Sob curadoria da museóloga Letícia Noveletto, a exposição Urbanidades: nem tudo é concreto reúne dez obras de arte pública selecionadas a partir de um universo de mais de 300 trabalhos já mapeados pelo Museu a Céu Aberto de Balneário Camboriú. Entre esculturas, monumentos, murais e grafites, a mostra, que ocupará a Galeria Municipal de Arte, propõe um olhar para a produção artística que ocupa a paisagem da cidade e para as relações entre arte, memória e transformação urbana.
Conhecida pela praia, pela verticalização e pelos grandes empreendimentos, Balneário Camboriú guarda também uma paisagem formada por centenas de manifestações artísticas. As obras mapeadas ajudam a contar histórias relacionadas à pesca da tainha, à cultura Hip-Hop, ao graffiti, à religiosidade, à natureza, às transformações dos bairros e às pessoas que ocupam os espaços públicos.
A curadoria das dez obras não busca estabelecer uma seleção das produções “mais importantes” da cidade. Reúne artistas de diferentes gerações e linguagens para abordar capítulos distintos da relação entre arte e território. A memória dos monumentos, a efemeridade do graffiti, os grandes murais, a identidade local, a presença feminina na arte urbana e as transformações da paisagem estão entre os temas que atravessam a exposição.
Outro eixo é a relação entre arte e verticalização. A pesquisa investiga os efeitos da Lei Municipal nº 1.677/1997, legislação de zoneamento que, por meio do dispositivo conhecido como Lei das Fachadas, estabeleceu a instalação de obras de arte na frente, fachada ou jardim de determinadas edificações. A medida criou uma relação particular entre produção artística, arquitetura, construção civil e iniciativa privada e deixou marcas na identidade visual de Balneário Camboriú. Os artistas selecionados são: Marcelo Urizar, Bruno Thomé, Eduardo Vaso, Fernando Cardoso (Nando), Jorge Schroder, Julia Rodrigues, Luis Felipe Berejuk (Berejuk), Resk, Paulo Siqueira e Claudio Vuillerot.
Entre os trabalhos selecionados está “Cascata das Sereias”, de Jorge Schroder. A escultura, que durante anos integrou a paisagem da cidade, foi retirada de seu local original sem o devido acompanhamento do artista que, atualmente guarda a obra, à espera de uma realocação da mesma. A situação exemplifica uma das questões que atravessam o projeto: o que acontece com as obras de arte pública – e com as memórias construídas em torno delas – à medida que a cidade se modifica?
Também integra a pesquisa “O Marambaia”, de Paulo Siqueira. A obra representa o olheiro da pesca da tainha, personagem ligado a uma prática tradicional do litoral catarinense, e durante décadas esteve incorporada à paisagem de Balneário Camboriú. Retirada de seu local original no final de 2024, a escultura ajuda a discutir como obras públicas podem se transformar em referências afetivas e simbólicas para quem vive a cidade.
“Os cartões-postais normalmente apresentam uma imagem muito específica de Balneário Camboriú: a praia, os edifícios, a verticalização, o turismo. A arte pública permite olhar para aquilo que existe entre essas grandes imagens”, afirma Letícia Noveletto. “Assim como a arquitetura mostra como a cidade foi construída fisicamente, a arte pública nos ajuda a compreender como ela foi construída simbolicamente.”


