A PAISAGEM É A PINTURA

Mon naturel me contraint de chercher et aimer les choses ordonnées, fuyant la confusion, qui m’est aussi contraire et ennemie comme est la lumière des obscures ténèbres. Nicolas Poussin Londres, 28 de dezembro de 1988 Acordamos cedo e logo fomos para a Tate Gallery. Queria rever uma grande pintura de Raoul Dufy, trabalhada em sutis […]

Mon naturel me contraint de chercher
et aimer les choses ordonnées, fuyant
la confusion, qui m’est aussi contraire
et ennemie comme est la lumière des
obscures ténèbres.
Nicolas Poussin

Raoul Dufy, Nature morte au violon: hommage à Bach, 1952

Londres, 28 de dezembro de 1988

Acordamos cedo e logo fomos para a Tate Gallery. Queria rever uma grande pintura de Raoul Dufy, trabalhada em sutis veladuras de verde e rosa. Adoro esta maneira despudorada de colorir. Em minha memória não havia imagens; só a intensidade da cor e o virtuosismo da pincelada. Depois da visita, Denise e eu sentamos num banco de jardim às margens do Tâmisa e ficamos contemplando a cidade e suas nuvens sendo levadas para o mar do Norte.

Paris, segunda-feira, 9 de janeiro de 1989

A imagem de Paris se construía à medida que subíamos a escadaria da estação de Saint-Placide, revelando silhuetas de edifícios centenários em ocre e cinza escuro contra o céu branco do inverno. Adiante, na rue de Rennes, uma boucherie com faisões, coelhos e patos degolados pendurados ao ar livre na calçada.

Paul Cezanne, O Lac d Annecy, 1896

O tempo passa. Na noite fria de Ano-Novo, fomos à Saint-Germain-de-Près, um concerto de órgão consagrado a Johann Sebastian Bach celebrava o fim do ano. Na semana anterior, viajamos até Annecy para visitar os amigos Clarice Magalhães e Jean-Marc Mussato. O lago de Annecy é a personagem principal de uma pintura de Paul Cézanne de 1896. Essa paisagem, que evoca uma frondosa árvore, em primeiro plano, e inúmeros tons de violetas e azuis soturnos no espelho d’água e nas montanhas, é bem menos atmosférica e aérea do que as de costume do mestre de Aix, e talvez por isso tão interessante e tão mais bruta.

Georges Braque, Still Life Le Jour, 1929

A França era uma velha conhecida principalmente pelas obras de Georges Braque, Paul Cézanne, Pierre-Auguste Renoir, Édouard Manet e muitos outros. As naturezas mortas e interiores de Braque, com seus papéis de parede, mesas de sinuca, janelas que se abrem para pequenos terraços e balaústres a mostrar a cidade, em que o olhar não atravessa alguns metros, se incrusta na
essência da pintura. Distante da perspectiva ampla e haussmanniana, com seus grandes bulevares, Georges Braque se detém na complexidade da minúcia, na aspereza da parede, na repetição da padronagem e no sensual acetinado das estamparias. Pintor de recursos ilimitados, le Patron, como Braque é conhecido na França, tem em sua imagem e em sua grande sombra o dom de consubstanciar o tátil em pintura.

Georges Braque, The Black Fish, 1942

Gonçalo Ivo

Madri, 5 de setembro de 2021.

Postscriptum: Hoje tive a devastadora notícia do falecimento do querido amigo João Atanásio. Dediquei a ele meu artigo anterior, “Diário de imagens”. O fato de encontrar-me em Madri me conforta, pois João sempre me confessava que aqui era o seu lugar. Amava los platos combinados, los albariños y los verdejos. Nunca nos encontramos em Madri até o dia de hoje.

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