Giorgione, A Tempestade

A Tempestade

Tememos o inexorável. Contemplo a nuvem que desliza lentamente e, no espaço, espalha matizes de cinzas delicados que, com o tempo, transmutam-se em chumbo e prata oxidados. É o prenúncio de uma tempestade neste primeiro dia de verão. Como meu pai, afinal, aprendi a ler a terra e, através de seus sinais e segredos, inventariei […]

Tememos o inexorável. Contemplo a nuvem que desliza lentamente e, no espaço, espalha matizes de cinzas delicados que, com o tempo, transmutam-se em chumbo e prata oxidados. É o prenúncio de uma tempestade neste primeiro dia de verão.

Como meu pai, afinal, aprendi a ler a terra e, através de seus sinais e segredos, inventariei pedras, gaviões, formigas, árvores, vagalumes, pássaros e besouros.

Agora que a chuva se curva sobre Vargem Grande, raios, relâmpagos e o irregular ritmo percussivo dos trovões me levam a recordar “A tempestade”, de Giorgione [1477–1510]. Essa refinada pintura que admirei em várias ocasiões, na Academia, em Veneza, constrói-se como sucessivos cicloramas, até alcançar,no infinito, o imaterial, céu de planos vazios e o sinuoso risco amarelado de uma descarga elétrica.

Artista da transcendência, placidez e delicadeza, como Antonello da Messina, Fra Angelico, Giovanni Bellini, Giorgione, “o grande Jorge”, era também músico e, segundo o escritor francês Marcel Brion,“por causa de sua altura e da elevação de seu espírito, tocava o alaúde e cantava de maneira primorosa”. Ainda hoje,posso intuir a melodia e a poesia de sua doce voz, assim como a de Leonardo da Vinci, ecoando no tempo. Se, em “Concerto Campestre”, datado entre 1515 e 1516, Giorgione evidencia quatro personagens em primeiro plano, transformando-os no assunto de uma pintura permeada de graça, esquecimento e melancolia, em A tempestade,de 1505–1507,o ator principal é um raio a serpentear o céu verdigris.

Giorgione, Concerto Campestre

Fenômenos naturais sempre foram temas caros às artes –pintura, literatura, música, teatro, poesia, cinema, fotografia. Alexander Cozens inventariou os céus da Inglaterra, assim como o fizeram Constable e Turner. William Shakespeare utilizou a tempestade como metáfora e leito para reflexão de ideias e fenômenos existenciais.

O passado avança como um pássaro mensageiro, interlocutor do instante,reinventando-se ao atirar uma flecha dourada na escuridão. E, como um raio, a terra há de abrigar o seu segredo.

Em 1975, no Novo México, Walter de Maria [1935–2013] criou episódios carregados de misticismo, plasticidade, estranhamento e destilada poesia. Essa parcela árida de deserto se converte num teatro de luz, sombras e experiências sensoriais, e a súbita tempestade abriga grafismos e luzes irregulares, os novos personagens dessa peça da paixão.

Agradam-me os rituais e as tempestades. Seus começos e desenlaces, como se o mundo estivesse no primeiro dia da criação. Afinal, a natureza é diversa e uma das matrizes da grande arte. Hoje, isolado, sinto-me como Próspero, Miranda, Gonçalo, Ariel ou Caliban. Na hipotética praia de meu ateliê, em Vargem Grande, há uma ilha inexistente, de onde contemplo, solitário, o navio destroçado da existência. Insulado em uma caverna, estou preso ao tempo que passa e não passará.

Walter de Maria, The Lightning Field, 1977

Vargem Grande, 21 de dezembro de 2020

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