Harmonia Rosales, Eve & The Orishas, 2023. Foto: harmoniarosales.art

Como duas mulheres trouxeram o Renascimento e o Barroco para o século 21

Luzia Simons e Harmonia Rosales reativam o estilo clássico ao atualizar tradição, técnica e representação no contemporâneo

Por Flávio Rocha de Deus

A tradição pictórica europeia dos séculos 16 e 17, do Renascimento ao Barroco, construiu o que se convencionou chamar e perceber como estilo clássico. O renascimento erigiu a ideia de harmonia, proporção, centralidade e universalidade do ser humano; enquanto o barroco se construiu como uma gramática do excesso, marcado pelo contraste, drama e riqueza de detalhes. De toda forma, como bem nos comunicou o teórico alemão Aby Warburg, as imagens não desaparecem do fluxo da história, elas sobrevivem como forças latentes, reaparecendo em novos contextos históricos com intensidades renovadas.

Na arte contemporânea, como bem sabemos, essa tradição e suas características não desapareceram, mas permanecem sob novas tensões. Neste escopo, duas mulheres artistas, Luzia Simons e Harmonia Rosales, reinventaram, cada uma a seu modo (uma pela técnica e outra pelo conteúdo), novas formas de produção de arte visual nestes estilos clássicos.

Luzia Simons (1957-) é uma artista brasileira natural de Quixadá, no Ceará, e baseada em Berlim que se consolidou nos circuitos de arte pelo seu exímio trabalho com flores escaneadas em alta definição. Seu procedimento troca a técnica pictórica tradicional pela máquina de scanner, que produz imagens monumentais e hiper detalhadas. Percebe-se aqui a sua atualização do clássico: o estilo e conteúdo reproduzem aspectos comuns do imaginário Barroco, no entanto, a técnica é completamente distinta.

A monumentalização da natureza, o fundo escuro, a dramaticidade cromática, o excesso ornamental, a tensão entre esplendor, e a fragilidade de suas modelos selecionadas, remetem à tradição das naturezas-mortas do século 17, onde a flor ao mesmo tempo que simboliza abundância e potência de vida também anuncia decomposição, como podemos ver nas flores de pintores flamengos como Jan Brueghel, Ambrosius Bosschaert e Daniel Seghers.

Luzia Simons, Stockage 185, 2019, 70 x 50 cm. Foto: AM Galeria.

O fato de, em 2016, ter realizado uma exposição no Museu Archives Nationales, em Paris, sob o título “Stockage – Vanitas Rerum”, reafirma tal intuição. O termo vanitas designa um gênero específico da pintura barroca, especialmente desenvolvido nos Países Baixos entre os séculos 16 e 17, como desdobramento das naturezas-mortas. Trata-se de uma forma de memento mori: uma alegoria visual que recorda ao espectador a transitoriedade da vida, a fugacidade dos prazeres, a inutilidade da ambição e a certeza incontornável da morte.

De igual forma, a atualização da técnica não altera apenas o modo de produzir a imagem, mas também altera o próprio regime de percepção dela. A reprografia, ao substituir o pincel pelo scanner, introduz uma lógica óptica distinta em que a flor, ao ser capturada por contato direto com a superfície de leitura gera uma nitidez extrema e uma definição que revela nervuras, transparências, microfissuras e gradações cromáticas imperceptíveis a olho nu e que talvez seriam impossíveis de se reproduzir pela pintura convencional.

A profundidade construída com variação mínima de foco cria uma sensação ambígua entre bidimensionalidade e relevo. Além disso, o fundo frequentemente neutro ou negro elimina o contexto espacial, isolando a flor como pura presença luminosa, quase suspensa no vazio. Dessa forma, a técnica do scanner não apenas documenta a flor, mas a configura como experiência óptica intensificada.

Luzia Simons, Stockage 178, 70 x 50 cm. Foto: AM Galeria

Paralelamente, se Simons dialoga com o Barroco, Harmonia Rosales se aproxima mais diretamente do Renascimento, porém, em outro regime de disputa: se Simons atualiza o classicismo do barroco pela técnica, Rosales atualiza o classicismo do renascimento pelo conteúdo.

Harmonia Rosales (1984-) é uma artista norte-americana de ascendência afro-cubana que, desde jovem, é fascinada pela técnica dos mestres da renascença, técnica esta a qual se especializou com inegável esmero. Todavia, a representação da hierarquia de raça e gênero nos conteúdos das obras deste período dissuadiram sua admiração. Após tornar-se mãe, decidiu reinterpretar quadros renascentistas dando a eles protagonistas que ela e sua filha pudessem se reconhecer.

Sua pintura reproduz a técnica da tradição renascentista italiana: composição equilibrada, centralidade das figuras, idealização anatômica e referências explícitas à iconografia cristã; assim como harmonia formal, organização piramidal e serenidade estrutural. A técnica pictórica é tradicional, o óleo sobre tela permanece, o equilíbrio do claro e escuro é cuidadosamente elaborado, mas o conteúdo é radicalmente transformado.

Harmonia Rosales, Ascension of a Woman. Foto: harmoniarosales.art

Rosales reinscreve corpos negros, principalmente o de mulheres, como protagonistas de narrativas bíblicas e mitológicas que, historicamente, foram dominadas por figuras brancas. A iconografia cristã e patriarcal é reescrita e o que antes era instrumento de hegemonia torna-se, por seu pincel, instrumento de revisão, uma ferramenta de contestação.

Como comenta Didi Huberman em Devant l’image (1990), as imagens não pertencem a um único regime de sentido e que suas composições são campos de conflito. Neste ínterim, podemos concordar que a artista afro-americana, ao preservar a gramática visual renascentista e subverter radicalmente seu conteúdo, produz uma experiência estética desestabilizadora, que descoloniza o olhar historicamente domesticado pelo imaginário eurocêntrico.

Harmonia Rosales, Garden of Eve, 2021. Foto: harmoniarosales.art

Rosales desloca o conteúdo tradicional do estilo clássico para uma perspectiva contemporânea e afrocentrada que ao mesmo tempo que expande os limites técnicos da própria pintura renascentista, uma vez que a representação da pele negra demanda soluções específicas de luz, cor e modelagem que revelam sua investigação pictórica rigorosa e ampliam nosso imaginário à representação de belezas e sacralidades contra-hegemônicas.

Dessa forma, o que ambas artistas, Luzia Simons e Harmonia Rosales, demonstram é que o estilo clássico ainda é um campo aberto de possibilidade que pode ser apropriado por artistas com coragem para retirá-lo de seu pódio irretocável e visão para ampliar o que já foi consolidado.

O Renascimento construiu a ideia de harmonia e centralidade do humano. O Barroco tensiona essa harmonia com excesso de dramaticidade. O contemporâneo, por sua vez, herda essas estruturas, mas as submete a novas urgências. Em Simons, a flor escaneada mantém a memória barroca da finitude, mas nasce de um dispositivo tecnológico que amplia as possibilidades de experimentação e registro visual. Em Rosales, a pintura renascentista reaparece como superfície de reescrita identitária. Ambas atualizam o clássico. Mas por caminhos opostos: Uma mantém o que a imagem representa mas transforma o como a imagem é feita. A outra transforma o que a imagem representa, mas mantém a técnica pela qual ela é feita.

Flávio Rocha de Deus é graduado em Filosofia pela Universidade do Estado da Bahia, Especialista em Ciências Humanas e Sociais Aplicadas pela Universidade Federal do Piauí, Mestre em Filosofia Contemporânea pela Universidade Federal da Bahia e Doutorando em Estética e Filosofia da Arte pela Universidade Federal de Ouro Preto. Professor Efetivo da Secretaria de Educação do Estado da Bahia (NTE: Chapada Diamantina), Editor Fundador da Anãnsi: Revista de Filosofia e Filósofo Colaborador da Aliança Francesa de Salvador
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