DIÁRIO DE IMAGENS

Em setembro, consegui alugar o ateliê. José Maria Dias da Cruz foi o avalista. O apartamento é espaçoso e iluminado. São três quartos. Na sala, trabalho as pinturas em grandes formatos. No primeiro quarto, ficam a prensa que João Atanásio me deixou antes de sua partida para a Espanha e um depósito de telas em branco. O segundo quarto é o meu ateliê de aquarela. Nele passo as noites e as madrugadas. Da janela vejo todo o Catumbi, o cemitério, as ruas de pedras e as velhas casas degradadas com seus quintais nos fundos. À noite ouço o interminável latido de cães e o rangido dos bondes na curva da rua Áurea.

Para João Atanásio

S’il faut analyser le fait de peindre, ma peinture,

c’est le journal de ma vie,

une projection de moi-même.

Montrer l’autre côté du monde

est plus important que de montrer celui

que tous connaissent.

Roger Bissière, 1964.

 

Rio, Santa Teresa, outubro/novembro de 1985

Em setembro, consegui alugar o ateliê. José Maria Dias da Cruz foi o avalista. O apartamento é espaçoso e iluminado. São três quartos. Na sala, trabalho as pinturas em grandes formatos. No primeiro quarto, ficam a prensa que João Atanásio me deixou antes de sua partida para a Espanha e um depósito de telas em branco. O segundo quarto é o meu ateliê de aquarela. Nele passo as noites e as madrugadas. Da janela vejo todo o Catumbi, o cemitério, as ruas de pedras e as velhas casas degradadas com seus quintais nos fundos. À noite ouço o interminável latido de cães e o rangido dos bondes na curva da rua Áurea.

 

João Atanásio, 1986, 25,5 x 27 cm, xilo e metal sobre papel

Vargem Grande, Sítio São João, novembro de 1988

Paisagens

Depois desta última viagem pelo sertão e o litoral do Nordeste é que pude ter a exata noção da força da paisagem em meu inconsciente e em meu trabalho. Referência sibilina em tudo o que faço, penso e sou. A paisagem oculta-se entre as matérias ásperas da areia e da terra nos espaços abertos pela cor. Há artistas que professam a criação como experiência meramente intelectual, como se a arte fosse um jogo de xadrez. Reflito sobre a liberdade dos pintores que emigraram para outras paisagens, como Pancetti, Gauguin, Guignard e Van Gogh, ou na imagem que me acompanha de forma obsessiva desde a infância. Estampada sobre uma tela de linho rugoso pintada em têmpera a ovo no fim dos anos 1950 por Alfredo Volpi, uma pipa voa na noite. A rabiola azul-ultramar vaga sobre dezenas de pequenas cruzes brancas encerradas em uma meia-lua negra. É o rumor da noite.

Gonçalo Ivo, A Casa do Verão, 20/01/1985, aquarela sobre papel, 10 x 15 cm

Londres, 26 de dezembro de 1988

Apesar da chuva, o avião decolou rumo a Londres, exatamente às 18h15. Logo apareceram as estrelas e, sobre a terra, pequenos focos de luz – provavelmente incêndios nos campos e florestas, algumas cidades, talvez Lençóis, São Félix ou o Pontal do Coruripe, e seus litorais recortados. Do alto, o mundo parece uma grande pintura.

Veneza, 4 de novembro de 1989

Chegada a Veneza: o soldado da fronteira do aeroporto ficou impressionado com o material de pintura, os estojos de aquarela, as penas de nanquim e os papéis, e eu, com o verde ácido dos canais e os edifícios surgindo da água. Cada um com seu espanto.

Era começo de noite e uma grande chuva desabou sobre nossos corpos. Estávamos em San Marco, e as poças d’água sobre as pedras misturavam-se à laguna formando um só espelho. Resolvemos ir ao Lido. A luz vinha do horizonte e se manifestava também no grande vinco branco que o vaporetto ia deixando para trás no mar escuro. Mergulhei em minha aquarela à procura de todos os verdes, violetas, negros e azuis que supostamente pudessem traduzir o colorido desta noite.

Alfredo Volpi, têmpera sobre linho, 80 x 40 cm, final dos anos 1950.

Gonçalo Ivo

Paris, 22 de agosto de 2021.

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