Por Fabrício Reiner
A exposição Desorientação e Firmeza da artista Lilian Camelli na Galeria Contempo propõe ao visitante uma experiência silenciosa e densa, na qual a pintura se afirma menos como representação de espaços reconhecíveis e mais como um campo de negociação entre memória, instabilidade e permanência. Trata‑se de uma mostra que não se organiza pela espetacularidade nem pela afirmação de um programa formal fechado, mas por um conjunto de tensões sutis que atravessam cada obra e que, em conjunto, configuram uma ética pictórica rigorosa: a de sustentar a imagem no limite entre o reconhecimento e a perda, entre a fidelidade e a sua inevitável deformação pela lembrança.
Desde o primeiro contato com as telas, torna‑se evidente que a questão central do trabalho de Lilian Camelli não é a construção de um espaço coerente, mas justamente a recusa dessa coerência como princípio organizador. Os interiores que a artista apresenta – corredores, salas, móveis, portas, tecidos – não se oferecem como cenários estáveis, tampouco como narrativas claramente localizáveis. Eles operam como estruturas vacilantes, em que diferentes regimes espaciais coexistem sem jamais se resolverem plenamente. A perspectiva é rasa, os planos se confundem, e a tridimensionalidade surge sempre de forma relativa, como se os objetos resistissem a ocupar integralmente o espaço que lhes é destinado.
Essa resistência é um dos aspectos mais significativos da obra. Cadeiras, mesas, poltronas e cortinas preservam densidades internas que as distinguem do fundo, instaurando um desencaixe fundamental entre figura e ambiente. Em vez de integrar os objetos ao espaço, a pintura os mantém em suspensão, ligeiramente deslocados, como se pertencessem a uma realidade paralela ou a uma lembrança que insiste em não se acomodar ao presente. Não se trata, contudo, de uma negação da figuração, mas de uma figuração submetida a um processo contínuo de desorientação controlada – um esforço deliberado de testar até onde a imagem pode ser instável sem perder sua consistência.

Lilian Camelli, La silla del fondo, 2024
Nesse sentido, a exposição explicita um compromisso ético com a própria pintura. Cada tela parece responder a uma pergunta que acomete o pintor na modernidade: como seguir pintando sem repetir estilemas, sem dissolver completamente a imagem e ancorada na experiência do mundo sensível? A resposta de Lilian Camelli não está na ruptura radical nem na adesão a sistemas compositivos rígidos, mas na construção de um espaço pictórico que incorpora a falha, a ambiguidade e o deslocamento como valores estruturais. A memória, aqui, não é um repositório de imagens claras, mas um campo turvo, enviesado, no qual o que persiste se faz de maneira fragmentária e instável.
A cor desempenha um papel decisivo nesse processo. Longe de funcionar como elemento expressivo imediato ou como organizadora de profundidades tradicionais, ela atua como agente de coesão e, ao mesmo tempo, de tensão. Matizes envelhecidas, variações tonais discretas e campos cromáticos contidos estabelecem ritmos internos que mantêm as partes em relação, mesmo quando a organização espacial se mostra vacilante. A pintura não se abre para o espaço; ela se fecha sobre si mesma, transformando a superfície em um lugar de inscrição da interioridade, física e psíquica, onde cada camada parece carregar vestígios de apagamento e reaparecimento.
O tratamento da superfície reforça essa lógica. Veladuras, raspagens e bordas imprecisas fazem com que a imagem oscile continuamente entre vestígios. O pincel ora modela volumes com delicadeza, ora os corrói, como se o gesto pictórico encenasse o próprio movimento da lembrança: construir para, em seguida, desfazer parcialmente. Essa oscilação confere às telas uma qualidade simultaneamente tátil e espectral, na qual os objetos parecem revestidos por uma pele fina, vulnerável, que os aproxima tanto da materialidade quanto da fantasmagoria.

Lilian Camelli, La brisa de verano IV, 2026
Os interiores apresentados na Galeria Contempo são, assim, menos lugares habitáveis do que estados de espírito. Há neles uma intimidade deslocada, uma proximidade que não conforta, mas convoca o observador a reconhecer algo de familiar em sua própria instabilidade. A escala contida e os enquadramentos fechados reforçam essa sensação de proximidade quase claustrofóbica, na qual o espaço deixa de ser um campo de circulação e se transforma em superfície pictórica. O passado não se apresenta como lembrança nostálgica, mas como uma força que insiste em reverberar no presente, reorganizando continuamente o visível.
Essa dinâmica se explicita de modo exemplar na série Los cabalitos, na qual Lilian Camelli toma o carrossel como motivo recorrente e o submete a um processo sistemático de redução e deslocamento. Formalmente, trata‑se de imagens em que a estrutura circular do brinquedo se impõe como eixo compositivo, mas sempre desprovida de qualquer presença humana. As tonalidades são deliberadamente esmaecidas, próximas de uma paleta envelhecida, que reforça a sensação de suspensão temporal. Ao longo da série, a artista opera uma supressão progressiva dos elementos constitutivos do carrossel: primeiro, os cavalos perdem protagonismo; depois, começam a desaparecer; até que reste apenas o espaço redondo, vazio, onde antes giravam. Em um desdobramento radical, surgem pequenas telas em que o motivo é completamente abstraído, e o que subsiste são apenas elementos geometrizados – fragmentos formais que condensam o ritmo circular e a ideia de repetição, reduzindo o carrossel a um vocabulário mínimo de formas e relações espaciais.
Essa economia formal, no entanto, não corresponde a um esvaziamento expressivo, mas a uma intensificação do sentido. Ao eliminar progressivamente os cavalos – figuras tradicionalmente associadas à infância, ao movimento e à fantasia – Lilian desloca o carrossel de seu lugar simbólico mais imediato e o transforma em imagem de ausência. O giro permanece, mas sem corpo; o espaço insiste, mas desabitado. A abstração, nesse contexto, não surge como ruptura com a memória, mas como sua forma mais extrema: quando a lembrança já não consegue sustentar imagens reconhecíveis, restam apenas estruturas, ritmos e esquemas afetivos. A intuição conduz a redução formal, e a geometrização funciona como uma espécie de destilação da experiência, na qual o brinquedo deixa de ser objeto para se tornar vestígio. Los cabalitos evidencia-se assim como exemplo marcante de que na obra de Lilian Camelli a pintura avança justamente quando aceita perder aquilo que parecia essencial, encontrando na subtração uma via precisa para tornar visível a persistência silenciosa da memória.
Nesse ponto, uma dimensão biográfica adquire relevância conceitual. A experiência de deslocamento cultural da artista, marcada por uma formação paraguaia em diálogo prolongado com o Brasil, encontra na sua obra um correlato formal preciso. As telas parecem partilhar da mesma condição de pertencimento instável: não se fixam plenamente em um lugar, mas tampouco se dissolvem na indeterminação. Há nelas uma firmeza paradoxal, construída a partir da aceitação do desencaixe como condição existencial e estética.

Lilian Camelli, Fragmento 170 – Caballito, 2025
No conjunto, a exposição revela uma obra que se sustenta pela economia de meios e pela imprecisão das decisões pictóricas. Nada parece excessivo ou arbitrário; cada desorientação espacial é contrabalançada por um esforço de recomposição visual que mantém a pintura em estado de tensão produtiva. Essa ambivalência – entre o lírico e o inquietante, entre a ordem e o colapso – é o que confere às obras de Lilian Camelli sua força duradoura. Ao desafiar a saudade, a incompletude e a impossibilidade de um lugar plenamente certo, a artista constrói imagens capazes de acolher, com generosidade e rigor, a complexidade da experiência humana.


