Sartre. Foto: Cecil Beaton.

Em Busca do Self: o Mundo (da Arte) Precisa se Recuperar do Existencialismo

O caminho para a libertação humana sempre foi o conflito. Seja ele direto, físico, ou então simbólico, verbal: se existe dominação entre duas pessoas, raros são os casos em que ela é quebrada por conscientização espontânea do dominador, do “Senhor”; é preciso que o “Escravo” se rebele e reivindique seus direitos, num processo de questionamento e negação do outro. Foi o que inúmeros artistas fizeram nos últimos séculos, como os nossos modernistas. Enfrentando a sociedade burguesa, carola, bem como inúmeros ditames estéticos em voga, eles travaram o confronto, empregando várias estratégias: diálogos, manifestos, conferências, exposições, pilhérias, protestos etc. No momento, não nos interessa analisar em detalhe tais variantes, mas salientar o denominador comum de todos esses “fronts” rumo à liberdade: a antítese, a capacidade de negação.

POR MATHEUS CENACHI

Acredite, vivemos tempos de glória. Constantemente a arte contemporânea mostra que a crítica, o questionamento e o rompimento de valores infundados deixaram de ser prerrogativa exclusiva dos movimentos de vanguarda. Hoje, a liberdade compõe o modus operandi de parte significante da classe artística, das artes dramáticas à literatura, pintura e cinema. Embora atraente, essa é a aparência das coisas, a qual encobre um profundo paradoxo.

O caminho para a libertação humana sempre foi o conflito. Seja ele direto, físico, ou então simbólico, verbal: se existe dominação entre duas pessoas, raros são os casos em que ela é quebrada por conscientização espontânea do dominador, do “Senhor”; é preciso que o “Escravo” se rebele e reivindique seus direitos, num processo de questionamento e negação do outro. Foi o que inúmeros artistas fizeram nos últimos séculos, como os nossos modernistas. Enfrentando a sociedade burguesa, carola, bem como inúmeros ditames estéticos em voga, eles travaram o confronto, empregando várias estratégias: diálogos, manifestos, conferências, exposições, pilhérias, protestos etc. No momento, não nos interessa analisar em detalhe tais variantes, mas salientar o denominador comum de todos esses “fronts” rumo à liberdade: a antítese, a capacidade de negação.

A antítese, portanto, é essencial ao desenvolvimento do ser humano, pois é peça essencial da dialética da vida, do raciocínio e do mundo concreto. O grande problema aparece quando, por algum motivo, conseguimos nos desvencilhar do que nos dominava, porém, ao invés de desfrutar finalmente da nova condição – no nosso caso, a liberdade na arte –, permanecemos apegamos ao comportamento de negação.

Créditos: Olga Karlovac.

Isso é muito comum em movimentações políticas, por exemplo. O que frequentemente inflama os coletivos não é a vontade de alcançar uma condição social melhor ao povo, mas o puro desejo heroico de “combater o inimigo”, isto é, confrontar uma figura pública maligna, uma lei a ser aprovada etc. Assim que a ameaça é neutralizada ou superada, no entanto, o que se faz é buscar ansiosa e mecanicamente outro mal a ser combatido. Porque o que mais importa, surpreendentemente, é pelear, não edificar uma realidade igualitária.

Ao meu ver, isso ocorreu também com a arte. Muitas gerações lutaram para que, hoje, pudéssemos criar o que quiséssemos. Ao invés de gozarmos dessa possibilidade, o que fazemos volta e meia é reproduzir o comportamento antitético. Disso se segue que, embora a aparência diga o oposto, uma série de normas de outrora que constrangem o fazer artístico foi substituída por outra regra ou valor: o princípio de negação, o qual é seguido religiosamente. Eis o paradoxo da época: alforriada, a arte ela mesma se encarcera, convicta de que esse é um gesto libertário.

*

Evidentemente, minhas considerações não são universais. Não estou dizendo que toda a arte realizada no presente é “negadora”. É essencial evitar pronunciamentos gerais desse tipo para manter a reflexão legítima, sobretudo quando direcionada a um mundo tão complexo e em movimento. O diagnóstico examinado se refere a um espírito que norteia os indivíduos, uma tendência comportamental – a qual, inclusive, vai além do campo estrito da arte –; um componente do zeitgeist. Muitas obras originais estão sendo feitas neste exato momento, mas o espírito negador é claramente um valor pervasivo da atualidade.

Aquilo de que o negador mais tem medo é perder a liberdade. Por isso ele trata de, incansavelmente, negar tudo o que encontra ao seu redor: um costume, uma forma de viver, uma ideia, um valor. O artista se transforma, assim, numa máquina de questionamento, às vezes sem nem mesmo entender o que está desafiando e com que fim: interessa que a performance seja irreverente para com o mundo e para consigo mesmo. Ele acredita, erroneamente, que isso é ser livre, afinal, operando desse jeito ele estaria desconstruindo constantemente aquilo que eventualmente poderia defini-lo e “cercear” sua liberdade. Aqui, apego a qualquer coisa é visto como um problema.

Consideremos, a título de exemplo, como duas questões da maior relevância para a arte são recebidas recorrentemente nos circuitos mais variados. São elas: “Qual é o papel do artista no mundo?” e “O que é arte?”.

Não é raro ouvir muitos artistas e acadêmicos da arte dizerem o seguinte: “Essas questões são uma completa perda de tempo. Tudo pode ser arte e o artista não tem papel definido”. Além disso, por vezes tais assertivas são acompanhadas de irritação, impaciência e deboche; tons de fala relevantes, pois delatam a identidade do falante[1].

O que é decisivo perceber é que em todas as respostas há incômodo. Eis o ponto: uma pessoa poderia não ver qualquer valor nessas questões filosóficas, mas de reagir de maneira neutra, impassível, no entanto isso não é o caso, pois, como dissemos, o negador se sente ameaçado por assuntos assim: ele acredita ser mais seguro resguardar um conceito panfletário, vazio de arte, “nadificado”, a se propor uma reflexão original, própria, livre, sobre a mesma, porque, em sua mente, qualquer proposta, qualquer afirmação é sinal de restrição, delimitação; em suma, perda de liberdade.

Naturalmente, ele despreza o fato de que a linguagem e o pensamento são polifônicos: elaborar um conceito não quer dizer que ele possui um campo de significação estreito, pobre ou fruto de coerção.

Dessa forma, podemos perceber que o erro rude do espírito negador é reduzir o exercício da liberdade à negação, o que acarreta em artes que podem expressar tudo, menos o artista ele mesmo, sua subjetividade: isso é sinal de fraqueza, uma “atitude limitante”.

*

Recentemente, tivemos no cinema uma representação do funcionamento do espírito negador. Abordá-la rapidamente será útil para compreendermos como ele se dá no mundo.

O brilhante esforço de Donnersmarck em “Nunca Deixe de Lembrar”, obra baseada na história real de Gerhard Richter, é refletir sobre questões fundamentais concernentes à arte, como as que mencionamos. O filme explora a formação intelectual, pessoal e artística de Kurt Barnert, um jovem pintor da Alemanha Oriental. Em dado momento, entre crises intermitentes sobre o seu métier, o protagonista é apresentado às inovadoras vanguardas europeias. Encantado, o jovem se “filia” a essas estéticas, convencido de ter encontrado a solução para as suas angústias. Entretanto, Kurt rapidamente descobre, com o auxílio de seu professor, que em nenhuma dessas obras havia ele mesmo. O que existia, no máximo, era um artista “criando” – ou reproduzindo – a partir de princípios artísticos alheios. Seu procedimento artístico baseava-se somente em localizar uma ideia qualquer e questioná-la, sem grandes reflexões. Ou seja, Kurt tornou-se um “negador”.

Cena do filme “Nunca Deixe de Lembrar” do diretor Florian Donnersmack.

Não é necessário assistir ao filme para visualizar a prática do espírito negador, embora a análise de Donnersmarck seja exemplar. É o bastante acompanhar o que é produzido em todo o mundo, da off-broadway à Globo. Trata-se de um produto recorrente que visa cumprir três supostos objetivos: impacto, “rompimento” e “descoberta”.

Primeiro, apresenta-se algo aparentemente sem sentido, insólito, grotesco ou misterioso, segundo, dramatiza-se a situação anterior, na tentativa de lhe atribuir relevância e torná-la o mais chamativa possível, terceiro, revela-se o seu suposto significado arrebatador, entregando ao público um conhecimento inimaginado.

Evidentemente, não estou criticando o exercício de manipular a expectativa do espectador. Os modelos narrativos aristotélicos, por exemplo, são eficientes porque capturaram a base fenomenológica da nossa experiência estética. Amamos “peripécias” e “reconhecimentos”[2]. O problema está no uso superficial de estruturas artísticas elementares para “vender” ao público autenticidade, inovação e profundidade, enquanto que o que se entrega é algo… mais barato, porque muitas vezes industrializado ou só superficial.

O desiderato pulsante do negador é provocar no público, custe o que custar, reações como: “Nossa, que coisa bizarra! O que ele quis dizer?”. Em contrapartida, ele entrega uma resposta inequívoca e de forma imediata. Encontramos isso em Picasso, Francis Bacon, Maya Deren, Fagundes Telles ou Tarkovsky? Seguramente, não. Esses artistas, todos engajados de formas diferentes com o mundo, compreenderam a natureza complexa da realidade e, consequentemente, a necessidade de suas expressões artísticas serem assim também: suas obras não têm apenas um sentido. São diferentes texturas semânticas sobrepostas que buscam alocar o espectador em seu precioso lugar originário: cocriador. Aqui, ele não é chocado ou seduzido por luzes de neon e aguarda, passivamente, o significado da pirotecnia. Artistas que têm o que dizer não precisam enganar a plateia: as suas análises são, não parecem, densas, e o espectador precisa se debruçar sozinho sobre o que presenciou e refletir, elaborar hipóteses e desembrulhar, lentamente, os múltiplos presentes que o artista autêntico criou.

Francis Bacon, 1930.

Claro que não posso cometer a ingenuidade de acreditar na soberania irrestrita do autor: a arte que fazemos é sempre parcialmente refém da audiência; fazer arte é estar em relação dialética com o outro. E é fato infeliz que a cultura, massificada, nem sempre anda bem, sobretudo em países que foram devastados por políticas totalitárias. Isso dificulta a criação de obras de maior fôlego, porque a plateia nem sempre acompanha os movimentos de pensamento do autor. Porém, dependemos e constituímos o mundo. Portanto, se a qualidade da arte é nivelada por baixo, se o grande público aprecia obras questionáveis, a responsabilidade, enquanto produtores, é nossa.

Portanto, ao tratar muitas vezes a arte não como veículo de expressão de si, mas instrumento de “entretenimento cult” que choca o espectador, a contemporaneidade cristaliza a inversão da “direção de ajuste” essencial da arte.

Direção de ajuste[3] é um conceito filosófico que designa a relação normativa entre dois termos conjugados. Considerando o exemplo típico, isto é, a relação epistemológica entre mente e mundo, a direção de ajuste é mente-mundo, pois é a mente humana que deve se ajustar ao mundo. Como assevera o dito do romance policial, é a teoria que precisa se moldar aos fatos, não os fatos distorcidos para se encaixarem nas teorias. Ora, é crucial que a direção de ajuste da arte seja público-arte, sob pena de perder o que sempre nos orgulhamos de ser: livres.

Na prática isso quer dizer que um poeta influenciado por Fernando Pessoa deve escrever como deseja, ou seja, produzir poesias longas, cheias de narrativa, mesmo que o público não tenha interesse em ler um simples soneto. A bravura, a real liberdade artística está aí: naqueles que se interessam por si mesmos e levam a cabo os seus projetos, independente do clamor alheio e da própria classe artística, negadora. É dever do artista autêntico se comunicar com o mundo, mas não deixar se tornar escravo das paixões randômicas de uma audiência que não foi incitada a vislumbrar tudo o que a arte pode ser. Nós precisamos incitá-la.

Está claro que a pretensa liberdade do negador é cerceada simultaneamente pelo seu próprio princípio estético adotado e pela fidelidade ao público. Agora, é momento de compreender, finalmente, o título deste ensaio.

*

O dia 29 de outubro de 1945 é um marco da nossa história recente, porque especialmente a partir disso ficou claro como parte da cultura ocidental do pós-guerra provavelmente iria se construir. Nesse dia, Jean-Paul Sartre promoveu a maior conferência de sua carreira, “O Existencialismo é um Humanismo”. O objetivo era defender o existencialismo de toda sorte de críticas que ele vinha sofrendo. O que fica claro em toda a comunicação não é somente Sartre confrontando posições divergentes, rebatendo argumentos com argumentos melhores. Na verdade, é visível a energia mobilizada de Sartre para explicar o que o existencialismo é, pois a maioria dos críticos não tinham o compreendido. Nem os críticos, nem os defensores, nem os futuros estudiosos do existencialismo compreenderiam, ao cabo, a sua proposta integralmente.

Daí a necessidade de se recuperar do existencialismo. Não no sentido de deixá-lo para trás, mas no de compreender a essência desse fenômeno cultural de peso na formação do mundo tal como conhecemos. É preciso saber como ser livre. E o “neo-existencialismo” é um dos caminhos disponíveis em direção à libertação das artes.

Tal empreitada começa ao dissolver uma consideração incorreta sobre o existencialismo francês, a qual recebeu atenção, inclusive, na conferência mencionada, mas é solapada de forma mais categórica em “Por uma Moral da Ambiguidade”, de Simone de Beauvoir. A acusação em questão é de que o existencialismo seria uma filosofia da arbitrariedade e do desespero. Até hoje essa conclusão é erroneamente extraída de uma tese básica do existencialismo, a qual é endossada por outras perspectivas filosóficas, científicas e populares, a saber, o mundo ser pura contingência, despido de valores; nada é necessário e o ser humano, nesse viés, é livre. Se, portanto, os valores não existem objetivamente, mas são inventados, forjados pelo humano, então ele é amaldiçoado, pois não pode contar com nenhuma bússola sólida para dizer como agir e viver a vida.

Pensando nesse vazio da liberdade, Sartre conceitua a humanidade metaforicamente como nada. O mundo material inanimado, o ser[4], é definido, finalizado e inerte. Já nós sempre podemos transcender o que nos cerca, seja uma condição material ou um modo de pensar com o qual nos habituamos. A liberdade reside, inicialmente, nisso: na capacidade de ir além, superar ou negar o que quer que seja.

Sartre. Foto: Cecil Beaton.

Um componente da nossa existência é a capacidade de transcender. Outro é a angústia. Já que o ser humano é dotado de emoções e desejos, não ser “nada” constantemente pode ser aterrador[5]. Consequentemente, é impulso natural da consciência tentar ser alguma coisa, assumir um papel. Porém, em última instância isso é impossível, pois jamais deixaremos de ser livres. Eis um dos temas centrais de Camus em “O Mito de Sísifo” e a ambiguidade existencial da qual Simone fala.

Não está ao nosso alcance se transformar 100% em objeto, algo sem consciência. A capacidade de negação é um atributo inescapável, daí a ideia de que somos condenados a ser livres. Mas, Simone sugere: e se, utilizando tal atributo, negássemos a condição de negação?

Bingo. Quando os existencialistas falam do projeto existencial, eles estão falando da rejeição da inação, do desespero e do nada. Elaborar um projeto de vida é assumir a responsabilidade de criador da própria história: é ser personagem e autor ao mesmo tempo de uma narrativa construída a cada segundo. O existencialismo, então, é uma filosofia da ação, pois compreende a ambiguidade da condição humana, ao mesmo tempo que percebe que ela pode ser superada. Não somos nada de partida, mas podemos, se quisermos, ser alguma coisa e assim agirmos diariamente conforme o projeto. Assim, é um erro rude compreender a liberdade como atividade exclusivamente negativa ou destrutiva: ela constrói identidade, ações, valores e o mundo.

Essa é a ideia que a arte não assimilou corretamente.

*

Após esse sobrevoo sobre o existencialismo, podemos concluir que o espírito negador assimilou incorretamente que ser livre é se manter indefinido, sucumbir à ambiguidade e agir arbitrariamente. Ele, porém, tenta se defender, alegando que sua visão de mundo e sua arte são centralizadas na experimentação. A ideia de fundo é que a forma mais livre de erigir identidade é a testagem, o experimento.

Por um lado, precisamos dizer que essas obras nem sempre são tão experimentais quanto parecem. A performance batida de um pintor que cobre o corpo de tinta não me parece uma experiência, pois há ao menos uma noção clara do efeito produzido por essa performance. Noutras palavras, ao contrário do trabalho de Marina Abramović, muitas são as obras que não soam muito com um laboratório, já que em experimentos o resultado costuma ser bem mais imprevisível.

Ademais, é evidente que o acaso é um fator importante da identidade humana e das nossas obras. Krzysztof Kiéslowski mostra isso magistralmente em “Sorte Cega”: o filme inteiro é pensado como raciocínios contrafactuais. Disso não segue, entretanto, que a identidade é definida majoritariamente pela sorte.

Entre o escritor arbitrário, que a cada dia, despropositadamente, escreve algo só porque é diferente ou estranho, e o escritor que devora todos os autores disponíveis, dos clássicos aos contemporâneos, me parece muito claro que o segundo é o que está mais apto a desenvolver seu próprio estilo de forma consistente, madura e satisfatória.

A identidade, artística ou pessoal, é criada por meio de experiências, reflexões, deliberações, determinação de objetivos e valores, logo, a partir de uma habilidade de orquestração. Sem a orquestração, é claro que obtemos alguma identidade, todavia, menos livre e intencional. O artista, portanto, que pauta sua arte em ações aleatórias e episódicas, como o pintor mencionado, pode, sem dúvida, criar obras de qualidade e originais. A questão é se ele está efetivamente sendo livre e construindo o seu ser da maneira mais profunda possível.

Avaliar e fazer arte é algo que exige o desenvolvimento do gosto estético, o que acontece, como Woolf tão bem sublinhou em “Como Ler um Livro”, pela degustação de diversas obras. A tese elementar da autora é que sem a degustação comparativa, não há condição de executar o juízo estético. E é fato que o negador frequentemente rejeita essa necessidade. As últimas 5 peças de teatros às quais assisti em universidades tinham a exata mesma estética “pós-moderna”: as encenações eram exageradas, as metáforas rasas e visualmente apelativas. Uma delas tratava de extremismo político, violência e exploração animal; a referência a Orwell era estupidamente clara. Terminada a peça, fui conversar com os atores e o diretor, perguntando como foi o processo de estudo do autor. Ninguém havia lido Orwell. Tampouco tinham interesse em ler.

Se liberdade é arbitrariedade, um “experimento de identidade” mais competente seria o jogo de RPG, no qual se rola um dado para determinar características do personagem.

*

Enquanto escritor, dramaturgo e roteirista, o meu objetivo neste ensaio foi fazer algo fundamental: análise e autocrítica. Não uma investigação distanciada, porque me interesso pelo rumo que nós, artistas, estamos dando às coisas.

Muitas ideias defendidas aqui são triviais, mas importantes, na minha leitura. Foi-se o tempo do perigo de Todorov: todas as 7 artes vivem em cativeiro. A retomada do existencialismo me parece decisiva, na medida em que somos herdeiros de uma liberdade que não aprendemos a usar. Porém, o resgate do existencialismo não é suficiente para a reversão do problema. Além de engajamento, o artista e o mundo precisam adquirir o que Antônio Abujamra tanto defendeu em “Provocações”: o estofo. Sem estofo, o conhecimento da história, da arte, tudo fica mais difícil.

Qual é o papel do artista? Libertar a arte e abraçar a sua responsabilidade moral, essa é a minha aposta, o que inclui, em tempos difíceis de pós-verdade – outro sintoma do espírito navegador –, incorporar a sua arte a didática cultural: levar a cultura, seja como for, às pessoas distantes dela. Esse é o caminho para a reconstrução da subjetividade. Isso é humanismo.

Matheus Cenachi é formado em Filosofia pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS), é professor, ensaísta, dramaturgo, poeta, roteirista e fotógrafo artístico.

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