O Mergulho, de Renata Adler

O Mergulho, título da exposição individual de Renata Adler não é um convite para mergulhar na água, mas uma oportunidade para repensar a consciência. “E se esta fosse não apenas um continente, que parece crescer à medida que o exploramos, mas também a própria imagem do infinito?”, a artista parece estar nos dizendo.

POR MARC POTTIER

O Mergulho, título da exposição individual de Renata Adler não é um convite para mergulhar na água, mas uma oportunidade para repensar a consciência. “E se esta fosse não apenas um continente, que parece crescer à medida que o exploramos, mas também a própria imagem do infinito?”, a artista parece estar nos dizendo. Compreender o universo em larga escala, compreender a essência da vida e, compreender a nossa própria situação de ser jogado no mundo, parece ser o seu convite para nós. Dessa forma, estaria ela propondo com a sua grande instalação escultórica imersiva no Farol Santander, uma síntese entre conhecer o mundo e conhecer a si mesmo, para se transformar para melhor?

“Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma” Lavoisier

A transformação perpétua é um leitmotiv para Renata Adler, que se apropria da famosa citação de Antoine Lavoisier (1743-1794), o grande químico francês considerado o pai da química moderna: “Na natureza nada se cria, nada se perde, tudo se transforma”. Através dele, a lei da conservação da energia propõe que a energia não pode ser criada nem destruída, só pode ser transformada de uma forma para outra ou transferida de um lugar para outro. Esta é a mensagem central desta instalação interativa.

Renata arremata seu pensamento citando o grande filósofo grego Sócrates (- 470/469 – 399): “O segredo da mudança é focar toda sua energia não na luta do velho, mas na construção do novo”. Leva você à reflexões positivas profundas, uma filosofia como forma de viver. Toda abordagem filosófica autêntica não inclui, como momento constitutivo, este questionamento alegre, crítico sem aspereza, aplicado às nossas crenças, ao nosso comportamento e aos nossos estilos de vida? Renata pensa nesta transformação perpétua, que é a essência da própria vida, no sentido da melhoria. É uma linda mensagem que ela envia aos visitantes da exposição do Farol Santander.

Uma floresta de camaleões

“…com o sol entrando pela floresta dos meus camaleões…ecoando transmutação do ser e da matéria renovando e renascendo a cada instante…” RA

Assim que entra na exposição, o visitante fica submerso numa floresta de móbiles que a artista chama de ‘camaleões’, uma instalação imersiva que, através de um jogo sutil de materiais refletores, reproduzindo um efeito de espelho, faz perder o sentido de proporção e multiplica a obra de arte. São esculturas em madeira torneada, algumas parcialmente pintadas, às quais a artista acrescenta vários elementos heterogéneos. Para ela, o camaleão não é aquele que se esconde adotando a camuflagem, mas, ao contrário, é aquele que sabe se adaptar a cada circunstância e evoluir para melhor se integrar à vida.


Como estalactite de uma vida estagnada pronta para se reciclar a artista ressignifica tudo

“Me interesso em trabalhar com metais rígidos e a madeira por sua versatilidade e que se transforma nos meus camaleões. Essas finas colunas com anéis que pinto com cores que me identifico! Me interessa chamar o público para refletir nessa constante transformação que meus camaleões representam e a ligação da terra e o céu…em uma continua energia de transformação. Ver o mundo como ele é e o meu mundo e a fusão dos dois transformando o ser! Quero que você faça parte dessa transformação e te convido para mergulhar nessa instalação. Na tradição africana o céu e a terra se conectam através das árvores na leveza das folhas e na força das raízes da árvore…sou muito grata as árvores! Meu processo é todo focado na transformação do ser e da matéria sempre em constante movimento!” comenta a artista.

Um inventário ao estilo Prévert?

 

Jacques Prévert (1900-1977) publica Paroles em 1946. Ele deseja se libertar de todas as regras tradicionais para criar uma poesia próxima da linguagem oral e marcada pelo gosto da anáfora e pela enumeração. Ele oferece com o seu Inventário uma espécie de poema-lista, característico do movimento surrealista em busca do surreal, ou seja, de uma realidade superior onde a importância da liberdade, dos sonhos e da linguagem não estruturada são essenciais. É uma sucessão de imagens sem nenhuma relação óbvia entre si. Prévert brinca com a liberdade de expressão que seu inventário lhe oferece. Ele pode colocar imagens surpreendentes e absurdas lado a lado e recuperá-las aleatoriamente. Com Mergulho, Renata Adler não entrega apenas uma lista aleatória e leve. Seu “Inventário” de camaleões parece observar de cima a evolução do mundo contemporâneo.

Os materiais que utiliza são portas de entrada para repensar este mundo em perpétua transformação com os seus futuros possíveis e as suas preocupações. Muitos tipos de madeira aparecem na sua obra: a madeira de Oliveira (a oliveira é um dos símbolos mais antigos do mundo, inalterável ao longo do tempo e de valor atemporal. O simbolismo da oliveira é paz, fertilidade, sabedoria, imortalidade, prosperidade e sucesso), cajá mirim, abacateiro, jabuticabeira (rica em antioxidantes), fênix (símbolo da ressurreição que espera os defuntos após a pesagem das almas), semente de urucum (o urucum é uma fruta vermelha nativa da América Tropical, usada em pinturas corporais, culinária e medicina. Na língua mebêngôkre dos indígenas Kayapós, o urucum designa uma planta sagrada, chamada de Pykoré, que carrega o símbolo da abundância), semente de palmeira (símbolo da ressurreição, associada ao paraíso, a Cristo, à ave fênix;) …

Os camaleões, todos diferentes, são também constituídos de máscara recicladas e pigmentos, olho de gato (sinalização de trânsito), conduíte de elétrica, remédios vencidos, micro plásticos, plásticos, escovas dente, cotonetes, mangueiras, brinquedos, catálogo/livro, garrafas de vidro, cabos náuticos, cobre de sucata de ar-condicionado e luminárias, apara de espelhos, aços e acrílicos…tudo o que se encontra hoje neste terceiro mar poluído que a sociedade de consumo está legando às gerações futuras.

Ela não quis intitular todos os seus camaleões, mas, quando o fez, é para nos deixar mensagens, como garrafas no mar confiadas às ondas aleatórias dos nossos pensamentos: micro plástico (em homenagem ao documentário Plastic Ocean), Pandemia, Sol, Lua, Tarja Preta (comprimidos, remédios), A Cura, Renovação da Vida, Reflexo da Alma, Estado líquido…

Um manifesto de um apelo

“O sistema ostenta este relacionamento com a necessidade de sentir…de pertencer o tempo todo…o que você é… o que você tem, só vale o que você tem e você tem é o que você merece…não é real. Na verdade, não é busca desenfreada pelo dinheiro não é discurso moralista que não precisamos dele… não corrompe.

É um manifesto de um apelo…uma demanda contemporânea. É um ponto de alerta, um cordão de manifestação de ideias que está dentro de mim e acho que dos homens em geral. Levamos uma vida toda para sermos o melhor de nós mesmos, então devemos otimizar nosso tempo pois só temos essa chance para vencer!

As vezes pensamos como é difícil e assustador saber que aos poucos estamos morrendo pois sabemos bem que terminamos de onde viemos…somos luz. Então precisamos de tranquilidade para seguirmos nosso caminho que as vezes é longo e por outras mais curto, cada um à sua maneira. Não devemos nos afogar com besteiras. Força, perseverança, mas com muita serenidade devemos percorrer está estrada da vida. Uma nova etapa…um discurso ambiental…não…eu me aproprio de materiais aleatório do aço, do cobre, da madeira e que já estão no mundo e dentro dessa técnica entro nas minhas obras, com meus camaleões…” precisa a artista.

O passeio nesta floresta de mais de 200 camaleões termina ao chegar diante de uma instalação aquática que recebe projeções que são como sopros de vida nesses pedaços isolados de mar.

As transformações da exposição O Mergulho que Renata Adler propõe aqui fazem então parte de suas interrogações artísticas e filosóficas: movimento, mudança, integração e sincronização, com todos os riscos e incertezas que este tipo de trabalho produz. O movimento tem um lugar essencial na ontologia aristotélica que a inspira, pois é através do movimento que o filósofo será levado a reconhecer “a diversidade das acepções do ser”. Para os primeiros gregos, o movimento era por excelência o fluxo, o indefinido, o ilimitado… um caos insondável onde o melhor sempre pode acontecer.

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