Will | Casa Fiat de Cultura

Inspirado pelo provérbio iorubá “Esú matou um pássaro ontem com a pedra que atirou só hoje”, o artista belo-horizontino Will constrói narrativas visuais que transcendem o tempo. Na exposição Após a chegada, na Casa Fiat de Cultura, suas 21 obras se tornam um manifesto de ressignificação de territórios. Os retratos e as pinturas geométricas trazem à memória os territórios afro-indígenas, Kemet, no antigo Egito, a Bahia – espaços onde pessoas foram apagadas ou expulsas, e os quilombos brasileiros – locais de luta e resistência.

As obras criadas pelo artista, em sua maioria geométricas, são uma proposição de retomada de territórios. Com pinceladas bem marcadas e tons terrosos, elas fazem referência ao deserto e às pirâmides do Egito, mas também aos centros urbanos e ao que o artista pesquisou, viu e viveu na Bahia. Will as define como afrofuturistas. “Repenso e reconstruo esses locais por meio da pintura, possibilitando que pessoas negras possam ocupá-los e serem protagonistas desses espaços. É como se eu estivesse construindo um novo imagético, numa nova possibilidade de futuro”, explica.

A geometria que compõe as telas da exposição não é apenas estética, mas um gesto político. Em sua cidade natal, Belo Horizonte, Will volta seu olhar sobre o Largo do Rosário, território negro que abrigava a Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos e que já não existe mais. O artista resgata essas histórias e propõe um novo imaginário em que a ancestralidade não é apenas viva, mas lidera sua própria narrativa. “Nesta exposição, conto uma história ressignificada em arte, mas de uma forma poética”, reflete Will. Como Esú, o orixá do movimento, da comunicação e dos caminhos, o artista se move em um tempo espiralar, abrindo caminhos e oferecendo um convite: enxergar a história para recriar um novo começo.

Compartilhar: