Yolanda Penteado, 1978, por Madalena Schwartz. Crédito: Reprodução Casa Vogue Brasil

Yolanda Penteado: a dama que transformou as artes no Brasil

Durante a década de 1950, contribuiu com a organização do Museu de Arte de São Paulo (MASP), além dos Museus Regionais (Olinda, Campina Grande e Feira de Santana) e na organização da Bienal de Arte de São Paulo, que colocou o Brasil no circuito internacional das artes

POR TIAGO PENTEADO

Yolanda Ataliba Nogueira Penteado (1903 – 1983) foi uma personagem central da história da nossa cultura no século 20. Filha da oligarquia cafeeira de São Paulo, soube unir influência e sua posição social em favor das artes

Durante a década de 1950, contribuiu com a organização do Museu de Arte de São Paulo (MASP), além dos Museus Regionais (Olinda, Campina Grande e Feira de Santana) e na organização da Bienal de Arte de São Paulo, que colocou o Brasil no circuito internacional das artes.

Com fácil entrada nos mais altos setores da sociedade na época, graças ao seu sobrenome “quatrocentão”, cultivou amizades com figuras políticas, intelectuais e artistas nacionais e internacionais.

Para se ter ideia de sua importância para o contexto histórico das artes, em 1953 trouxe o painel “Guernica”, do espanhol Pablo Picasso, para a 2ª Bienal de Arte de São Paulo.

Herdeira do legado da “Nossa Senhora do Brasil”

Yolanda, Juscelino Kubitscheck e Ulisses Guimarães, em 1957, na IV Bienal do Museu de Arte Moderna de São Paulo. Crédito: Arquivo Wanda Svevo, Fundação Bienal de São Paulo.

Yolanda Penteado nasceu em 6 de janeiro de 1903 na tradicional Fazenda Empyreo, em Leme, a 187 km da capital paulista. Lá, ficou até os sete anos e, em 1911, se mudou com a família para um casarão projetado por Ramos de Azevedo, na esquina da Rua Ipiranga com a Avenida Rio Branco, no então oligárquico bairro do Campos Elíseos.

São Paulo ainda era provinciana, mas já experimentava o início do progresso econômico e cultural, conhecido como a Belle Époque brasileira. Yolanda herdou as artes e o mecenato de sua tia Olívia Guedes Penteado, conhecida pelos modernistas da época como a “Nossa Senhora do Brasil” ou a “Protetora das Artes”.

Yolanda em tela de Di Cavalcanti. Crédito: Acervo MAC USP.

Figura central da cultura paulistana, a elegante tia Olívia, que era fazendeira em Araras, vizinha de Leme, teve importante papel na organização da Semana de Arte Moderna de 1922, que agitou São Paulo.

Embora não tenha acompanhado o movimento, pois era uma jovem recém-casada com seu primo distante, Jaime da Silva Telles, acompanhou o evento com os artistas durante os encontros sociais de Olívia. Neles, absorveu ideias, visões e as inquietações que moldariam a sua relação com as artes.

Assis Chateaubriand, dono do Diários Associados e amigo de Yolanda, um dia a definiu: “Yolanda tinha da tia [Olívia] o demônio prodigioso do enfeitiçamento. Em qualquer salão aonde ela chega, domina. Em qualquer cidade onde apareça, todos sucumbem à poesia de sua sedução pessoal”.

Pioneirismo na gestão das artes

Yolanda e Assis Chateaubriand. Crédito: Biblioteca e Documentação do MASP.

Após a morte de seu pai Juvenal Penteado, em 1931, Yolanda e Jaime compraram a Empyreo. Aos 30 anos, ela assumiu a administração da propriedade, que nos anos 1950 foi palco de grandes encontros.

Sua atuação para as artes ficou ainda mais forte após a separação de Jaime, um escândalo para a época. Marcos Mantoan, Gestor Cultural, é um dos mais importantes estudiosos da vida da mecenas. “Ela era uma mulher visionária e à frente de seu tempo, e dotada de um talento natural para a diplomacia”, define.

Autor da tese “Yolanda Penteado: gestão dedicada à arte moderna”, da Escola de Comunicação de Artes da USP, Mantoan também foi curador, ao lado de Alecsandra Matias de Oliveira, da mostra “Yolanda Penteado: a dama das artes de São Paulo”, realizada em 2016 no Museu da Cidade Solar da Marquesa de Santos – ao lado do Pátio do Colégio.

Ele explica que a dedicação de Yolanda para as artes, ao lado de Ciccillo e Chateaubriand, foi responsável por inserir o Brasil no mapa internacional das artes, além de iniciar a profissionalização do setor.

“Antes as exposições eram apenas locais, pequenas, e não havia envolvimento de técnicos, engenheiros, arquitetos, eletricistas com a produção: hoje tão essenciais para uma grande mostra”, disse.

1ª Bienal de Arte de São Paulo

Pavilhão construído na Avenida Paulista para a 1ª Bienal da Arte de São Paulo. Crédito: Arquivo Wanda Svevo, Fundação Bienal de São Paulo.

Após separar-se de Jaime da Silva Telles, Yolanda casou-se em Roma, na Itália, com outro mecenas: o industrial italiano, Francisco Matarazzo, o Ciccillo. O casal foi fundamental para a transformação da história das artes.

Em sua autobiografia “Tudo em Cor de Rosa”, lançada em 1976, ela conta que a ideia da 1ª Bienal surgiu completamente imprevista durante um diálogo com Ciccillo. “Um dia Ciccillo me fez essa pergunta: você não quer experimentar fazer uma bienal? Eu nem sabia direito o que era uma bienal”, escreveu.

No mesmo texto, detalha que a ideia já tinha sido proposta para diversos países, inclusive com envio de carta-convite, mas sem resposta. Coube o seu talento para a diplomacia tirar o evento do papel.

“Toda a organização da 1ª Bienal foi feita em apenas 66 dias, um prazo impensável até nos padrões atuais, e saiu graças à diplomacia incansável de Yolanda”, afirma Mantoan.

Na época, o presidente Getúlio Vargas autorizou o acesso irrestrito de Yolanda às embaixadas dos países que visitaria, onde era recebida como uma autoridade informal, uma diplomata da cultura.

A 1ª Bienal da Arte de São Paulo foi inaugurada em 20 de outubro de 1951, em um espaço construído provisoriamente na Avenida Paulista, onde hoje está o MASP. O resultado foi histórico: 729 artistas, 25 países, 1.854 obras e 100 mil visitantes. Somente no primeiro dia foram 5 mil, um marco para a época.

Reuniu grandes nomes da arte brasileira como Cândido Portinari, Di Cavalcanti, Tarsila do Amaral, Lasar Segall, Victor Brecheret, Maria Leontina e Abraham Palatnik, além de importantes artistas internacionais como Pablo Picasso, René Magritte, Alberto Giacometti, Max Bill, George Grosz e Germaine Richier.

A “Bienal da Guernica”

Guernica, de Pablo Picasso, exposta na 2ª Bienal de São Paulo, em 1953 e 1954. Crédito: Arquivo Wanda Svevo, Fundação Bienal de São Paulo.

Com o sucesso da primeira edição, a 2ª Bienal de São Paulo foi realizada de dezembro de 1953 a janeiro de 1954 para celebrar o 4º Centenário da cidade de São Paulo. Pela primeira vez, Guernica, o painel de Pablo Picasso, saiu dos EUA rumo à América do Sul.

Yolanda conheceu Picasso em seu ateliê no castelo Grimaldi, hoje Museu Picasso. “Era um homem belo e único. E um charme maluco”, escreveu Yolanda em suas memórias.

Segundo o escritor Antonio Bivar, autor da biografia “Yolanda”, lançada em 2004, a empatia entre os dois foi imediata e rendeu a autorização da exposição das obras do artista no Brasil.

Marcos Mantoan detalha como ocorreu. “Guernica estava no Museu de Arte Moderna (MoMA), em Nova York, e o transporte foi feito de navio até o Brasil, onde desembarcou no Porto de Santos. Na Fazenda Empyreo ainda existe um bilhete escrito pelo próprio Picasso e escrito: “para Yolanda, com amor”.

Com o dobro de obras em relação à edição anterior, a 2ª Bienal foi realizada no Parque Ibirapuera e inaugurada em 12 de dezembro de 1953 por Getúlio Vargas. Além de Picasso, contou com as brasileiras Maria Leontina, Tarsila do Amaral, a inglesa Prunella Clough e a francesa Germaine Richier.

Em números, o sucesso foi quase o dobro: 33 países participantes, 712 artistas, 3.374 obras, 200 mil visitantes, 3.800 estrangeiros e seis quilômetros lineares de obras distribuídas em dois pavilhões.

Outros legados da “Caipirinha de Leme”

Figueira onde parte das cinzas de Yolanda foram espalhadas. Crédito: Marcos Montoan.

Além das duas bienais, Yolanda e Ciccillo contribuíram ainda para a criação da Companhia Cinematográfica Vera Cruz e do Teatro Brasileiro de Comédia (TBC). Mesmo após a separação, de forma amigável, em 1960, Yolanda e Ciccillo seguiram com ações para as artes.

No caso dela, ainda há o MASP (Museu de Arte de São Paulo Assis Chateaubriand), além de museus regionais, frutos de sua parceria com Chateaubriand.

Mas o pioneirismo de Yolanda vai além das artes: ela foi uma espécie de Scarlett O’Hara de São Paulo, pois soube se reinventar após a Crise do Café de 1929, que resultou na falência de diversas famílias.

Após a crise, mandou derrubar todos os cafezais da Empyreo e introduziu a cultura do algodão em: Leme ficou conhecida por décadas como a “Capital do Algodão”.

Na mesma época, introduziu a criação do bicho-da-seda, cultivo da mandioca e a cerâmica, que também foi um grande motor da economia no município por décadas.

Na lista do seu pioneirismo há ainda a provedoria da Santa Casa de Misericórdia de Leme, o Aeródromo Yolanda Penteado, inaugurado na década de 1950, o Clube de Campo Empyreo e o restaurante Rancho Empyreo, ambos às margens da Rodovia Anhanguera e que antes eram terras da fazenda e foram doadas pela mecenas.

Yolanda faleceu em 14 de agosto de 1983 em Stanford, nos EUA. Suas cinzas foram espalhadas nas terras que antes eram da Empyreo e no entorno de uma árvore Figueira, que ainda hoje segue solitária na paisagem rodeada pelos canaviais.

Tiago Penteado é jornalista, formado pelo Instituto Superior de Ciência de Limeira, e fotógrafo, com formação pelo Instituto Internacional de Fotografia de São Paulo. Em 2011, foi reconhecido com o Prêmio Vladimir Herzog de Jornalismo pela reportagem “O que é ser normal”
As matérias assinadas são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião da Dasartes.

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