O alimento como memória e linguagem artística é o ponto de partida da exposição A ponta da língua, da artista visual paulistana Valentina Tedeschi, selecionada no 9º Programa de Seleção da Piccola Galleria da Casa Fiat de Cultura. A mostra reúne quatro esculturas e uma pintura sobre ferro que exploram as relações entre corpo e natureza por meio de materiais associados ao universo da alimentação.
A pesquisa de Valentina Tedeschi parte de uma herança cultural ligada à alimentação, presente em sua família tanto como tradição quanto como ofício. Avós, pais e outros familiares dedicaram-se à gastronomia, tornando a cozinha um espaço de convivência e transmissão de saberes. Após concluir a graduação em Artes Visuais e passar uma temporada vivendo e trabalhando em um restaurante na Itália, a artista reconheceu nesse universo o eixo de sua investigação. Em sua produção, ingredientes, utensílios e materiais deixam de cumprir apenas suas funções cotidianas para revelar processos de transformação, permanência e deterioração, estabelecendo relações entre o fazer culinário e a prática artística.
Na exposição, o ferro ocupa um lugar central. Presente em panelas e utensílios de cozinha, o material é utilizado em sua condição mais bruta, marcada pela ação do tempo e pela oxidação. Em vez de ocultar a ferrugem, a artista a incorpora ao processo criativo, fazendo com que ela participe da construção das imagens e das superfícies das obras. O metal, assim como os alimentos, passa a registrar a passagem do tempo e a conservar vestígios de sua própria história.
Essa investigação se estende a outros materiais, como o mel, um dos conservantes naturais mais antigos da humanidade. Em esculturas como Escorpião-amarelo e Artrópode, o mel é moldado em formas inspiradas em animais que fazem parte das cadeias ecológicas ligadas à alimentação. Ao longo da exposição, o material escurece naturalmente, alterando sua tonalidade e tornando visível a ação do tempo sobre a própria obra.
A relação com o alimento está presente também em obras como Espetinho, na qual um cogumelo metálico é atravessado por um espeto, estabelecendo um diálogo entre o ingrediente em seu estado natural e as transformações provocadas pelo ato de cozinhar. Já em Arroz com feijão, Valentina utiliza uma placa de ferro oxidada para registrar as silhuetas dos dois alimentos que compõem um dos pratos mais emblemáticos da culinária brasileira, inspirando-se no Banco Global de Sementes de Svalbard, na Noruega, onde variedades agrícolas são preservadas para as futuras gerações.
O título da mostra faz referência ao antigo mapa da língua, que atribuía à sua extremidade a percepção do sabor doce. Embora essa teoria tenha sido superada pela ciência, ela permanece como uma construção cultural e serve de ponto de partida para a artista refletir sobre os modos como experimentamos o alimento e construímos memórias por meio do paladar.

