POR CARMEN FERREIRA DE TERENZIO
Este texto foi escrito durante minha participação no Art Writing Incubator 2025, programa da Burnaway, revista independente que cobre arte e crítica do Sul dos Estados Unidos e do Caribe
“É preciso sair da ilha para ver a ilha, não nos vemos se não saímos de nós” –
José Saramago, O Conto da Ilha Desconhecida, citado por Fernanda Froes.¹
Por que se sabe tão pouco sobre a arte contemporânea brasileira em Miami, uma cidade moldada por diásporas e definida pela troca cultural? Nascida no Brasil, vivo aqui há mais de duas décadas, navegando entre idiomas e atravessando espaços onde o sentido se constrói lentamente, entre culturas.
Foi a frase da atriz Fernanda Torres que me ofereceu uma pista: “O Brasil é uma ilha continental: sabemos muito sobre o mundo, e o mundo sabe pouco sobre nós.”² Ao perceber como a presença brasileira já se desenha por aqui, três artistas que hoje vivem em Miami—Susanne Schirato, Fernanda Froes e Liene Bosquê—respondem a essa questão através de seus trabalhos. Suas práticas são enraizadas na pesquisa, no lugar e no material. Não apresentam o Brasil como uma identidade fixa, mas permitem que ele se revele através do processo, da memória e da forma.

Susanne Schirato, Uma Travessia de 1472 m, 2020
O trabalho de Susanne Schirato começa debaixo d’água, no silêncio de cavernas submersas. Mergulhadora e pesquisadora, ela participou de expedições pelo Brasil, Ártico e Antártida, traduzindo essas experiências em obras visuais marcadas pela intensidade física, pelo risco e pela escala temporal do mundo natural. Sua arte incorpora instrumentos e métodos científicos, transformando-os em formas que revelam a fragilidade ecológica e a inércia humana.
Quando se mudou para Miami, há três anos, ela temia se desconectar dos ambientes que definiram sua prática. Em vez disso, a linha costeira da cidade, seus espaços verdes e sua vida cultural ofereceram novo fôlego. “Miami trouxe oxigênio para o meu trabalho”, observa. Pigmentos locais, novas paletas e interações comunitárias passaram a fazer parte do seu processo, entrelaçando sua sensibilidade brasileira à paisagem da Flórida.
Ela compara a diversidade de Miami a uma floresta tropical, onde a convivência entre espécies forma um ecossistema. O que Schirato oferece à cidade não é um material específico, mas uma perspectiva: um modo de pensar moldado pela mistura brasileira entre ciência, espiritualidade e respeito ecológico. Enraizada em paisagens submersas, sua prática convida a uma nova relação com o mundo natural—acima e abaixo da superfície.

Fernanda Froes, Incontáveis II, 2023
Quando a artista visual Fernanda Froes se mudou para Miami, oito anos atrás, a distância do Brasil a levou a pesquisar a história e a botânica do país, até começar a trabalhar com o pigmento extraído do pau-brasil. Ao falar sobre essa madeira, Froes não se refere apenas a uma cor, ela evoca a árvore que deu nome ao país, redefiniu o comércio colonial e quase foi extinta. Sua prática, fundamentada no desenho, na arte têxtil e na gravura, traça os vínculos entre ecologia, história e identidade. Em vez de recriar o Brasil, ela passou a trabalhar a partir dele, usando seus materiais e histórias como base para o diálogo. Os pigmentos botânicos com os quais trabalha, como pau-brasil, índigo, mangue, carregam cor e memória cultural.
“De certa forma, todos somos transplantados”, diz Froes. “Carregamos nossas histórias, memórias e raízes.” Seu foco recente na Rhizophora mangle, espécie de mangue nativa do Brasil, do sul da Flórida e do Caribe, reflete isso. O pigmento que extrai das folhas torna-se uma maneira de conectar geografias. A obra começa de forma local e se expande como o mangue—adaptável, enraizado e discretamente persistente.

Liene Bosquê, Before Miami Preservation League I e II, 2023
Para Liene Bosquê, o lugar nunca é apenas um pano de fundo. Suas esculturas, instalações e projetos participativos exploram como o corpo se relaciona com a arquitetura. Elas revelam como os espaços são moldados pelas pessoas e, ao mesmo tempo, moldam suas experiências. Sua prática é tátil e às vezes coletiva, usando impressões de argila, fragmentos arquitetônicos e redes de dormir como recipientes de memória, presença e cuidado.
Bosquê deixou o Brasil em 2005 e, ao longo dos anos seguintes, viveu em Chicago e Nova Iorque. Foi apenas em 2019, já em Miami, que sua perspectiva começou a se transformar: naquele ano, ela apresentou Collecting Impressions, um projeto de caminhada no centro da cidade. Nele, os participantes registraram a arquitetura em transformação de Miami ao fazer moldes em argila das superfícies urbanas. “Em vez de apenas observar, eu estava criando vínculos”, ela conta. Miami deixava de ser um pano de fundo e passava a fazer parte da obra.
Durante seu período de estudos em Chicago, ela teve dificuldade para expressar em inglês a carga emocional do português. Dessa lacuna nasceu Hamacas, projeto em que imigrantes co-teciam redes de dormir enquanto compartilhavam histórias, gestos e presenças. Em Miami, a proximidade entre o português e o espanhol criou uma textura híbrida. O que se perde na tradução pode ser recuperado na ressonância.
O que une essas artistas não é uma identidade fixa ou uma estética comum, mas um compromisso com o lugar onde moram e com a forma como ele é habitado, cuidado e escutado ao longo do tempo. Cada uma propõe um modo mais atento de se relacionar com o mundo, seja através do pigmento, da pressão ou da memória arquitetônica.
Resisto aos rótulos—arte brasileira—mas vejo valor em ser identificada. Ser descoberta é ser convidada a uma conversa, não para ser traduzida ou definida, mas para ser percebida com atenção e abertura. Esses gestos não são prescrições, mas propostas; são modos de perceber, fazer e habitar que nos convidam a uma relação mais atenta com o lugar onde moramos.
¹ José Saramago, O Conto da Ilha Desconhecida, (Companhia das Letras, 1998).
² Trecho da entrevista de Fernanda Torres com o jornalista Rodrigo Ortega publicada no site oficial da atriz @oficialfernandatorres, retirado da conta do Instagram @viladospoetas, publicada em 19 de dezembro de 2024.





