2 de abril de 2021

Datas. Desde que regressei de Bethany, nos últimos dias de maio do ano passado, são hoje 311 dias de um novo exílio em meu ateliê de Vargem Grande. Neste desterro invento Cosmogonias e Pedras. Leio as passagens do diário de Franz Kafka (1883–1924), escrito na última década de sua vida e ouço a canção da […]

Datas. Desde que regressei de Bethany, nos últimos dias de maio do ano passado, são hoje 311 dias de um novo exílio em meu ateliê de Vargem Grande. Neste desterro invento Cosmogonias e Pedras. Leio as passagens do diário de Franz Kafka (1883–1924), escrito na última década de sua vida e ouço a canção da terra. Debruçar-se sobre os vestígios deixados em uma autobiografia, ou  em páginas ocultas de um diário, não deixa de ser uma invectiva a um mundo movediço entre o aqui, o sonho e a ficção.

Há vários extratos na líquida substância da realidade, assim como “os outros eus” e as inúmeras máscaras que se escondem por trás das arrebatadoras confissões íntimas.

Mergulhar na obra de qualquer artista é sempre uma jornada temerária. Ela pode se transformar no espelho que reflete, ao invés de ser aquela janela através da qual nos jogamos no prazeroso vazio do desconhecido. Havia na biblioteca de meu pai um livro que sempre mirava, Les chefs d’œuvre du fantastique. Ostentava na capa um macabro desenho a bico de pena de Christian
Broutin (1933–). Estampava a alegoria da morte, em que a figura de um vampiro deitado contempla uma mulher com traje vitoriano, e o seu crânio era, em vez de carne e osso, um seixo de pedra sextavada.

Cada texto desse curioso livro é precedido de um desenho, gravura ou pintura, como uma abertura de ópera ou peça sinfônica. Ele reúne contos de Ray Bradbury, Julio Cortázar, Dino Buzzati, Borges, Lovecraft, Kafka, Edgar Allan Poe… Caminhos tortos para quimeras e desassossegos. Os primeiros sonhos de juventude de que ainda me recordo têm a ver com o mundo claustrofóbico e
misterioso deste extraordinário livro, seus textos e suas imagens. Ainda hoje um sonho me persegue. Levito em um quarto branco sem mobiliário, janelas ou portas a meia altura entre o assoalho e o teto.

O flagelo, a morte e o assombro são alguns dos diversos assuntos que dão substância à poesia, à pintura e à música. A melancolia, este estado de torpor diante da realidade e da loucura, da natureza, da velocidade dos dias e da implacável verdade do mundo, tem seu glorioso amanhecer em obras como as de Albrecht Dürer, Francisco de Goya, William Blake, Burne-Jones,
Odilon Redon, Alfred Kubin, Edward Hopper…

Melancolia

O céu raiado nos conduz em linhas até o ponto de fuga, um lugar sob um semicírculo de um arco-íris. Um anjo triste, andrógino, ostenta em suas mãos um compasso. Uma ampulheta marca a passagem das horas e uma pedra lavrada e oitavada me remete aos desenhos da minha juventude de Christian Broutin. O quadrado mágico evoca a harmonia musical de Bach e Klee. O sino toca no exato momento do fim. A corda que pende à direita provavelmente é manipulada por uma das Parcas.

Flutuo no céu, como em meu sonho, mas desta vez reencarnado em um morcego.

Melancolia I, Albrecht Dürer, 1514 | The Metropolitan Museum

Vargem Grande, 10 de abril de 2021.

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