Rodrigo Saturnino (ROD), Pink Flag, 2021. Acrílico sobre tecido 360 x 146cm

Voltar às raízes: arte contemporânea brasileira em Portugal

Arte brasileira retoma criticamente, no exterior, o problema fundacional do país.

POR ARTUR DE VARGAS GIORGI

Ao relacionar um panorama da arte contemporânea brasileira exposta recentemente em Portugal, fico tentado a afirmar que, de maneira geral, o que ela faz é voltar às raízes. Obviamente – devo logo dizer –, não porque ela enfim retorna a uma suposta origem lusitana ou ibérica, como alguém que retornaria para casa, após longo périplo, e assim se reencontraria, em seu chão próprio, apaziguado dos dilemas do não-pertencimento. 

A situação é bem diversa disso, de fato: a arte contemporânea brasileira exposta em Portugal parece voltar às raízes, mas como quem retoma e reexamina criticamente um incontornável problema epistemológico, estético e político que é constitutivo de nossa fraturada história colonial. Exposta em Portugal, a arte brasileira volta, portanto, ao problema fundacional do país e da cultura.

Intérpretes modernos de distintas vertentes se debruçaram sobre essa questão. Em geral, esses olhares retrospectivos afirmaram que, desde a conquista, o espaço brasileiro foi elaborado sobre um fundamento instável, frágil ou mesmo inexistente. Proposta emblematicamente por Sérgio Buarque de Holanda em Raízes do Brasil, livro de 1936 que é um marco ensaístico do nosso modernismo, a metáfora das raízes condensa uma das formulações mais bem-acabadas para a formação do nacional brasileiro a partir de um processo de desterramento e, ainda, para o reconhecimento do “fora do lugar” como nosso lugar mais próprio. 

Para remediar esse vazio, esse ser desterrado e sem solo próprio, seria necessário um intenso investimento na revisão do passado e na construção de uma cultura arborescente, tarefa já assumida pelas idealizações do romantismo nacionalista, mas que seria encampada, em outra chave, no processo de modernização do século XX, pelo Estado intervencionista, em pacto com a alta burguesia e a intelectualidade esclarecida do país. 

Assim, a leitura de Buarque de Holanda dá sequência a uma via aberta por Silvio Romero e José Veríssimo, e logo seguida por Gilberto Freyre, Afrânio Coutinho, Antonio Candido, Roberto Schwarz, Ferreira Gullar, Mário Pedrosa, Alfredo Bosi, entre outros. Lidando com o mesmo problema, isto é, com a falta de chão de nossas raízes e com a necessidade de construir retrospectivamente, na modernidade, uma fundação que encaminhasse o futuro do país, esses intérpretes pensaram a cultura brasileira como um processo de “transplantação”, sendo esse termo igualmente deslocado do vocabulário da ciência botânica. 

Com suas variantes (como “implante” e “implantação”), a “transplantação” é uma das marcas de um princípio interpretativo que, no século XX, atravessa uma série de estudos de matriz sociológica e antropológica, em torno dos impasses da modernização e dos debates sobre a identidade brasileira, o progresso científico, a dependência cultural, o desenvolvimento econômico, a soberania política etc.

É claro que o problema foi apresentado de diferentes modos, com nuances e disputas. Não obstante, parece haver uma constância, um pressuposto que serve a esses estudos como uma espécie de protocolo de leitura. Isso porque a cultura é compreendida nos termos de um vitalismo arborescente, das raízes à floração, o que lhe confere um padrão organicista evolutivo, ascendente, devendo estar bem enraizada no solo de uma história também ela já assimilada pela lógica “natural” e positiva do progresso. 

Além disso, na base desse protocolo interpretativo, é igualmente significativa a legitimidade atribuída à gênese, isto é, aos antecedentes responsáveis pela geração da cultura em questão; aos troncos e galhos descendentes – no nosso caso, galhos secundários da cultura portuguesa, cultura que, por sua vez, já era um “arbusto de segunda ordem no jardim das Musas…”, na célebre expressão de Antonio Candido – caberia, a partir dessa reconhecida herança que é passada como propriedade genética através do “transplante”, decidir pela melhor forma de mitigar as fraquezas e de nutrir o seu desenvolvimento orgânico.

Vemos como é problemática essa matriz interpretativa da cultura nacional. E, ao mesmo tempo, como ela foi influente, às vezes determinante, para compreensão da arte lida de acordo com esse protocolo. Agora, entendo que é esse problema fundacional que é revisto criticamente por diversas obras contemporâneas expostas em Portugal. 

As apostas são várias. Boa parte das obras reforça o apelo identitário, que é retomado como luta contra as fábulas da unidade nacional ou do “povo brasileiro”, e contra qualquer idealização ou estereótipo a respeito do “outro”, isto é, a respeito das formas de vida e dos sujeitos que historicamente não serviram e nem servem, hoje, à razão ocidental e aos seus juízos. Seja como for, é possível dizer que tais obras trazem, em geral, essa marca de uma volta a contrapelo ao que nos foi legado por um passado colonial, ainda muito presente, é claro, na contemporaneidade.

Vista da exposição “Nosso Barco Tambor Terra” de Ernesto Neto. Lisboa, 2024. Foto por Bruno Lopes.

Mesmo um levantamento sumário e restrito aos últimos anos já nos mostra a abrangência dessas apostas: entre fevereiro e março de 2024, Denilson Baniwa esteve presente na exposição “Pajé Jaguar” (curador: Nelson Ricardo Martins) e em outros eventos no Colégio das Artes da Universidade de Coimbra; entre maio e outubro do mesmo ano, Ernesto Neto realizou no Museu de Arte, Arquitetura e Tecnologia (MAAT), em Lisboa, a exposição “Nosso Barco Tambor Terra” (curador: Jacopo Crivelli Visconti); ainda em julho de 2024, no mesmo museu, houve o evento “As Cosmovisões Huni Kuin”, com presença do coletivo composto por Zenira Neshane, Sabino Dua Ixã e Txaná Nixiwaka; desde abril deste ano, a obra de Adriana Varejão está exposta com a de Paula Rego no prestigioso Centro de Arte Moderna Gulbenkian, em Lisboa, na mostra “Entre os vossos dentes” (curadoria: Adriana Varejão, Helena de Freitas e Victor Gorgulho); na mesma instituição está prevista, entre novembro de 2025 e fevereiro de 2026, a coletiva “Complexo Brasil” (curadoria: José Miguel Wisnik, Milena Britto e Guilherme Wisnik), com um programa de atividades paralelas; entre fevereiro e junho deste ano, ainda, no Torreão Nascente da Cordoaria Nacional, em Lisboa, houve a mostra “O Brasil são muitos: um recorte da coleção do Instituto PIPA” (curador: Luiz Camillo Osório), com a participação de Aleta Valente, Alice Miceli, Arjan Martins, Bárbara Wagner, Berna Reale, Daniel Beerstecher, Denilson Baniwa, Gê Viana, Guerreiro do Divino Amor, Hal Wildson, Letícia Ramos, Paulo Nazareth, Romy Pocztaruk, Sofia Borges, Tatiana Blass, Virginia de Medeiros, Vitória Cribb, UÝRA, e Xadalu Tupã Jekupé; etc.

Esta não é a oportunidade para passar essas obras em revista. No entanto, saliento a presença expressiva de artistas indígenas, de diferentes povos, assim como de artistas afro-brasileiros, com diferentes perspectivas sobre o papel da arte na contemporaneidade. Da releitura crítica da antropofagia, tão importante em Denilson Baniwa, à acusação direta da matança colonial, explícita numa intervenção de Rodrigo Saturnino de 2022 (na mostra “Culturas Urbanas Emergentes”, também no MAAT; curadores: António Brito Guterres, Carla Cardoso e Alexandre Farto), é a questão da raiz que é repensada. Em outras palavras: é o gesto anticolonial que nos liga à terra e a uma memória ancestral compartilhada, mas também é o saber que nos afasta, hoje, da racionalidade moderna e sua concepção teleológica de cultura. 

Agora, o ponto de referência privilegiado já não é a Europa e seu exuberante jardim de musas; e já não se trata de remediar o desterramento, o “transplante” e a distância dessa origem desgarrada com a construção de uma cultura nacional arborescente, enfim nutrida pela unidade do povo e do Estado brasileiro, desde a sua gênese aos novos frutos. O que, sim, está em jogo, podemos dizer, é uma radical mudança no quadro de referências, que se faz extremamente plural, explicitando nossas fraturas; é o direito de resposta a sujeitos que nunca tiveram voz ou protagonismo nessa fábula evolutiva do mundo ocidental: uma fábula que, com efeito, nunca foi a deles. 

São esses sujeitos que hoje interpelam a tradição que impôs a inúmeros “outros” o seu projeto colonial e a sua racionalidade. E fazem isso, vale destacar, não a uma distância oceânica, mas no próprio solo onde vingou, orgulhosa, a empresa colonialista: no lugar de onde partiu, para a conquista pela cruz e pela espada, o que Camões chamou em sua épica de “o peito ilustre Lusitano”.

Essa inflexão política da arte brasileira contemporânea, que em muitos casos leva adiante a retomada de pautas identitárias, não encontra, no entanto, um consenso. Dos artistas mencionados, Adriana Varejão e Ernesto Neto, por exemplo, escapam ao identitarismo, mas sem recuar na problematização da história colonial brasileira. O refinamento e a complexidade de suas obras contrastam muito com intervenções que optam pela palavra de ordem polêmica, isto é, pelo contra-ataque frontal, mas de pouco apelo formal, como no caso de Saturnino.

Vista da exposição “Paula Rego e Adriana Varejão. Entre os vossos dentes” em cartaz no Centro de Arte Moderna Gulbenkian, em Lisboa © Pedro Pina.

Ou seja, também em termos estéticos, mais do que nunca vemos que não há organicidade no que se afirma como “brasileiro” ou como “arte brasileira”, hoje, quando a própria noção de arte, aliás, já tão expandida desde as neovanguardas, mostra-se absolutamente elástica ou circunstancial, arriscando-se na indistinção. É nessa condição que proliferam inúmeras pautas ativistas e agenciadoras, de acordo com urgências e narrativas que se sobrepõem vertiginosamente; e é assim, também, que as lutas se pulverizam pelas muitas instâncias da representação estética e política, arriscando sua força, sobretudo quando rendidas às dinâmicas do espetáculo artístico global e do teatro da democracia.

O impasse maior, a meu ver, está aí: voltar às raízes deveria ser também avançar no horizonte do que parece impossível, o que só poderá ser feito com a imaginação de uma vida em comum, isto é, reforçando não as diferenças e as particularidades sem fim, mas, sim, a mais radical igualdade que compartilhamos, todos. É com a reivindicação dessa igualdade inegociável que tensionaremos o limite do capitalismo planetário, impondo uma saída para a espoliação que foi desde sempre inseparável, como sabemos, das práticas coloniais.

Paula Rego e Adriana Varejão. Entre os vossos dentes
Centro de Arte Moderna Gulbenkian, Lisboa
Até 22 set 2025

Artur de Vargas Giorgi é Professor de Teoria Literária
da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
Bolsista de Produtividade em Pesquisa do Conselho Nacional
de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq

 

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