A MÁRIO E ROBERTO

Nazaré é uma cidade costeira. Há uma pequena enseada e um ancoradouro de pedras para os barcos pesqueiros, como em qualquer outra vila litorânea em Portugal. Aveiro é mais graciosa, com seu imenso braço de mar, suas pontes e os inúmeros varais de roupas, estendidos ao longo da ribeira.

Azeitão, sábado, 21 de janeiro de 1989

Nazaré é uma cidade costeira. Há uma pequena enseada e um ancoradouro de pedras para os barcos pesqueiros, como em qualquer outra vila litorânea em Portugal. Aveiro é mais graciosa, com seu imenso braço de mar, suas pontes e os inúmeros varais de roupas, estendidos ao longo da ribeira.

Ontem, ao passarmos por Nazaré, não pude deixar de me lembrar do artista Mário Botas e da noite em que nos encontramos. Fui ao seu ateliê de Lisboa em março de 1983, levado por um amigo em comum, o poeta António Osório de Castro. Eu estava com 24 anos, pintando diariamente, porém inseguro diante da ideia de viver exclusivamente da minha arte. Mário Botas me tomou como igual. Já pertencia ao meio intelectual português e era um artista profissional, com exposições em vários cantos do mundo. No curso de nossa conversa, interferia em uma das várias aquarelas em que estava trabalhando. Mário estava doente havia anos e viria a morrer poucos meses depois desse nosso encontro.

A primeira vez que vi um trabalho seu foi numa livraria do Chiado em 1981. Chamou-me atenção o delicado desenho de um hermafrodita estampado na capa do livro de poesias Elsinore, de Raul de Carvalho. Nesse livro, repleto de citações sobre pintura, há um belíssimo poema dedicado ao quadro Os embaixadores, de Hans Holbein.

Mário Botas era um homem que vivia em um mundo suspenso pela poesia, a música e a grande arte. “Fui sempre um pintor ao lado da escrita; o que pinto gosta de se encontrar com as palavras”, dizia. É curioso como não há vestígios das paisagens marítimas da terra natal em sua pintura. O trabalho de Botas é povoado por seres mitológicos e personagens da literatura, como Franz Kafka, Fernando Pessoa e Sá-Carneiro.

Usava o secador de cabelo da namorada, uma importante atriz de teatro cujo nome não me recordo mais, para acelerar a evaporação da água em suas minúsculas aquarelas. A todo instante parecia querer comunicar algo sobre a exiguidade do tempo e do espaço, visando realizar nesta vida todos os seus projetos e desejos. A certa altura da noite, já quase madrugada, como demonstração de amizade e confiança, revelou-me “segredos e truques” de aquarelista, os quais também se tornariam meus.

Paris, quarta-feira, 19 de outubro de 1989

À tarde, vamos nos encontrar com Roberto Pontual. Desde 1983, ele comenta meu trabalho e cita-me em revistas e jornais. A primeira vez foi na revista brasileira Módulo, de Oscar Niemeyer,  editada por Marcus Lontra, em um texto que fazia analogias entre alguns artistas brasileiros e a obra de Torres García. Depois vieram outros, como o da revista Colóquio/Artes, publicada pela
Fundação Calouste Gulbenkian, em Portugal, e o livro sobre a Geração 80 em que faz algumas reflexões sobre a minha pintura.

Em seu apartamento na rue de Maubeuge, em Paris, parece que estamos em Ipanema e o mar é logo ali. As paredes são brancas, a luz se espalha de forma difusa, vinda da cour. Mostro a ele meus livros e pequenos cadernos de aquarelista, e também fotografias de pinturas recentes a óleo em grandes formatos. Ele me confidencia que estava interessado em escrever um texto de maior fôlego sobre minhas obras.

Conversamos sobre pintura, o Brasil, a obra de Antônio Dias, a Capadócia, de onde ele acabava de retornar, e Veneza, que Denise e eu ainda não conhecemos. Nos recomenda fortement os  tramezzini, pequenos sanduíches tradicionais, e uma visita à cidade de Pádua para contemplar a Cappella degli Scrovegni.

GONÇALO IVO

Paris, 20 de setembro de 2021.

PS: Esses dois fragmentos dos meus diários são uma pequena homenagem a dois amigos que já não estão mais. Mário Botas escreveu uma carta ao poeta António Osório perguntando por mim e quando eu voltaria a Lisboa. Nunca mais nos encontramos. Roberto Pontual foi o autor da primeira monografia significante sobre meu trabalho, num pequeno livro publicado pela Galeria  Saramenha em 1989. Nos vimos em Paris e no Rio em diversas ocasiões. Toda vez que voltava ao Brasil, Roberto ia ao ateliê de Teresópolis com seu companheiro Vincent e com Victor e José Roberto Arruda, meus marchands e amigos.

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