POR SYLVIA CAROLINNE
Que oportunidades de descoberta não sejam acontecimentos isolados, mas possam encontrar continuidade no amadurecimento e na consolidação da pesquisa de um artista
Trabalhar em uma revista de arte independente significa usar vários chapéus ao mesmo tempo. Um deles, talvez o que eu ache mais interessante e mutante, é acompanhar a trajetória dos artistas ao longo do tempo. Divido esse papel de observadora com Liege Jung, nossa editora-chefe, embora por perspectivas diferentes: meu olhar se dá mais próximo dos artistas, em visitas a estúdios e residências e em conversas com curadores. Já a Liege costuma estar mais presente no universo dos colecionadores, galeristas, artistas já estabelecidos e também dos curadores.
Nossas conversas são sempre de muita troca, justamente por conta dessas experiências e diferentes olhares. Mas há um ponto em que concordamos integralmente: o mercado parece estar deixando de lado um certo grupo de artistas.
À medida que trocamos informações, temos a impressão de que o sistema da arte contemporânea se organiza em torno de dois momentos da carreira de um artista. O primeiro é o da descoberta. Um jovem artista, ainda em formação, tanto em sua pesquisa quanto em sua produção, encontra uma ampla oferta de concursos, bolsas, residências, mentorias e exposições voltadas especificamente para viabilizar “a próxima grande promessa”. O segundo é o da consagração. O artista que já conquistou reconhecimento crítico e institucional passa a integrar o circuito mais consolidado do mercado, que alimenta novas oportunidades e reforça sua presença nesse mesmo circuito.
Se pensarmos em um sanduíche, esses dois momentos seriam as fatias do pão. O recheio — a maior parte — é onde encontramos um espaço mais nebuloso: o do artista de meio de carreira. Ele já construiu uma trajetória consistente e não é mais emergente. Conquistou respeito entre seus pares e já não é tão jovem. Produz com seriedade, mas pode se ver estagnado, à espera das poucas oportunidades que ainda se abrem. Resumindo: já não é “novidade”, mas tampouco pertence ao grupo restrito da fatia de cima.
Um exemplo próximo de nós é o de Thix, vencedora do Prêmio Garimpo Dasartes em 2024. No mesmo ano, a artista participou da Residência Artística da FAAP e, em 2025, realizou a individual Retificação, na Temporada de Projetos do Paço das Artes. Em 2026, apresentou Quarto de não dormir, sala de não estar, sua primeira exposição individual na Casa Triângulo. Sua trajetória nos últimos anos ajuda a lembrar da importância de que oportunidades de descoberta não sejam acontecimentos isolados, mas possam encontrar continuidade no amadurecimento e na consolidação da pesquisa de um artista.

Thix, Spacer Woman. (Thix venceu o Prêmio Garimpo Dasartes 2024).
Há, no entanto, uma ironia nessa dinâmica. Embora os artistas jovens concentrem grande parte das oportunidades, isso não significa que estejam em uma posição confortável. Ao contrário. Essa “chuva” de ofertas costuma vir acompanhada de uma pressão silenciosa e perturbadora: a sensação do tic-tac da janela de tempo para “acontecer”. Como se, depois de certa idade, as portas começassem a se fechar.
A produção artística não nasce pronta internamente nem internacionalmente. Ela precisa ser experimentada e amadurecida em sua linguagem. Num sistema ideal, uma carreira deveria ser construída de forma relativamente contínua, através de desvios, leituras, fracassos, mudanças de direção e experiências de vida. Difícil imaginar um artista de vinte e poucos anos com certezas sobre quais perguntas o acompanharão durante as próximas décadas de investigação.
Já no outro extremo dessa trajetória, um movimento semelhante acontece. Mesmo entre artistas já consagrados, o sucesso pode se transformar em uma espécie de armadilha. Quando determinada linguagem, série ou tipo de obra encontra forte aceitação comercial — a ponto de haver compradores em lista de espera —, surge uma pressão para que o artista continue produzindo aquilo que o mercado já aprendeu a reconhecer e deseja comprar.
É uma situação paradoxal: o artista jovem é pressionado a encontrar rapidamente uma identidade, enquanto o artista consagrado pode ser pressionado a não abandoná-la. Talvez este seja um dos efeitos mais perversos dessa engrenagem: ela dificulta justamente aquilo que a arte tem de mais precioso — a possibilidade de uma pesquisa amadurecer ao longo do tempo e de o artista escutar a própria investigação, inclusive quando ela aponta para caminhos que o mercado ainda não sabe reconhecer.
No fundo, porém, isso reflete algo maior que o próprio sistema da arte. Vivemos em um tempo em que a imagem circula mais rápido que o conhecimento, em que a influência muitas vezes vale mais que a experiência e em que a velocidade da comunicação atropela o amadurecimento de uma obra. A lógica da atenção permanente favorece aquilo que causa impacto imediato, enquanto pesquisas mais longas e complexas exigem um tipo de investimento intelectual que nem sempre encontra espaço na economia contemporânea da visibilidade.
Talvez estejamos caminhando para um mercado em que cultura, repertório e conhecimento deixem de ser fatores determinantes na formação de valor. Ao mesmo tempo em que tentamos compreender o mundo como ele é, continuamos a acreditar que uma obra de arte capaz de atravessar o tempo depende de algo que vai muito além de sua aparência ou de sua capacidade de circular em redes de influência.
O verdadeiro desafio, acredito, talvez esteja justamente em preservar esse espaço de incerteza: permitir que um artista possa mudar de ideia, recomeçar, contradizer a própria trajetória ou simplesmente investigar algo que, naquele momento, não parece promissor. Uma carreira artística não deveria ser uma linha reta entre a descoberta e a consagração, mas um percurso cheio de desvios, pausas e recomeços.
Aceitar a realidade desse sistema, sem abandonar aquilo em que acreditamos, talvez seja uma forma de continuar produzindo sem transformar a frustração em amargura. E, sobretudo, de lembrar que o tempo — justamente aquilo que o mercado parece ter cada vez menos disposição para conceder — pode ser um dos materiais mais importantes de uma obra.

