André Kertéz, polaroide

CAMINHOS, ENCRUZILHADAS

El fuego que creía yo apagado por el frío y la edad ya menos nueva las llamas y el martirio me renueva. Petrarca Cancionero [versión de Ángel Crespo] RETIRO Subo no ônibus da linha 19, Legazpi, na calle de Serrano, esquina com a calle Ortega y Gasset. Desço no Casón del Buen Retiro em Alfonso […]

El fuego que creía yo apagado
por el frío y la edad ya menos nueva
las llamas y el martirio me renueva.
Petrarca
Cancionero [versión de Ángel Crespo]

RETIRO

Subo no ônibus da linha 19, Legazpi, na calle de Serrano, esquina com a calle Ortega y Gasset. Desço no Casón del
Buen Retiro em Alfonso XII. Faz frio. A tarde é azul, adornada por contrastes verdes oxidados dos plátanos do
Parque do Retiro. Vivo hoje meu passado. De madrugada, ouvi a derradeira interpretação de Nelson Freire de Jesus, alegria dos homens. Viajei ao seu lado. Cruzamos o Atlântico juntos, rumo a Paris, no início dos anos 2000. Não quis enfadar o grande pianista. Sua versão, marcada num momento pela presença de Schubert e noutro pela sombra de Schumann, é um hino primoroso, digna homenagem ao Kantor de Leipzig.

O dia manifestou-se bem antes da aurora, cercado de melancolia. Várias personagens vieram fustigar minhas janelas debruçadas sobre o Parque do Retiro e a cidade de Madrid. Na imprecisão do alvorecer, um pássaro negro pousou no balcão da minha varanda. Sua forma dissolvia-se na penumbra. A aparência imperfeita dessa ave evocava todos os negros da arte de Ribera e Zurbarán. A calle de Antonio Maura escutava seu canto.

Madrid é assim. Misteriosa, oscila do crepúsculo ao azul solar. É bela. Em raras ocasiões nos oferece tempestades com ruidosos estrondos, luzes, raios e relâmpagos. No fim do extenso dia, meu domínio foi inundado pela tênue, caprichosa e derradeira luz do sol.

PRAIA DE BOTAFOGO, ATERRO DO FLAMENGO

Andre Kertesz

No princípio, havia a coleção de meus pais no apartamento de Botafogo. Olhar pinturas e esculturas, ou ler sempre foram para mim jogo e diversão. Nas paredes, minhas inquisições juvenis: Alfredo Volpi, Lygia Clark, Eliseu Visconti ou Iberê Camargo. Amava aquelas imagens e não conseguia eleger ou tomar partido da “melhor”. No fim dos anos 1960, início dos anos 1970, vivia entre essas estampas e dúvidas. Naquela época, em uma encruzilhada do tempo, finalmente conheci alguns dos meus mestres em carne e osso.

Manhã no Rio de Janeiro, 1974. Lêdo Ivo estacionou seu opala branco quatro portas, câmbio de três marchas, em frente ao Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.

Meus pais sempre respeitaram minha sede por conhecimento e técnica. Lêdo comprou-me belos livros de arte, como a primeira edição de From my window, de André Kertesz, hoje uma raridade, e livros sobre arte americana, que tanto me interessava, como uma bela monografia sobre Edward Hopper. Alguns dias antes, havíamos ido ao Parque Lage, onde, em uma decepcionante entrevista com seu amigo, artista e então diretor Rubens Gerchman, percebi que ali não era o meu lugar. E nunca foi. Os Ledos tinham uma vasta coleção de obras viscerais de Gerchman dos anos 1960 e 1970. Ele fez várias capas de livros de poesia e crônicas de Lêdo. Para mim, a liberdade não é externa a nós, vem de
dentro. Eu queria cultura e sabedoria.

De volta àquela manhã, talvez de fevereiro ou março, em frente ao prédio projetado por Affonso Eduardo Reidy, caminhei com meu pai até o Bloco Escola. Ali conheci Sérgio de Campos Mello e Aluísio Carvão. Era mais um dia quente e escutava o canto das cigarras no verão da cidade de São Sebastião.

Edward Hopper

Madrid, 29 de novembro de 2021.
Gonçalo Ivo

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