Ray Bradbury, Campos de Carvalho, José Lins do Rêgo, Hermann Hesse, Kurt Vonnegut, Jorge Amado e muitos outros. Sem sequer levantar-me, pedia às minhas mãos que levassem ao foco de minhas retinas O lobo da estepe, Sidarta, Crônicas marcianas, Capitães de areia, Menino de engenho, A bagaceira, Robinson Crusoé, A lua vem da Ásia e a Ilha do tesouro…

Aluísio Carvão, Cornucópia, 1955 | IMAGEM: Reprodução

No verão de 1999, caminhando em Paris na Rue de Rennes, em direção ao meu “marchand de couleurs”, no Boulevard Edgar Quinet, a loja L’Artiste Peintre, de
propriedade de Raoulf e Bassam, árabes católicos libaneses, deparo-me com a alta figura de Sérgio de Campos Mello na esquina com a Rue de L’Abbé Gregoire. Não nos víamos havia vários anos, talvez mais de uma década.

Em 1976, Sérgio e Aluísio Carvão foram meus professores no Museu de Arte Moderna (MAM) do Rio de Janeiro. Ser aluno deles foi uma escolha minha. Havia
visitado várias classes do bloco-escola do MAM, porém minha intuição me guiou para Sérgio e Aluísio, com os quais, para além de minha admiração, passei a cultivar uma recíproca e profunda amizade.

Aluísio Carvão, Clarovermelho, 1959 | FOTO: Reprodução

Aluísio Carvão tinha olhos verdes-azuis, como a água pura de alguma praia incógnita do Norte ou Nordeste do Brasil. Em suas aulas, em pleno verão carioca, até os ventiladores e as cigarras silenciavam. Usava um jaleco branco de uma alvura luminosa, que contrastava com sua pele morena e avermelhada. Para mim, suas classes nunca foram aulas de desenho, e sim verdadeiros rituais pelos quais devemos passar para, se possível, um dia, sabermos quem somos e a que almejamos. Olhava, desenhava e interpretava. Sentia-me instigado a continuar trabalhando.

Não raro, Carvão trazia um florão barroco de madeira, ostentando suas curvas mineiras, a pátina degradada pelo tempo e a fome centenária dos cupins. Colocava-o ao lado de um cacho de bananas. E eu me indagava se o pequeno objeto barroco que ele tanto admirava não havia sido “subtraído” de uma pequena capela mineira por um padre ou coroinha.

O mundo girava e, à noite, na vertigem do meu exíguo estrado de madeira, minha ilha secreta, visitava os oceanos e os seus inesgotáveis continentes de papel.

Aluísio Carvão, Wilma Meu Amor, 1978 | FOTO: Reprodução

Gonçalo Ivo
Paris, 22 de fevereiro de 2022.

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