The Apparition of Saint Peter to Saint Peter Nolasco - Óleo Sobre Tela, 1629 - Francisco de Zurbarán,

Avant-propos

Inverno de 1980, Madrid. Vivi nessa cidade por três meses. Morava no Hotel Londres, na calle de Galdo. Professava minha romaria diária: sair pela Puerta del Sol e descer a Carrera de San Jerónimo, até chegar ao Museu do Prado. Sob meus olhos, Velázquez, Rubens, Tiziano, Goya, Piero, Zurbarán e muitos outros brilhavam como as […]

Inverno de 1980, Madrid. Vivi nessa cidade por três meses. Morava no Hotel Londres, na calle de Galdo. Professava minha romaria diária: sair pela Puerta del Sol e descer a Carrera de San Jerónimo, até chegar ao Museu do Prado. Sob meus olhos, Velázquez, Rubens, Tiziano, Goya, Piero, Zurbarán e muitos outros brilhavam como as estrelas nas noites frias e solitárias em meu sítio de Teresópolis. E eu só com minha pintura. Mas aquele inverno em Madrid, de tardes extensas de sol, temperaturas muito baixas e céus azuis imantados pela impressão de ver pinturas renascentistas italianas, ocultaria segredos insondáveis e alguns deles eu só descobriria em décadas posteriores, quando adotei a capital espanhola como residência.

Há uma infinidade de escolhas na vida ou já nascemos com desígnios imutáveis e destinos traçados? Não pertenço aos que fizeram escolhas, optaram por este ou aquele caminho. Sempre quis ser artista, pintor. Para mim, somos como ilhas e nosso contorno será a geografia do que éramos na infância, com pequenas e insignificantes e mudanças causadas pela maré, o vento e a erosão do tempo que passa. Seremos nós mesmos, com nossas manias e vícios para o resto dos nossos dias.

Tityus – Óleo Sobre Tela – 1632 – José de Ribera

Apenas há quinze anos, numa das várias despretensiosas visitas ao Prado, me detive diante da obra de José de Ribera. Apreciei suas pinturas em minha juventude, porém certamente não estava preparado para compreendê-las e colocá-las diante das de Zurbarán, Velázquez, Murilo e seus contemporâneos na Espanha do século XVII. Em arte, conhecimento e cultura envolvem um ritual de experiência e aprendizado. Pablo Picasso costumava dizer: “La pintura es cosa de viejos”.

José de Ribera e Francisco de Zurbarán são, para mim, artistas espiritualmente antagônicos, mas habitantes de uma mesma nebulosa. Evidentemente, pertencem a constelações e sistemas distintos. Ribera seria mais próximo de um réquiem de Tomás Luis Victoria: suntuoso, misterioso, denso, extremamente expressionista, como uma chuva de estrelas. Zurbarán tem características semelhantes, porém sua delicadeza, sua sutileza (como suas naturezas-mortas), seu Agnus Dei, sua Santa Catalina de Alejandría e sua Sainte Euphémie de Chalcédoine nos revelam um artista ligado ao celeste, ao que há de etéreo, em contraponto a Ribera. Zurbarán seria um antecipador da delicadeza de um Mozart; notas precisas, melodias graciosas e harmonias perfeitas. Em Ribera, penso que prepondera a questão carnal; seus calvários e martírios são sangue e carne. E para mim essa é a lição deixada por dois artistas do século XVII, em que carne e espírito podem alcançar o que há de sagrado.

Vargem Grande, 9 de novembro de 2020

Gonçalo Ivo

Agnus Dei – Óleo Sobre Tela, 1635 – 1640. Francisco de Zurbarán

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