Vera Chaves Barcellos | Zielinsky

Com mais de seis décadas de trajetória artística, Vera Chaves Barcellos inaugura, em 22 de agosto, a exposição Não lugares, na Zielinsky, em São Paulo. A mostra reúne trabalhos inéditos nos quais a artista investiga espaços de trânsito e permanência provisória por meio da fotografia, do vídeo e de procedimentos de montagem, inversão e sobreposição de imagens. Um texto crítico assinado por Cristiana Tejo acompanha a exposição.

Referência da arte contemporânea brasileira, Barcellos participou de movimentos decisivos para a renovação das práticas artísticas no país a partir dos anos 1970. Integrou o Nervo Óptico, coletivo criado em Porto Alegre que questionou os formatos tradicionais de exposição e circulação da arte, e foi uma das fundadoras do Espaço N.O., dedicado à produção experimental. Ao longo da carreira, participou das bienais de São Paulo (1967, 1977, 1983, 1989), Veneza (1976), Havana (1984) e Mercosul (2005), além de ter integrado a histórca exposição Mulheres Radicais. Sua obra foi incorporada a importantes acervos nacionais e internacionais.

Conhecida por trabalhos históricos como Epidermic Scapes e On Ice, ambos da década de 1970, ela optou por concentrar Não lugares em sua produção recente. “Tenho feito exposições mais abrangentes, nas quais mostro trabalhos antigos. Desta vez, quis mostrar que estou viva e trabalhando ainda, aos meus 88 anos”, afirma.

O título parte do conceito formulado pelo antropólogo francês Marc Augé para designar espaços de passagem, como aeroportos, estradas e salas de espera — ambientes que não se configuram como lugares de moradia, trabalho ou construção de vínculos duradouros. A ideia levou Barcellos a revisitar seu extenso arquivo fotográfico, no qual encontrou imagens produzidas durante deslocamentos e momentos de espera.

“Lido muito com a experimentação com imagens, com aquilo que elas podem fornecer de interessante para formar um trabalho, um conceito ou uma ideia”, explica. “Percebi, olhando meus arquivos, que tinha muitas fotografias de não lugares, de espaços de trânsito e aeroportos. Havia ali um viés interessante a ser explorado.”

As obras nasceram de registros realizados em diferentes períodos e circunstâncias, muitos deles feitos espontaneamente com o celular. Em vez de documentar esses ambientes de maneira objetiva, a artista volta sua atenção para reflexos, sombras e figuras de passagem, tornando instáveis os limites entre presença e ausência, figuração e abstração.

Em Fantasmas, fotografias do chão brilhante de um aeroporto mostram apenas os reflexos invertidos dos passageiros, transformados em aparições sem identidade reconhecível. Outro trabalho parte de imagens do trânsito em um dia de chuva em São Paulo. Convertidas em negativos e sobrepostas, as fotografias fazem carros, luzes e superfícies molhadas parecerem se dissolver.

A exposição apresenta ainda backlights originados de fotografias de balões decorativos encontrados em uma sala de espera. Sombras e reflexos de pessoas surgem em suas superfícies e, depois de ampliados e invertidos, aproximam-se da abstração. Em um vídeo construído a partir de fotografias sobrepostas, personagens atravessam uma praia ao final da tarde, surgindo e desaparecendo na paisagem como figuras quase espectrais.

Grande parte dos trabalhos assume a forma de dípticos, nos quais uma imagem é repetida com alterações de orientação ou cor, frequentemente em diálogo com seu negativo. Apesar do uso de ferramentas digitais, a artista preserva as características da tomada fotográfica. “Faço questão de não deformar muito as imagens. São intervenções mínimas. Uso contraste, acentuo um pouco a cor e trabalho bastante com a inversão, com o negativo”, explica.

O conjunto inclui obras produzidas em 2025 e 2026 e um trabalho relacionado a uma série iniciada em 2014, no qual a imagem é dividida em módulos e remontada como um quebra-cabeça. Apresentadas em suportes como tela, metacrilato, backlight e vídeo, todas as obras de Não lugares são exibidas pela primeira vez. A exposição fica em cartaz até dia 3 de outubro.

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