POR ANDRÉ TORRES
A Noiva revestida por seus anticelibatários
Eu não vou morrer!
Ressoam as trombetas. Entoa uma voz: “Preparo os meus pés pra batalha”. Eis o primeiro verso que sai dos lábios de Ventura Profana1 em Python, uma das seis faixas do seu EP Traquejos pentecostais para matar o Senhor (2020). Este e outros dizeres, como “as que confiam na trava são como os Montes de Sião que não se abalam”, ou “Tremam todos os habitantes da terra, pois o dia da trava está por vir”, presentes em outras canções do álbum, emulam, deslocam e atualizam a linguagem bíblica. Soam como versículos de um evangelho apócrifo, ou salmos perdidos de uma travesti discípula de Jesus. E de certa forma, eles o são.
Profana, afinal, veio ao mundo com uma missão, a de pregar a fé em Deize, uma alternativa possível – e mais enraizada na natureza do mundo – ao Deus patriarcal – e transcendental – dos cristãos, cujos fieis condenam corpos e comportamentos dissidentes daqueles prescritos nas crenças que compartilham e convencionam suas percepções do mundo. As formas que ela utiliza para disseminar suas crenças não são apenas aquelas da religião, mas também da arte, atuando, justamente, na sua interseção, religando-as novamente. Não se restringem, contudo, ao campo da música, mas disseminam-se, por diferentes linguagens. Inclusive, aquelas da visualidade.
Na História da Arte são abundantes os exemplos de imagens religiosas e de cunho espiritual. Afinal, as formas artísticas foram valiosas – em diferentes momentos, contextos e culturas – nas tentativas de materializar o supramundano, dando a ver o invisível. Apelavam tanto para a verossimilhança, quanto para a esquematização simbólica. Desde à figuração das divindades da Antiguidade Clássica, no qual o corpo humano servia de modelo para o divino, passando pela Idade Média, momento no qual a religião cristã fortificou o caráter iconográfico das imagens, mantendo na figuração o germe da infigurabilidade divinal, as formas artísticas imageram o que não se pode ver, formalizando representações das deidades.
A Igreja Católica se consolidou como grande patrona das artes durante o Renascimento e o Barroco, legando-nos tanto a Capela Sistina, de Michelangelo, quanto o Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, ornado com as esculturas de Aleijadinho. Mesmo no modernismo, quando ramificaram-se as formas do fazer artístico, debruçando-se principalmente sobre o cotidiano e sua rápida transformação, a espiritualidade – agora desvinculada de uma religião específica – seguiu fomentando práticas de artistas como Kandinsky, Mondrian e Hilma af Klint. Quais seriam, então, as faces possíveis dessa longa relação entre arte e religião na atualidade? Seria a de Ventura uma delas?
Se por um lado, o catolicismo trabalhou para consolidar seu poder simbólico através da instituição de uma imaginário produzido por e produtor de imagens, o protestantismo que dele dissidiu valeu-se de sua negação para afirmar-se. Para isso apoiou-se no caráter transbordante da palavra para se diferenciar. A fé, para eles, não necessitava de imagens artificialmente produzidas para se apoiar, revelando-se mais potente, justamente por instituir-se na sua ausência. Não é preciso, afinal, ver, para crer. Mesmo denunciando a idolatria, os reformistas não deixaram de mobilizar imagens capazes de entranhar-se no imaginário de seus fieis, guiando suas formas de estar no mundo.
Pode parecer estranho, à princípio, que, sem apelar para imagens formalizadas as ramificações protestantes tenham conseguido concretizar um imaginário que comove seus fieis e condiciona, também, a percepção de seus não-seguidores. E a comoção, aqui, não é só no campo dos afetos que os faz comungar do Espírito Santo, falando em múltiplas línguas, mas é também o mover-se em conjunto que cria certa coesão social e aspiracional, pois organiza os desejos dos crentes. Prova disso é a insurreição de artistas contemporâneos que têm se valido de estratégias imagéticas e discursivas relacionadas à cultura gospel, em especial as correntes pentecostais, para estabelecer suas poéticas. Ventura Profana é uma dessas agentes, mas não a única. Caio Pacela, Maxwell Alexandre e Panmela Castro também integram este grupo.
Este fenômeno, contudo, ainda carece de uma análise aprofundada de suas causas e efeitos, em parte devido a sua profunda complexidade. De modo que segue fomentando uma série de questionamentos: Qual o caráter dessa produção? Que visualidade ela institui? Como ela se relaciona com outras formas correntes na cultura contemporânea? Por que ela desponta na cena artística neste momento? Quais seus efeitos? Que relações seus produtores guardam com as comunidades religiosas das quais advém ou participam? Que comunhão espiritual eles visam propor ao seu público fiel?
Nós somos o evangelho, o evangelho, o evangelho do fim
As estatísticas apontam: o fim está próximo. Não me refiro, contudo, ao apocalipse, seja pelo advento do juízo final bíblico, ou pela crise climática em curso que tem tornado cada vez mais palpável o colapso da vida humana na terra. Refiro-me ao fim da soberania católica no território brasileiro. Os cristãos, todavia, seguirão reinando no país, agora sob os auspícios das dissidências protestantes. A cada novo censo demográfico somos informados do crescimento da população identificada às religiões evangélicas, levando a projeções sobre a provável inversão, nos próximos anos, na proporção de fieis que compõem a parte mais expressiva da população brasileira.
Dos mais de 85% de cristãos espalhados em território nacional, os católicos sempre foram uma estável maioria. Contudo, nas últimas décadas, tem perdido cada vez mais espaço para religiões protestantes. Em 1980, estes eram apenas 6% da população total. Três décadas depois, avançaram para 22%. E, de acordo com as estimativas do censo do IBGE de 2022, eles já totalizam quase um terço da população. Este crescimento acelerado se faz notar em diferentes espaços da sociedade, da política e da cultura brasileira. Em parte, isso se deve ao desenvolvimento das religiões pentecostais a partir dos anos 1970, e cujo avanço territorial e ideológico está correlacionado ao crescimento de suas hostes.
Vale lembrar que a comunidade evangélica é tão diversa quanto as ramificações do protestantismo que tem se disseminado desde suas origens no início do século XVI. O cisma reformista levou à subsequentes divisões. O protestantismo prosperou, não só em suas matrizes Luterana e Calvinista, mas no Batismo e Anabatismo, nos Pentecostais e, principalmente, nos chamados Neopentecostais, versão “atualizada” do último. O pentecostalismo, principalmente, tem convocado reincidentemente o interesse de pesquisadores, intelectuais e artistas, tendo em vista seu amplo impacto em diferentes esferas da sociedade.
Isso se deve, em parte, à instrumentalização dos meios de comunicação de massa pelos evangélicos, estratégia normalizada e normatizada pelas suas Igrejas. A presença disseminada dos crentes nos canais de TV abertos auxiliou na propagação de sua mensagem de prosperidade e fé. Muitas das emissoras que exibem tal programação são, inclusive, administradas por pastores e líderes religiosos. Em outros casos, os canais vendem horários para as Igrejas que transmitem, ao vivo, ou não, seus cultos e adorações. A televisão, contudo, não é o único instrumento de evangelização, apesar do seu papel fundamental na propagação de suas crenças para além do espaço físico restrito dos templos.
A indústria cultural gospel se espraia em diversas mídias e linguagens, cooptando formas e gêneros instituídos. Um exemplo são estilos musicais como o rock e o funk que tiveram seus ritmos apropriados e articulados à letras voltadas para a adoração, distanciando-se do teor contestatório ou sexual que lhes serviam de base. Nessas canções “Créu”, torna-se “céu” e até festas raves foram arrebatadas pelo espírito do senhor. Todavia, não é só nas novelas da Record e nas rádios cristãs que a cultura pentecostal se manifesta. Os festivais de teatro, ou de cultura gospel, por exemplo, reúnem manifestações performativas – para além daquela já estabelecida no culto – com fins de adoração e pregação congregacional.
Enquanto isso, na internet, a emergência de influenciadores evangélicos, como os pastores Deive Leonardo, Cláudio Duarte, André Valadão e Cassiane – que fazem mítica do cotidiano –, amplia as hostes dos popstars gospel, antes encarnadas nas figuras de cantoras como Aline Barros, Ana Paula Valadão e Fernanda Brum – que, na era digital, aprenderam a fazer uso das redes sociais para seguirem difundindo a palavra de Deus e a própria, e rentável, imagem. Inclusive, a conversão de influenciadores digitais consolidados ao pentecostalismo revelam o poder dessas correntes, seja pela captura do imaginário, ou na tentativa de ampliar ainda mais suas comunidades de seguidores.
Todavia, se durante muito tempo, as manifestações culturais e midiáticas evangélicas se restringiam aos círculos de iniciados na doutrina, cada vez mais, o universo pentecostal tem pontuado outros produtos culturais de ampla visibilidade. Produções recentes como Divino Amor (2019), de Gabriel Mascaro, Medusa (2021), de Anita Rocha da Silveira, e Raquel 1:1 (2023), de Mariana Bastos, são exemplos de abordagens do universo neopentecostal no cinema brasileiro. Já Vai na Fé (2023), novela de Rosane Svartman, foi a aposta folhetinesca da gigante Globo, principal emissora do país, que até então parecia refratária à representação de personagens evangélicas na ficção, legando-as, principalmente, às pautas jornalísticas. Mascaro, Silveira, Bastos e Svartman não têm vínculos diretos ou estreitos com as Igrejas Neopentecostais. Suas práticas não reelaboram memórias do passado nesses ambientes religiosos, mas são observações externas. Suas ficções são expressões do reconhecimento da presença e impacto da cultura gospel na atualidade, fenômeno que precisa ser encarado coletivamente, compreendendo sua complexidade, seus desdobramentos e especificidades.
Neste breve panorama, podemos compreender como a expressividade da cultura gospel não está represada nos espaços e contextos próprios dos fieis, mas tem expandido seus territórios, levado outros campos a abordar este universo, mesmo que sob perspectiva crítica, reconhecendo, ainda que indiretamente, a inegável contribuição de seus elementos na constituição de nosso imaginário social e coletivo. Como, contudo, esse imaginário pôde se erigir e arraigar nos indivíduos sem apelar para as imagens?
Lâminas lascivas, nossa brasa é fogo ardente
O imaginário, compreendido como espaço mental onde articulamos diferentes representações, tornadas signos por sua capacidade simbólica, não prescinde de imagens concretas, como fotografias, ícones, pinturas, esculturas, para se estabelecer, mas se desenvolve também a partir de cenas registradas pelo inconsciente. Exemplar, nesse sentido, é o evento televisionado pela Record em 12 de outubro de 1995, quando o pastor Sérgio Von Helder, da Igreja Universal do Reino de Deus, chutou uma imagem de Nossa Senhora de Aparecida, no dia consagrado pelos católicos à sua adoração. Mesmo aqueles que não viram a cena são capazes de imaginá-la pelos relatos desse momento que atualiza a antiga disputa sobre o lugar das imagens na religião entre os adeptos do catolicismo e os reformistas.
A demonstração de intolerância religiosa acabou se espraiando de modo a condicionar a percepção dos evangélicos como intolerantes, não só à outras formas de exercícios espirituais, mas de toda manifestação, experiência ou forma de vida que não se adequa aos seus princípios. A ação, percebe-se, alimentou um imaginário compartilhado pelos não-evangélicos dos princípios que norteiam a identidade desse grupo. Outros clichês relacionados ao comportamento e às formas de auto apresentação desses sujeitos encontram-se em certos códigos compartilhados relacionados, por exemplo, à indumentária. O estilo evangê se manifesta por certo recato, principalmente nas vestes femininas, tal como saias abaixo do joelho e o encobrimento de certas partes do corpo, ainda que, por vezes, o caimento justo revele suas formas.
Estes são elementos que articulam o imaginário sobre o comportamento protestante no Brasil. Contudo, essa visão planificada não se sustenta quando olhamos de perto a sociedade, compreendendo a complexidade da construção identitária, na qual o estilo perpassa e é atravessado, também, por informações e imagens massificadas que configuram e atualizam as formas de vida que o manifestam. Se há, entretanto, um elemento que estabelece conexão entre diferentes ramos do pentecostalismo, poderíamos apostar no papel fundamental do Espírito Santo na ritualística e cotidiano de seus acólitos.
O falar em línguas, afinal, é um dos elementos estruturantes dessas religiões. O movimento pentecostal, que surgiu no engatinhar do século XX, nos Estados Unidos, tem como um dos pilares de sua crença a mediação do Espírito Santo na comunhão com Deus. Originalmente, Pentecostes era uma festa judaica que, no cristianismo, passou a designar o evento no qual o terceiro elemento da trindade desce sobre os seguidores de Jesus, batizando-os e concedendo-lhes dons. Os próprios católicos carismáticos dedicam-se ao exercício e adoração do Espírito em celebrações nas quais também realizam preces em línguas desconhecidas, que muitas vezes podem soar como uma espécie de balbucio para os não iniciados.
Todavia, os pentecostais não compartilham somente do dom de falar em línguas diversas, eles também fundaram uma experiência comum pelo usufruto de um mesmo vocabulário no qual abundam expressões relacionadas à Bíblia e ao universo religioso. “Varão”, “desviado” ou “tribulação”, são alguns dos termos empregados pelos crentes. Há, ainda, expressões como “o sangue de Jesus tem poder”, “ô glória!” e “tá amarrado”, entre muitas outras, que coadunam uma espécie de dialeto gospel, disponível principalmente para seus iniciados.
“Vitória!”, expressão empregada por evangélicos para exaltar as conquistas, é também articulado por Ventura Profana, servindo, inclusive, de título para uma de suas músicas. O termo está relacionado à Teologia da Prosperidade, doutrina que serve de base para muitas pregações pentecostais e que tem como fundamento a defesa da bonança material na esfera terrena, sem precisar esperar pela vida após a morte para usufruir das graças divinas. Profana, contudo, canta a vitória travesti. Ela celebra o triunfo da vida daquela parcela da população que continuamente se vê condenada pela necropolítica que dispõem seus corpos como dispensáveis.
Se há alguma dúvida sobre isso, basta acompanhar os dossiês anuais da Associação Nacional de Travestis e Transexuais (Antra) que colocam o Brasil no topo da lista dos países em que mais mulheres trans e travestis são vítimas de crimes brutais. Contudo, pouco se faz na esfera pública para reverter esses dados. Os corpos negros, por sua vez, também são alvos sistemáticos de políticas que precarizam suas formas de vida, estreitando as vias para a prosperidade. Enquanto isso, os corpos cis, masculinos e brancos, superabundam, criando marcações cuja finalidade é inferiorizar seus dessemelhantes.
Ventura se apropria das formas de discurso recorrentemente empregados na discriminação – o dos pregadores pentecostais conservadores – para cantar o poder e a glória dos despossuídos. A subversão dos elementos sagrados, sejam eles simbólicos ou discursivos, faz dela, de fato, uma agente da profanação. Profanar, vale lembrar, não é apenas uma forma de faltar com respeito ao divino – tal como fez Von Helder –, mas transgredir certa ordem instituída que visa separar algo da esfera comum, inscrevendo-a no campo transcendental do sagrado.
Ventura atua justamente no sentido contrário, de trazer essa esfera espiritual para o campo do cotidiano, de reintegrá-la em espaços, discursos e vivências no qual ele se faz ausente, ou esvaziado. Como a artista canta: “Transformamos pranto em festa/ nossos cus em catedrais”. O corpo é o espaço de adoração do divino. Seus gestos, sua performatividade pública tem o poder de subverter as formas, códigos e discursos instituídos, lembrando-nos da sua insuficiência diante da multiplicidade de existências possíveis no mundo.
Com Ventura, profanar desponta como capacidade de seguir acreditando que mesmo diante da realidade violenta, é possível a transformação. A esperança surge quando se escolhe agir e não somente esperar pelo juízo final, ou pela intervenção divina. Por isso a doutrina da artista é a Teologia da Transmutação, como ela nomeia, afirmando a instabilidade de tudo. Afinal, tudo está em transformação, em movimento. É preciso, então, abraçar a possibilidade de mudar, não pela dor ou pela condenação, mas pelo prazer e pela alegria.
Seu fazer é teológico, pois enraíza-se e desdobra-se a partir de um certo fundo comum: os estudos e sínteses dos ensinamentos cristãos que se alicerçam na ideia de libertação, especialmente dos oprimidos, assim como a busca pela justiça em diversas esferas, como a social, a política e a econômica. Em resumo, trata-se de uma discurso que valoriza a “vida em abundância” – para usar termo da artista –, sem distinção de indivíduos que teriam mais ou menos direito a ela.
Ventura faz do profano o modo sagrado no qual se aventura no mundo, manifestando e fazendo manifestar as contradições pulsantes, em latência, ou abertas em feridas, que constituem a sociedade brasileira. Suas imagens – visuais e verbais – performatividade e produção tem o poder de subverter as formas, códigos e discursos instituídos, lembrando-nos da sua insuficiência diante da multiplicidade de existências possíveis no mundo. Ela atua justamente para desarmar certos efeitos nocivos dessas falas, valorizando o que antes era rebaixado e agindo contra o adestramento da vida por formas de controle que acabam sendo agenciadas por instituições religiosas e seus representantes.
Sua pesquisa é atravessada pelas suas experiências pessoais com a tradição Batista, que lhe forneceram o vocabulário e o imaginário agenciado pela artista em sua prática. Contudo, não a aborda com mágoa, amparada pela sombra de um trauma. Pelo contrário, se vale das formas aprendidas e praticadas na infância e juventude para observar as relações entre pentecostalismo e colonialidade – formas de dominação que caminha junto com o capitalismo e que tem como uma das suas expressões a Teologia da Prosperidade.
Quero vestir Balenciaga/ Travesti no comando da nação
No início do século XX, quando o pentecostalismo se instaurava no Brasil, Max Weber encontrava-se entre as duas versões de seu ensaio A “ética” protestante e o espírito do capitalismo.2 No ensaio Weber une economia e antropologia para compreender como a forma como os protestantes encaravam e modelavam suas vidas guiava-se por ideais de trabalho compartilhados com o capitalismo. O que Weber acaba por denunciar em seu texto é o capitalismo não só como um regime que organiza a produção e distribuição de produtos, mas que alimenta e dispõem certas condutas de vida que devem ser seguidas para sua manutenção e perpetuidade.
Paralelamente, nos Estados Unidos, nação que melhor expressa os princípios do capitalismo e que tem na base da sua colonização grupos religiosos protestantes, a doutrina da prosperidade dá seus primeiros passos. É somente em meados daquele centênio, após o falecimento de Essek William Kenyon, seu principal idealizador, que ela passa a ser fortemente disseminada, em diferentes vertentes, como a Confissão Positiva de Kenneth Hagin, e a Vida Abundante do televangelista Oral Roberts. Inclusive, é pela difusão midiática que a Teologia da Prosperidade avança, capturando o mobilizando os imaginários de fieis pela promessa de bonança.
Afinal, na tela imagens de diferentes origens podem convergir, como aquelas da fé, do entretenimento e do consumo. A Igreja Universal do Reino de Deus (IURD), uma das principais difusoras dessa doutrina do Brasil, não por acaso, é uma dos ramos pentecostais com maior presença televisiva. Em um país marcado por desigualdades sociais e econômicas, a promessa de conquistas materiais pela manifestação da fé em Deus, aparece como uma possibilidade de salvação ainda em vida. Afinal, é muito melhor viver em bonança agora, do que privar-se na esperança de um paraíso supramundano.
A Teologia da Prosperidade valoriza os ganhos e a ostentação material, identificando nas conquistas financeiras um sinal da bênção divina, que deve ser, por sua vez, retribuída no dízimo. A riqueza não deve ser motivo de vergonha. Pelo contrário, deve ser orgulhosamente exibida como sinal de recompensa pelo exercício da sua fé, de modo a atrair o olhar, e quem sabe converter outros indivíduos a ela, na esperança de que possam desfrutar das mesmas benesses. Os testemunhos, inclusive, personalizam a prosperidade, revelando suas diferentes formas e validando a doutrina.
Adesivos com a frase “presente de Deus” na lataria de automóveis, assim como expressões como “foi Deus quem me deu”, levam a crer que o sucesso individual deve-se, principalmente, ao exercício da fé. A própria Ventura traz lampejos dessa teologia quando faz apologia a nomes de grifes de luxo e objetos de consumo. A ostentação, contudo, não é um elemento particular da Teologia da Prosperidade, mas se espraia, principalmente na voz de indivíduos que antes se viam despossuídos, marginalizados pelas elites e que, ao terem acesso aos meus bens e espaços, também desejam gozar da materialidade que antes só lhes ocupava a imaginação.
Para muitos de seus críticos, a Teologia da Prosperidade deturpa princípios bíblicos, alimentando condutas individualistas, em detrimento do espírito comunitário.
A Igreja do Reino da Arte
A Noiva, ou Igreja do Reino da Arte, é uma igreja ecumênica fundada pelo artista Maxwell Alexandre e seus acólitos. Tomando a arte como uma espécie de religião, A Noiva tenciona, fricciona e entrelaça signos proveniente do campo da arte e das religiões pentecostais. Esta Igreja, inicialmente missionária, pois não dispunha de um lugar fixo, ocupando diferentes centros culturais do Rio de Janeiro, acabou firmando sua base na Rocinha. Neste lugar, da onde o artista provém, o artista esteve em contato com manifestações pentecostais a partir da devoção de seus vizinhos e familiares.
Essa vivência legou a compreensão dos códigos e discursos próprios das religiões evangélicas, que são deslocados de encontro à arte, cujas manifestações, por sua vez, não possuem a mesma aderência no espaço da favela. Raoni Azevedo, um dos fundadores da Noiva, inclusive, afirma que na Rocinha, o sublime está na religião, não na arte.3 Inclusive, é na Igreja que muitas vezes aqueles que não têm acesso à espaços da arte conseguem entrar em contato com expressões culturais, seja cantando louvores, ou dramatizando cenas da vida de Cristo.
Na Igreja do Reino da Arte, os trabalhos são como profecias. As apresentações públicas de processos são dízimos. As ações são cultos e as reuniões são seitas. As residências artísticas são chamadas de retiros. Há também oferendas, a santa ceia, e até um pecadão. Toma-se de empréstimo a terminologia gospel para nomear rituais próprios da arte. As peregrinações, por exemplo, são longas caminhadas pela cidade nas quais os fieis carregam obras. Estão previstas, inclusive, paradas no percurso para realizar pequenos cultos, momentos de exibição dos trabalhos.
Para a abertura da primeira individual do artista na galeria A Gentil Carioca, em 2018, foi realizada a maior peregrinação da comunidade. Os fieis caminharam aproximadamente vinte quilômetros que separam o ateliê do artista na Rocinha da galeria no centro do Rio, carregando os corpos das quatro grandes pinturas que ele havia preparado para a mostra, enroladas, sobre os ombros.
Maxwell, inclusive, desenvolveu e apresentou em diversos lugares uma ação performática inspirada no ritual do batismo, cerimônia na qual um indivíduo é formalmente integrado à comunidade religiosa. Durante a ArtRio de 2019, segunda maior feira de arte do país, Alexandre apresentou uma instalação composta por amplas telas pintadas com padrões da piscina Capri, elemento recorrente em seu trabalho é um tanque batismal no qual os novos fieis seriam iniciados na Igreja do Reino Da Arte, também chamada A Noiva.
A aproximação das esferas religiosa e artística a partir das analogias linguísticas, visa, a princípio, neutralizar ambos os espaços. Não se trata de criar uma hierarquia de valores, ou de usar elementos de um contexto para criticar o outro. O que subsiste é uma crítica mútua, uma ironia cruzada. Todavia, o que resulta desse encontro são justamente os pontos de convergência: a performatividade de seus rituais, a sacralização de suas formas, a mitificação de seus agentes. O próprio Maxwell mitifica a si mesmo – seria um profeta ou o próprio messias? –, ostentando a própria imagem e aquilo que conquista com a produção de imagens. Espalha a mensagem da sua Igreja, visando instituir uma nova ordem, ou uma alternativa àquela estabelecida pelo poder dominante.
A instituição da Igreja do Reino da Arte abre uma série de questões: no que, afinal temos fé? O que, no fim, pode nos salvar? A arte, ou a religião? Ou nenhuma delas? O que alimenta mais o nosso espírito? É preciso, de fato, criar uma hierarquia de valores entre meios que possuem uma mesma finalidade? Se a crítica à religião é de que, prometendo a liberdade, ela estabelece sua dominação, o que seria diferente no sistema da arte? Afinal, ali não estão também indivíduos muitas vezes explorados que acreditam na promessa de salvação pelo reconhecimento de sua fé em um sistema de criação de diferenças simbólicas? Claro que há muitas nuances e complexidades, mas a comparação, como nos revela A Noiva, é um excelente instrumento de provocação. Afinal, a fé, seja ela qual for, na arte ou em Deus, precisa estremecer para se afirmar.
Boa noite Noiva que eu cheguei
Entretanto, a Igreja do Reino da Arte não é o único espaço na região metropolitana do Rio de Janeiro que une religião e práticas artísticas. O pintor Caio Pacela instalou seu ateliê no mesmo prédio em que a comunidade evangélica da qual provém mantém seu templo, no município de São Gonçalo. Nesse espaço singular, seu trabalho tem operado uma transmutação. Suas imagens projetadas, por vezes, em telas cuja borda superior arredondada evoca a tradicional forma dos retábulos religiosos, também estabelecem relações com o universo gospel.
O procedimento da colagem guia muitas das composições – estratégia que também é empregada nas colagens digitais de Ventura Profana. Nas pinturas de Pacela, paisagens inóspitas são pontuadas por figuras humanas em coreografias gestuais que remetem à esfera religiosa. É raro encontrar essas figuras integradas de fato na paisagem, como ocorre em A honra e a glória, a força e o poder (2024). Na maioria das vezes, elas flutuam sobre o cenário, ocupando a parte superior da composição, destinada, também, ao firmamento, como vemos em ímpeto (2024). Nesse sentido, a estruturação da imagem não visa a integração, não faz seus elementos se converterem em uma narrativa unificada, mas evidencia a disjunção dos seus elementos, envolvendo-os em uma aura mística que resguarda seus mistérios frente ao observador.
O trabalho de Pacela sempre revelou especial apreço pela figura humana, usualmente representada na realização de ações que geram estranhamento. Exemplar é uma série de pinturas de cenas de interação entre indivíduos e uma geladeira. O que captura a atenção é justamente a curiosidade pelo significado dos gestos performados pelas figuras. Este elemento, na produção atual do artista, se deslocou para representações nas quais as mãos são as protagonistas. Em Amálgama (2023), ele apresenta uma espécie de catálogo de gestos que articulam a cabeça de um indivíduo e as próprias mãos, ou de uma outra figura, cujo corpo se faz metonimizado por estes membros. Se o gesto de cobrir o próprio rosto com as mãos sugere lamentação, as abundantes variações de imposição de mãos sobre cabeças, vistas de diferentes ângulos e em diversas configurações sugere tanto a bênção, quanto a dominação, por vezes sugerindo cuidado, mas também violência.
Já em quadros como Ponto De Não Retorno (2022) e Ao Deus Desconhecido (2023) as mãos seguem sendo uma das partes mais expressivas das figuras, que as lançam aos céus em sinal de louvor, ou criam vetores que conduzem coreografias de corpos embebidos na chama do espírito santo. As mãos são tema de trabalho do artista desde sua juventude, na qual usava a sua própria como modelo para desenhos que almejavam, cada vez mais, uma representação realista daquilo que se configurava diante de seus olhos. Tais exercícios frutificaram, tendo em vista a destreza técnica revelada pelo artista.
A performatividade própria dos rituais pentecostais, tanto da perspectiva corporal – da sua gestualidade – quanto linguística – pelas expressões e formas de linguagem e eles relacionados – parece despontar, então, como um dos principais elementos que permeia a produção de artistas que reconfiguram a cultura gospel em suas produções. A musicalidade também permeia essas poéticas. Além de Ventura, Maxwell também realizou, com A Noiva, algumas incursões nesse território, em “álbuns de ateliê”, fruto de experimentações com batidas pré-gravadas, que se encontram disponíveis no YouTube. Mesmo algumas pinturas de Pacela possuem uma musicalidade silenciosa, evocada pela coreografia dos corpos ali dispostos.
O batismo, na perspectiva de Maxwell ou de Profana, desponta como um dos principais acontecimentos religiosos, sendo aquele que marca a entrada do indivíduo em uma comunidade religiosa. Contudo, o testemunho, elemento fundamental do culto pentecostal, também permeia a pesquisa dos artistas. Em parte essas poéticas expressam acontecimentos experienciados pelos artistas, mas também por servirem de inspiração para ações performáticas, como encontramos em alguns trabalhos de Panmela Castro.
A dororidade nos faz dignas de poderes miraculosos e especialmente de cura
No Culto contra os embustes, Panmela conduz uma ação coletiva que propõe a cura contra os abusos e violências dirigidos às mulheres, muitas vezes por seus próprios companheiros – triste realidade encontrada em muitos lares não só do Brasil, mas do mundo. A performance envolve orações e testemunhos, depoimentos pessoais, semelhantes aos que ocorrem em algumas cerimônias de Igrejas neopentecostais, além de um ritual de purificação pelo fogo. Em uma pira simbólica, os participantes lançam objetos que remetem aos seus algozes, de quem pedem libertação, assim como seus nomes escritos em papel.
Um santinho – flyer diminuto que tradicionalmente contêm, de um lado, uma imagem, e do outro um texto – apresenta uma oração da qual devem ser entoadas frases como “A dororidade nos faz dignas de poderes miraculosos e especialmente de cura”; “Curai-me de correr atrás, de querer salvar, ou de crer no embuste”; e “Por fim, livrai-me de toda violência física, psicológica, patrimonial, moral e sexual”. O folheto que serve tanto como convite para ação, como seu rastro, carrega em si a possibilidade de disseminação e reencenação da performance, ainda que em esfera íntima, assim como serve como fetiche da obra. Este formato, também é empregado por Ventura Profana em seu Folhetos para evangelização, nos quais estão dispostos preces que visam o empoderamento.
Panmela faz uso dessa retórica para disseminar um evangelho feminista. A artista se vale de elementos do discurso patriarcal religioso justamente para denunciar sua utilização na manutenção da submissão feminina. Assim como Ventura, Panmela acredita que “Ostentar é estar viva!”, frase-título pichada sobre superfície reflexiva em uma das obras (2021) da série Espelho. Sua prática resulta de experiências vivenciadas pela própria artista e visam convocar o público, muitas vezes, ao compartilhamento de memórias, anseios e medos que tem como fim, uma espécie de cura espiritual. Assim, a artista atua na reconexão entre a performance artística e a religiosa, sem apagar, contudo, a dimensão individual.
O caráter confessional de seu trabalho também pode ser verificado na série Vigília (2020-2021), na qual coaduna as duas linguagens artísticas que agencia: a pintura e a performance. Os retratos que a compõem resultam de um procedimento simples. A pessoa a ser representada passava uma noite no estúdio da artista – de meia noite às seis horas da manhã –, posando, mas também interagindo com ela. O encontro se instaurava menos pelo compartilhamento do espaço e assimetria da relação – o observado e o observador – mas pelo compartilhamento de vivências.
A escolha do título aponta não só para o procedimento, pois o termo nomeia o ato de estar desperto, vigilante, por escolha ou contra vontade, mas também a ação de velar alguém, ou seja, uma forma de oferecer proteção. O termo também é empregado em eventos nos quais os fieis adentram a noite em oração ou em um culto.
Dos artistas aqui elencados, Panmela é a que menos possui relações estreitas e diretas com as religiões pentecostais. Contudo, seu trabalho não deixa de expressar a permeabilidade da cultura gospel naquilo que compreendemos como cultura brasileira, e vice-versa. Podemos inferir que a segregação inicial dos pentecostais, por preconceito da maior parte da população, auxiliou no desenvolvimento de traços culturais particulares, que se fortaleceram, transformaram e solidificaram ao longo do tempo. Com o crescimento da população crente, esses elementos passaram a ser integrados na cultura majoritária, inclusive em circuitos que lhe eram refratários.
Não podemos fechar os olhos para essas contribuições, nem posicioná-las a partir de nossos preconceitos. Não é por deslocarem expressões do campo pentecostal para contextos e formas artísticas que os trabalhos se apresentam como críticas às religiões. Podem, de fato, fazê-lo. Mas, acima de tudo, são provocações que respondem às inquietações e aos impactos provocados pela expressividade dessas formas advindas da Igreja no nosso cotidiano. Mesmo que por seus dissidentes, A Noiva renova-sa, na Arte.
1 Em 2024, suas obras protagonizaram duas mostras no Museu de Arte de São Paulo (Masp). A primeira, na Sala de Vídeo da instituição, apresentou, entre junho e agosto daquele ano, sob curadoria de David Ribeiro, quatro trabalhos inéditos da artista, dois de 2021 e os outros de 2024. Já em Histórias LGBTQIA+, mostra principal do calendário da instituição, inaugurada em dezembro e que segue aberta à visitação até abril, a poética da artista transformou-se em eixo central do núcleo Sagrado e profano, que ocupa o segundo subsolo do edifício projetado por Lina Bo Bardi.
2 O ensaio foi publicado em duas partes, a primeira em 1904 e a posterior em 1905. Em 1920, ano do falecimento do autor, foi realizada a edição revisada. Já a entrada das igrejas missionárias evangélicas no Brasil se dá na década de 1910.
3 Entrevista da Revista Select com Maxwell Alexandre, Raoni Azevedo e Eduardo de Barros, sobre A Noiva – Igreja do Reino da Arte, publicada em novembro de 2019. Disponível online em: https://select.art.br/entrevista-anoiva/
André Torres é Mestre em Linguagens
Visuais pelo PPGAV-EBA-UFRJ (2016) e
Doutor em Literatura, Cultura e
Contemporaneidade pela PUC-Rio (2023)





