WAGNER COSTA | Galeria de Arte Mamute

A Galeria de Arte Mamute convida para a abertura da exposição Da pele ao pó. A mostra com curadoria de Henrique Menezes marca o lançamento de representação do artista, e traz à público um conjunto de obras inéditas – pinturas, gravuras, livros de artista e vídeo-projeção – criadas especialmente para sua exposição na galeria.

Dentre todos os mitos romanos, talvez o mais singelo e pungente seja aquele que reconta o nascimento da pintura. A lenda, narrada por Plínio, remete a uma jovem dama coríntia que traçou na parede o contorno da sombra de seu amante antes de ele partir para a guerra: no ambiente escuro, a luz de uma lamparina fez projetar a silhueta daquele rosto masculino, eternizado pela linha imprecisa.

Seja pela dramaticidade evocada ou pela técnica empregada, a lenda de Plínio mostra-se uma metáfora fértil para adentrarmos a produção de Wagner Costa: entre pinturas e gravuras, vídeos e instalações, o artista parte de exercícios de autorrepresentação para alcançar expressões visuais de fragmentação e destruição. A exposição Da pele ao pó — primeira individual do artista na Galeria Mamute — começou a ser concebida em 2018 durante uma temporada de estudos na Academia de Arte Clássica de Florença (Itália) e intensificou-se nos últimos dois anos no Atelier de Gravura da Fundação Iberê Camargo, onde Wagner concebeu obras na prensa que pertenceu ao mestre gaúcho.

Entre o disforme e o aforme, as quatro grandes pinturas presentes na exposição resultam da relação direta do corpo do artista com a superfície branca: Wagner performa diante do papel e registra com carvão e pastel seus movimentos sobrepostos. Cada posição capturada é índice de sua presença naquele passado, a memória do gesto vai sendo sedimentada e o acúmulo de camadas remete sempre à encenação primeira — solitária, ritualística. Nesta série de obras, o movimento não é apenas sugestão, insinuação ou representação: a coreografia transmuta-se em pintura, e o resultado é uma soma quase abstrata de faturas.

Da pele ao pó reflete sobre o efêmero: um dos pontos de partida da mostra foram as esculturas de Antonio Canova, produzidas no século XIX e arruinadas durante a 1ª Grande Guerra. A harmonia apolínea dos personagens em gesso foi desfigurada pelas bombas, a perfeição neoclássica deu lugar a figuras grotescas — uma mimese dos corpos dilacerados pela tragédia. Na série Ausência, Wagner faz uso da prensa para criar relevos a partir de suas próprias silhuetas recortadas na matriz: essas gravuras cegas ganham um caráter quase-escultórico, onde a incidência da luz altera a experiência da recepção — ora veem-se corpos, ora veem-se chamas.

As obras de Wagner Costa parecem mostrar-se em câmera lenta, conjugando sombras e frames, fragmentos e silhuetas. Avançar lentamente é uma forma poética de voltar-se para o eu, com a inegável certeza de que estamos, agora, em algum ponto do percurso que nos leva da pele ao pó: como tentativa de frear esse embate, a imagem marca a ausência com uma presença.

Henrique Menezes

Curador da mostra

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