VICENTE DE MELLO | Paço Imperial

A nova exposição do fotógrafo ­Vicente de Mello – que tem sua trajetória no campo artístico marcada pela reflexão das possibilidades de configuração da linguagem fotográfica – acontece, presencialmente, no Paço Imperial, RJ a partir de 25 de fevereiro.

Adepto do colecionismo, Vicente desenvolveu uma técnica de arquivo que reelabora o objeto em si, propondo novos diálogos formais. Em Limite Oblíquo, sua coleção de sedimentos de ressacas, coletados na praia de Itacoatiara, Niterói, geraram imagens que têm sua gênese ligada ao impacto de eventos meteorológicos extremos sobre o oceano, que se reordena em manipulações poéticas.

Vicente mantém o hábito de coletar e guardar objetos desde a infância. – Sempre tive vontade de deter por perto as coisas que me instigam, que me atraem. Esta coleção, por exemplo, começou quando eu tinha três anos, época em que meus pais compraram um terreno em Itacoatiara, e me vi fascinado com as conchas, galhos e outros objetos de formas interessantes que encontrava na praia após as ressacas do mar – revela.

Limite Oblíquo é resultado dessa memória guardada há tantos anos. Recluso durante
a pandemia, período definido por ele como “momento de espera”, imergiu em seu trabalho e resolveu dar vida aos sedimentos utilizando sua mesa de luz. Ele conta que pegou a caixa com os sedimentos e foi colocando um a um sobre a mesa, fotografando as imagens com a luz que vinha de baixo para cima. Cada peça fotografada foi colocada em uma outra caixa. Quando acabou esse primeiro processo, recomeçou um segundo, tirando os sedimentos já fotografados da segunda caixa para remontar outras possibilidades. Um a um todos voltaram para a caixa original.

– Tudo foi feito ao longo de duas noites – afirma Vicente, ao revelar que não tinha ideia de qual seria o resultado das imagens criadas contra a luz, o inverso do fotograma. Ao final, um universo de sombras e alegorias. – Um cosmos de imagens com sedimentos reconfigurados pelos contrastes formados pela obstrução da luminosidade – esclarece.

– As séries de Vicente de Mello versam sobre elementos e características do meio fotográfico como a luz, a câmera obscura e as possibilidades de enquadramento, tensionando e subvertendo as possibilidades expressivas da linguagem fotográfica. Suas contribuições no desenvolvimento da história da fotografia se expressam ao longo de suas três décadas de carreira – afirma o curador, Aldones Nino.

A montagem de Limite Oblíquo também é singular. – É um jogo visual que remete ao movimento das marés: quando o mar se retrai leva o que encontra na orla; quando volta, devolve à areia o que encontrou – afirma Vicente.

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