ZED NESTI | GALERIA BOLSA DE ARTE

“Queria que esses trabalhos fossem uma resposta à pulsão de morte, presente nas ideias retrógradas e nefastas reencarnadas, e que estrebucham com tanta convulsão nos dias de hoje. A ignorância deve ser confrontada e superada com a beleza, a alegria, a luz, a natureza e a Vida. Procurei sintonizar minha prática com esses princípios e neles infundir seus encantamentos. Com o que temos de mais profundamente vivo em nós, o Amor.”
—Zed Nesti

“For Sale – A nova pintura da paisagem brasileira” dá continuidade à uma investigação que é central no trabalho de Nesti. As exuberantes paisagens brasileiras retratadas nessas pinturas estabelecem um diálogo entre a propaganda moderna, o conteúdo das redes sociais e a expressão popular artística, fazendo uso de métodos e práticas históricas da pintura a óleo. Num jogo de ironias, o título da série coloca o país e suas riquezas à venda em inglês, uma alusão ao catastrófico momento político do país.

Como escreveu Ana Finel Honigman para o ensaio do catálogo da exposição “Pra inglês ver”, de Nesti, em 2016 na galeria Bolsa de Arte em São Paulo – “Embora Nesti frequentemente encontre suas imagens online, ele as pinta usando uma combinação de pigmentos, óleos, cera de abelha e resinas. Esses materiais tradicionais aliam gravitas às imagens tecnologicamente coletadas. Ele então trabalha sua matéria-prima usando uma paleta que faz referência aos filtros de populares redes sociais de fotografia na internet. Esses filtros criam inicialmente uma névoa nostálgica sobre as imagens, induzindo os espectadores a observá-las criticamente em vez de concluir que foram construídas casualmente.

A lacuna entre uma leitura à primeira vista e outra, mais elaborada de sua arte, alerta os espectadores sobre um provável entendimento superficial da intricada simbologia brasileira – sua heranças e a cultura atual. Questões de auto representação e auto percepção são temas nucleares para Nesti. A série de desenhos em carvão criada pelo artista em 2010, “The Book of Faces of Facebook”, é uma coleção de retratos das máscaras sociais das pessoas. Os sujeitos dessa série foram retirados das conexões das mídias sociais de Nesti. Com seu estilo solto e gracioso, o artista
replicou fotos de seus amigos, conhecidos e contatos online, usadas para promovê-los. As fotos dos perfis do Facebook – visíveis tanto a estranhos como a convidados a participar de nossas comunidades online – não são reflexos fiéis de nós mesmos, mas representações eloquentes de um ideal pessoal.

Diferentemente de uma fotografia de perfil, as imagens que representam o Brasil podem ter origens complexas e obscuras. Referências que surgem como representações dos gostos, aspirações e identidade dos brasileiros podem se tornar clichês mal compreendidos quando reproduzidos repetidamente por campanhas de turismo e pela mídia internacional. Nesti aborda essas imagens como fez anteriormente com as fotos de perfis do Facebook, com a finalidade de investigar a natureza das percepções sobre nós mesmos e do que os outros imaginam a nosso respeito.” Ana Finel Honigman – Berlim, janeiro 2016.

As quinze obras da mostra foram produzidas com o uso de um extenso vocabulário de técnicas de pintura com tinta óleo utilizadas em diversos movimentos da história da arte ocidental como impasto, velatura, sfumato, esbatimento, dripping, splashing, alla prima, underpainting, wet on wet, squeegeeing, sfregazzo, sprezzatura, grisaglia e chiaroscuro. Elas podem ser divididas em cinco partes – branca, amarela, azul, verde e cinza. Todos os títulos fazem referência à canção “Luz do sol” de Caetano Veloso, que fala poeticamente de como a luz do sol dá vida à natureza na Terra, enquanto o homem ignorante marcha sobre ela destruindo sua beleza – a mais querida e delicada glória da vida. A única escultura presente na exposição, “Marcha o homem sobre o chão” é feita em concreto.

Material denso, pesado e duro, usado no ramo da construção, invade espaços naturais incorporando a ideia de destruição e morte. Um resumo da ignorância humana e suas repercussões –  consumismo, racismo, sexismo, patriarcalismo, reacionarismo, paranóia, crise ambiental, efeito estufa, genocídio dos povos originários, materialismo, machismo, homofobia, abuso e consumo de carne animal, aversão à ciência e à Arte. Remete ao par de chinelos da marca Rider usado pelo então recém eleito presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, em uma foto no Palácio da Alvorada, em Brasília, com seus ministros e uma obra de Di Cavalcante ao fundo. Vestido à princípio como estratégia de associação com o povo humilde e pobre, o par de calçados o trai, revelando seu despreparo, descompromisso com o cargo e total falta de caráter.

“A série de pinturas FOR SALE – A Nova Pintura da Paisagem Brasileira faz uma reflexão sobre o uso da imagem como combustível do consumismo na indústria da propaganda da era capitalista enquanto indução do desejo e construção do subconsciente coletivo.”

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