Kazimir Malevich Painterly Realism of a Boy with a Knapsack - Color Masses in the Fourth Dimension 1915

Imagens e imaginação

Nas imagens e na imaginação, o que está em jogo é uma abertura para o inaudito

POR ARTUR DE VARGAS GIORGI

No campo das artes e da estética, a noção de imagem é provavelmente uma das mais complexas, remetendo a uma longa história repleta de nuances e divergências. No mundo ocidental, sua definição envolve, desde os tempos antigos, discussões sobre a política e a filosofia, a história e a religião, a realidade e a ficção, a verdade e a mentira, a vida e a morte, a matéria e o imaterial etc. Seja como for, é em torno das imagens, ou melhor, por meio delas, com elas, que manifestamos, ao longo dos séculos, toda a plasticidade de nossa potência fabuladora, aqui designada por imaginação.

Poderíamos dizer que a imaginação é, num sentido muito elementar, o exercício de ativação de uma virtualidade: uma forma de elaboração, de síntese de imagens. A imaginação projeta existências, formas, espaços, acontecimentos que, a rigor, são irredutíveis ao que é palpável. E isso, ao que parece, é inseparável da vida humana e sua potência. A própria linguagem, que nos estrutura como sujeitos, assim funciona: por meio de palavras, ou seja, por uma articulação entre som e sentido – uma relação não dada a priori, aliás, e diante da qual se abisma a origem de nossa condição de falantes – fazemos referência a fenômenos intangíveis ou fantasiosos, mas que concebemos, pensamos, apreendemos, em suma, através das palavras.

O que é imaginado possui, assim, características muito peculiares: não está inteiramente presente no mundo, nem totalmente ausente; sendo uma imagem (por exemplo: uma fotografia, um desenho, uma pintura), ao mesmo tempo está bem ali – e não está. (Assim como a fantasia, a noção de fantasma também se articula com a imagem e a imaginação). Imagem e imaginação enlaçam, portanto, um dos aspectos mais importantes da vida humana: a capacidade poética de desvelar o ser, de experimentar sentidos, isto é, de criar. Imaginar – ou ainda: vir a ser com as imagens – é dessa maneira uma atividade ordinária, dada a todos, inclusive em sonhos, mas sem a qual o extraordinário, o transformador, o revolucionário não pode vir a acontecer.

Eis o que eu gostaria de enfatizar com essas considerações: com as imagens e a imaginação, o que deveria ocorrer é, sobretudo, uma abertura para o inaudito. As imagens deveriam ter lugar, em sua plenitude, digamos assim, ali onde o impossível parece se mostrar, ao menos por um instante, possível. Daí que, nas artes ocidentais, e notadamente com os modernismos, a ideia do “novo” tenha tido tanto apelo: grosso modo, o “novo” era o sinal de que um caminho estava sendo aberto, logo à frente; de que um “mais além”, diverso do já conhecido e acomodado ao gosto comum, mostrava-se acessível; de que a imaginação poderia nos conduzir a um outro mundo, uma outra sociedade, uma outra forma de vida etc. O “novo” era, em uma palavra, sinal de vanguarda.

A fatalidade da história dos modernismos, seguindo esse raciocínio – que é mesmo um argumento muito corrente entre críticos e artistas –, foi eles terem se tornado, de fato, história. Em outros termos: a fatalidade foi a imaginação da ruptura ter sido arranjada numa sucessão de eventos algo coerentes e enfim condizentes com a ordem do mundo; foi as imagens condutoras da transformação ou da revolução terem sido assimiladas, convertidas em valor e institucionalizadas; foi, em resumo, a imaginação e as imagens mais radicais terem sido adequadas a um imaginário apaziguador, com o qual forças disruptivas se tornaram formas de identificação a movimentos, períodos, ideologias etc.

Para um único exemplo, que aqui retomo de Susan Buck-Morss (Mundo de sonho e catástrofe, EdUFSC, 2018), poderíamos lembrar o percurso dos quadrados de Malévitch, desde a sua concepção desveladora de um outro tempo-espaço espiritual, de uma outra sensibilidade coletiva, no convulsionado contexto europeu da década de 1910, até a estratégica aquisição feita por Alfred Baar, colecionador que nos anos 1930 comprou diversas obras do artista para o acervo do Museu de Arte Moderna de Nova Iorque (MoMA). E poderíamos lembrar, principalmente, o saldo mais evidente dessa trajetória: a imagem dos quadrados foi incorporada ao cânone do modernismo e à “alta cultura” estadunidense como um dos pontos culminantes da autonomia da arte, condição que teria sido conquistada, justamente, pelas formas “puras” da abstração reunidas e organizadas no Museu de acordo com uma narrativa ascendente. Disponível para ser citado infinitamente, como uma fórmula/clichê/cifra da vanguarda, o incontornável quadrado reapareceria então inúmeras vezes, em releituras de diversos artistas, com rendimentos variáveis, mas já desprovido da utópica imaginação que ele mobilizava no contexto da agitação revolucionária da Rússia.

Sem dúvida, isso não significa simplesmente que, nos museus, as imagens e a imaginação estejam inertes, sem mais vida ou efeito. Afinal – e apesar da violência que permeia os processos de acúmulo da cultura (pensemos nas guerras e pilhagens que foram cruciais para a constituição dos acervos de muitos museus nacionais que são referência global) –, tais instituições são também arquivos privilegiados e de sentido praticamente inesgotável, isto é, são espaços de preservação, mas igualmente campos de disputa e tensão, onde a memória histórica e a diferença podem ser recolocadas em jogo e comparadas, uma e outra vez, para o bem ou para o mal, com as imagens e a imaginação do presente.

Para não me alongar, friso meu ponto: no momento em que a experiência do presente – o contemporâneo – parece se atomizar e estender indefinidamente, diante da falta de horizontes alternativos e de um futuro que se mostra palpavelmente catastrófico, que imagens poderão conduzir nosso devir em comum? Quando a síntese de imagens passa a ser o resultado da combinação de dados digitais (ou seja, do já dado), que lugar terá a imaginação coletiva, como exercício de fabulação do inaudito? Quando as imagens-dado, sempre as mesmas, são replicadas infinitamente, sendo a forma mais corrente de mercadoria do capitalismo global, como imaginar um outro vir a ser igualitário e realmente inclusivo, fora dessa condição? Aí está o desafio, creio eu. O presente contexto é de exaustão, certamente, e uma vida em comum fora do capitalismo ainda aparece como uma espécie de delírio, de ilusão, de fantasia – de impossibilidade. Mas não podemos esquecer: através das imagens e da imaginação se dá a passagem do não-ser ao ser, assim como do impossível ao possível.

Artur de Vargas Giorgi é Professor de Teoria Literária
da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).
Bolsista de Produtividade em Pesquisa do Conselho Nacional
de Desenvolvimento Científico e Tecnológico – CNPq
As matérias assinadas são de responsabilidade de seus autores e não representam a opinião da Dasartes.
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