Anunciação, paixão e calvário de Pier Paolo Pasolini

POR GONÇALO IVO Angels are bright still, though the brightest fell. Macbeth, Shakespeare Florença. Um retábulo de Simone Martini (1284–1344), talvez a mais bela e evocativa pintura da história, repousa ao abrigo do silêncio. O arcanjo Gabriel oferece um delicado ramo à Virgem. O simbolismo dessa obra trespassa o imaginário de vários outros artistas que […]

POR GONÇALO IVO

Angels are bright still, though the brightest fell.
Macbeth, Shakespeare

Florença. Um retábulo de Simone Martini (1284–1344), talvez a mais bela e evocativa pintura da história, repousa ao abrigo do silêncio. O arcanjo Gabriel oferece um delicado ramo à Virgem. O simbolismo dessa obra trespassa o imaginário de vários outros artistas que utilizaram o tema. Um céu de ouro brilha na superfície da madeira secular. A dádiva da fecundação da vida é um assunto caro a todas as artes e religiões. Nascimento, criação e morte, ninhos de serpentes que, entrelaçados, não sabemos onde têm início, tampouco fim. O eterno movimento de víboras se contorcendo respeita às nossas inúteis vidas. São como marés submetidas ao movimento lunar, que propicia as secretas dores oriundas das cicatrizes de nossos corpos. E do calor ao frio tudo passa a ser recordação e sonho.

O Evangelho Segundo São Mateus

Indago-me como Pier Paolo Pasolini (1922–1975), comunista convicto e católico, pôde criar o Evangelho segundo São Mateus. Ao mesmo tempo que película de cunho marxista, é um hino ao sagrado. Contradições estão sempre presentes em obras de grandes artistas. Filmado em 1964, ano em que presenciamos o golpe militar no Brasil, o Evangelho segundo São Mateus agrega o essencial a respeito de lealdade, fé, amor, igualdade e traição. Como uma pintura ou afresco esquecido, nos faz recordar a paixão vivida por certo Cristo, mas bem pode ser um autorretrato no martírio de sua rápida passagem pelo mundo dos vivos.

Não sei se Cristo era negro, branco ou jamais existiu, como Homero e Buda. O poeta espanhol Martín López-Vega disse: “Pasolini nunca se escondeu: amava provocar, escandalizar, quando essas palavras ainda tinham um sentido; quando provocar, escandalizar podia ser feito com uma função.”

Pier Paolo Pasolini

Escolheu como Cristo não somente o homem comum das ruas, mas um personagem capaz de agregar razão, dúvida e emoção. Costumava dizer que construía seus filmes como se fossem poemas ou “passion play”.

Na anunciação, o ato divino é a mensagem da fecundação de Maria. Sabemos que a estória é escrita pelas Parcas e, por isso, Cristo será crucificado.

Pasolini teve a sua morte anunciada não em uma cruz, como “Ecce Homo”. Foi brutalmente assassinado. Testículos esmagados e dezenas de fraturas oriundas
de diversos atropelamentos, parte do corpo queimada.

Esse anjo caído de um céu inexistente não merecia nosso mundo. Oremos, então; que Maria Callas cante a sua Missa de Réquiem no calvário onde jaz.

Pasolini com Fellini,1961

Gonçalo Ivo
Paris, 13 de outubro de 2022.

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