Primeira exposição individual da irmandade Vilanismo em um museu, 500 Braças abre ao público no dia 11 de julho, às 14h, no Museu Paranaense, o MUPA, em Curitiba, fruto de um diálogo do grupo com o Centro Experimental de Arte Serigráfica/Caderno Listrado.
A mostra reúne cerca de 50 trabalhos — entre instalações, pinturas, esculturas, obras inéditas e um recorte da produção apresentada na última Bienal de São Paulo — para discutir uma questão que atravessa toda a trajetória do grupo: como garantir condições materiais para a continuidade do trabalho de artistas negros no Brasil. A mostra tem curadoria do próprio Vilanismo e texto crítico assinado por Clarissa Diniz.
O Vilanismo é uma irmandade de artistas negros das periferias de São Paulo, que, desde a sua formação, em 2021, desenvolve uma prática artística baseada em organização coletiva, pesquisa e ação pública. Mais do que uma exposição, 500 Braças apresenta uma nova etapa da pesquisa desenvolvida pelo grupo desde a sua criação. Partindo da compreensão de que produzir arte também significa disputar infraestrutura, território e condições de permanência, a mostra articula questões históricas, econômicas e urbanas para refletir sobre o acesso à terra e seus desdobramentos na vida contemporânea.
O título remete ao artigo 14 da Lei de Terras de 1850, que consolidou a compra como principal forma de acesso à propriedade e consolidou a exclusão da população negra da posse da terra. Ao recuperar essa história, o Vilanismo desloca a discussão para o presente e pergunta quem tem direito não apenas à terra, mas também ao espaço de trabalho, à cidade e à continuidade de seus projetos.
Essa reflexão surgiu no processo de formação da irmandade, a partir da discussão dos limites das formas tradicionais de organização do trabalho artístico. Inspirados por experiências de comunidades indígenas e quilombolas, eles compreendem a terra como fundamento da autonomia econômica e da construção de patrimônio coletivo. 500 Braças marca, assim, o lançamento público de uma nova etapa de estruturação da irmandade, agora com o objetivo de criar uma sede permanente no centro de São Paulo como espaço de produção, pesquisa, formação e acolhimento da comunidade artística.
“A terra sempre aparece como ponto de partida para a construção de riqueza, patrimônio e futuro. Trouxemos essa reflexão para o nosso próprio fazer artístico, entendendo que discutir arte também é discutir infraestrutura, trabalho e permanência”, afirma a irmandade.
A exposição organiza-se em três núcleos — Você Me Deve, Mutirão e Mente do Vilão —, que não funcionam como divisões rígidas, mas como campos conceituais atravessados por uma mesma pesquisa. O primeiro toma emprestado o título da canção dos Racionais MC’s para discutir dívida histórica, reparação e o direito à terra; Mutirão investiga as tecnologias de organização coletiva que sustentam o Vilanismo e outras comunidades; já Mente do Vilão reúne trabalhos voltados às estratégias de articulação política, ação pública e construção de redes de solidariedade.
Além das obras apresentadas no museu, o projeto inclui uma residência artística realizada em Curitiba em parceria com o CEAS/Caderno Listrado. Parte dos trabalhos será produzida durante esse período e incorporada à exposição, aproximando pesquisa, produção e montagem.
A curadoria propõe uma ocupação que dialoga diretamente com a história do MUPA, um dos museus mais antigos do país. Ao inserir artistas negros em espaços tradicionalmente associados à construção da narrativa oficial brasileira, 500 Braças transforma o museu em lugar de elaboração crítica sobre memória, território e futuro.
Mais do que tematizar a terra, 500 Braças propõe uma mudança de perspectiva: pensar a infraestrutura da arte como questão estética, política e econômica. Ao fazer da permanência uma prática coletiva, o Vilanismo sugere que o futuro da produção artística também depende das formas como seus próprios territórios são construídos e compartilhados.
PROGRAMAÇÃO: CORTEJO, CHURRASCO E BAILE
Uma programação especial que ocupa diferentes pontos do centro histórico de Curitiba nos dias 9 e 11 de julho, marca a abertura de 500 Braças. Todas as atividades são gratuitas.
As atividades começam na quinta-feira (9), às 19h, com uma mesa de conversa entre integrantes do Vilanismo e o público, no MUPA. O encontro apresenta os principais eixos da exposição e discute as pesquisas que deram origem ao projeto.
No sábado (11), dia da abertura, a programação tem início às 9h no Caderno Listrado, onde o público será recebido para o credenciamento e concentração do Cortejo Negro. Durante a concentração, o público também é convidado a levar um moletom em bom estado, que pode ser trocado por outro, produzido especialmente para o projeto pelo Vilanismo, e que também funcionará como ingresso para o Baile 500 Braças, que começa mais tarde neste mesmo dia. As peças doadas pelo público serão destinadas à FORT (Frente de Organização dos Trabalhadores).
O Cortejo Negro começa às 10h, quando artistas e participantes seguem em caminhada pelo centro da cidade, passando pela Igreja Nossa Senhora do Rosário dos Pretos, Instituto Confluir, Sociedade Operária Beneficente 13 de Maio e Espaço da Zé, até chegar ao MUPA.
Ao longo do percurso, o cortejo estabelece um diálogo com espaços fundamentais para a memória e a organização da população negra em Curitiba. Já no museu, a programação continua com um churrasco ofertado pela irmandade, partilha de alimentos, hasteamento da bandeira do Vilanismo, instalação de obras no jardim e momentos de convivência entre artistas e público.
A abertura da exposição acontece às 14h, no MUPA. Já as atividades de inauguração seguem até a noite, com o Baile 500 Braças, na Casa Cultural Àlàáfíà, a partir das 18h. A festa celebra a abertura da exposição com música por Dow Raiz e Samba da Casa Álàáfíà com Toni Bleke.

