AMADA TOLEDO, AMADA LISBOA

Leda, Lêdo e eu chegamos à cidade do México em uma sexta-feira, 13. Agosto de 1982. Saídos do Rio de Janeiro em um DC10 da Varig. Meu pai fora convidado por Octavio Paz, organizador do congresso internacional de poesia, do qual participaram Laurence Ferlinghetti, Ted Hughes, Álvaro Mutis. Sendas de Oku, de Matsuo Bashô, traduzido por Octavio, me chega às mãos num jantar em homenagem a Lêdo. Seus poemas em prosa e inúmeros haikus ainda me perseguem entre sombras no labirinto de minha memória.

Los meses y los días son viajeros de la
eternidad. El año que se va y el que viene
también son viajeros. Para aquellos que dejan
flotar sus vidas a bordo de los barcos o
envejecen conduciendo caballos, todos los
días son viaje y su casa misma es viaje. Entre
los antiguos, muchos murieron en plena ruta.
A mí mismo, desde hace mucho, como girón
de nube arrastrado por el viento, me turbaban
pensamientos de vagabundeo.

Matsuo Bashô, séc. XVII, tradução de
Octavio Paz e Eikichi Hayashiya.

À água digo: o tempo não tem futuro,
presente ou passado […]

Lêdo Ivo, “Guadalquivir”, Um brasileiro em
Paris, 1953/1954.

 

Leda, Lêdo e eu chegamos à cidade do México em uma sexta-feira, 13. Agosto de 1982. Saídos do Rio de Janeiro em um DC10 da Varig. Meu pai fora convidado por Octavio Paz, organizador do congresso internacional de poesia, do qual participaram Laurence Ferlinghetti, Ted Hughes, Álvaro Mutis.

Sendas de Oku, de Matsuo Bashô, traduzido por Octavio, me chega às mãos num jantar em homenagem a Lêdo. Seus poemas em prosa e inúmeros haikus ainda me perseguem entre sombras no labirinto de minha memória.

Toledo, 15 de fevereiro de 1983. Reencontro a cidade muito fria, mudada. Sobre o rio Tejo, uma ponte em construção. Procuro os lugares onde, dois anos antes, fiz alguns desenhos. Não os acho.

Parte da cidade se encontra encoberta pela neblina. Vou à Igreja de São Tomé, na qual se oculta El entierro del conde de Orgaz, de El Greco. No meio da tarde, durante la siesta, Toledo se assemelha a uma cidade fantasma. Percorro claustros, vielas e pontes.

Oito dias depois, Lisboa. Um restaurante na Baixa. Suas mesas circundam um grande aquário. Lagostas vivas, vivíssimas, com suas carcaças brilhantes, escorregam vagarosamente pelos vidros. Uma delas me chama. Vinda dos Açores, negra, pequenas manchas vermelhas decoram a sua carcaça. Numa de suas paredes, um mosaico de azulejos motivado pelas marés. Caranguejos, enguias, polvos, estrelas do mar. Alguns escudos depois, à beira da calçada, ouço o rumor da cidade.

Lisboa, mais uma aurora. Dia limpo, sol frio. Um longo passeio a pé, o Terreiro do Paço, a fotografia num lambelambe. O elétrico a margear a Ribeira. Ao fim do dia, o Cais das Colunas. Os operários, rumo as suas casas, enfileiram-se para pegar a barca e atravessar o rio. As gaivotas não param no ar. A maré cheia pousa seus detritos na escadaria à beira d’água. Mais alguns desenhos e embarco para Cacilhas.

Vinte e cinco de fevereiro. Volto à taberna de dona Maria. Onde hoje se bebe o vinho, o frescor do queijo de cabra. Da abóboda pendem linguiças, morcelas, chouriços, tranças de cebola e alho. Dona Maria me confidenciou que a outrora estrebaria acolheu o nascimento do Marquês de Pombal. O litro do vinho tinto “especial” custa 45 escudos. Não para de entrar gente, em sua maioria velhinhos ou operários que trabalham nos pequenos comércios desta parte da cidade.

O filho mais novo de Dona Maria faz a tropa em outra província. Está em Lisboa por alguns dias. Mata a saudade da casa paterna com a cara enterrada em um suculento prato de bacalhau preparado por sua mãe. Nos fundos da taberna há um pequeno balcão, de onde vemos Lisboa e seus telhados em sucessivas quedas até o Tejo.

Vargem Grande, 04/08/2021

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