Véio | Galeria Estação

-Conversa Ronaldo Brito e Rodrigo Naves, dia 10 de junho, às 12h.
Quando a Galeria Estação fez 10 anos, em 2014, comemorou seu aniversário com exposição e publicação dedicadas a Cícero Alves dos Santos, o Véio (1948, Nossa Senhora da Glória – SE). Nada poderia ser mais representativo, pois, desde a sua inauguraçãohá 12 anos, a galeria trabalha no sentido de diluir a fronteira que separava artistas não eruditos do circuito da arte contemporânea brasileira.
A obra de Véio é resultado significativo desse processo, que culminou com uma grande individual do artista em Veneza, paralelamente à 55ª Bienal, depois de o escultor ter conquistado a Fundação Cartier, em Paris, onde participou da exposição comemorativa dos 30 anos da instituição francesa, ao lado de outros brasileiros contemporâneos, como Adriana Varejão e Beatriz Milhazes.
Agora, sob a curadoria de Ronaldo Brito, a Galeria Estação realiza Véio – De Surpresa no Mundo, título cunhado pelo crítico em seu texto concebido para a exposição, que já foi apresentada em abril no Rio de Janeiro, por meio de uma parceria entre a Galeria Estação e a carioca Gustavo Rebello.
Para Brito, a obra de Véio traduz o ideal moderno da autossuficiência da forma: “ela sustenta a sua surpresa estética como se quisesse aparecer, de novo e sempre, pela primeira vez”. Ressalta ainda que, pelo aspecto disforme do trabalho, muitas dessas figuras mereceriam se incluir na categoria do Grotesco, mas pela divertida economia de meios, espontaneidade com que vêm a ser e certo tônus vital descontraído, ele prefere a rubrica do Pitoresco.
As cerca de 20 esculturas reunidas na mostra apresentam troncos, galhos e raízes que já têm presenças próprias, nas quais Véio apenas intervém pontualmente, esculpindo ou pintando, para tornar mais explícitas as figuras e formas que vislumbra naqueles elementos naturais. Como destaca Brito, as cores são fundamentais na obra do artista. “E não apenas porque se mostram abertas, sem nuances ou matizes, extrovertidas e vibrantes, aptas a competir com a luz brutal do sertão, mas também por aturar de maneira substantiva na definição do corpo da escultura, caracterizando a sua personalidade”. Para o crítico, as cores promovem ainda a interação entre as partes das peças de modo a torná-las um Todo descontínuo moderno. “As esculturas não se resumem a simples figuras projetadas contra um fundo neutro. Elas reagem a seu entorno, acontecem no mundo”, completa.
Assim como muitos de seus conterrâneos, o escultor recebeu seu nome em homenagem a Padre Cícero. Já o apelido surgiu porque ele gostava muito de escutar as conversas das pessoas mais velhas. Autodidata, Véio admirava a cultura popular desde criança, quando começou a executar suas primeiras peças em cera de abelha. A relação intensa com seu meio fez o artista criar, ao lado de seu ateliê, localizado no interior sergipano, um “Museu do Sertão”. Muitos dos objetos recolhidos no museu testemunham o embate do homem do campo com a natureza. São chapéus de couro, utensílios domésticos, maquinas rústicas, roupas e acessórios que fazem parte da vida do sertanejo.

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